Quero tratar, sob o enfoque da sociologia, um dos grandes dilemas enfrentado por boa parte dos párocos no exercício da arte de administrar uma paróquia: saber equilibrar os “dois pilares” de sustentabilidade eclesial que são os bens materiais e os bens simbólicos.

De um lado, os bens materiais, entendidos como o patrimônio da paróquia, isto é, seus bens móveis e imóveis, o financeiro e todas as relações administrativas que ele desencadeia. Relações e procedimentos que fazem da paróquia, perante o governo, uma empresa do terceiro setor e que, como tal, deve ser administrada cumprindo com todas as suas obrigações empresariais e encargos sociais. Por outro, os bens simbólicos.

Pierre Bourdieu definiu por bens simbólicos, entre outras coisas, os bens de salvação: a cura das almas, o atendimento dos fiéis, a administração dos sacramentos, enfim, os trabalhos pastorais que se configuram na ação do pastor, isto é, do pároco.

Visão de conjunto

O segredo da boa administração está em equilibrar estes dois lados aparentemente opostos, mas que na verdade estão interligados. Fazer da administração paroquial, uma ação que contemple estas duas dimensões tão distintas, porém, indissociáveis, não é tarefa para qualquer um. A tática de uma administração eficaz está em lidar com a burocracia como uma missão e dimensão missionária, com menos burocracia.

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É comum, por diversos motivos, que alguns padres deem prioridade à dimensão pastoral e deixe em segundo plano a dimensão administrativa, o financeiro. Porém, essa pode ser uma falha no próprio processo de formação do padre que não o preparou para lidar com estes dois lados de uma paróquia.

O padre é, sem dúvida, primordialmente, pastor de almas, mas não pode esquecer que a alma de seus fiéis é parte de um corpo humano, que é parte de um corpo social, que é parte de uma comunidade paroquial com necessidades de diversas categorias, inclusive a econômica. No entanto, para responder a tais necessidades, a paróquia carece do econômico tanto quanto carece de espiritualidade. Assim sendo, há um entrelaçamento de dependências que vão das necessidades sociais as necessidades espirituais e que tratar uma sem contemplar a outra é, no mínimo, falta de visão eclesiológica.

Fidelidade na missão

Assim sendo, o primeiro passo é saber que para o desenvolvimento de um bom trabalho pastoral, missionário, a paróquia carece de bens materiais: boa infra-estrutura de suas dependências, salas equipadas, templo bem mantido, materiais litúrgicos atualizados, etc. Tudo isso depende do recurso financeiro. Para isso o pároco, ou quem faz a sua vez, deve ser um administrador bom e fiel, como aquele da parábola bíblica (Mt 25, 14-30), a quem foram confiados cinco talentos e com os quais soube lucrar outros cinco. Ele deve ter visão de empreendedor e não enterrar os talentos que Deus lhe confiou em uma paróquia, cuidando apenas de uma de suas dimensões. Nenhum atendimento pastoral será de boa qualidade se não houver recursos que supram as necessidades pastorais. Para isso é preciso saber equilibrar a administração dos bens, sejam eles materiais ou simbólicos.

Como manter esse equilíbrio? Não existe uma receita mágica, mas algumas atitudes poderão ajudar na arte de administrar uma paróquia.

7 funções imprescindíveis para a gestão em sua paróquia

1. Distribua funções: sozinho nenhum pároco consegue ir muito longe nos seus trabalhos, por mais boa vontade que ele tenha. É preciso distribuir funções, seja na pastoral, seja na administração ou no planejamento paroquial.

2. Tenha bons assessores: tanto na dimensão pastoral quanto na dimensão administrativa, é fundamental que o pároco esteja bem assessorado. Bons coordenadores de pastoral farão da paróquia uma célula viva da Igreja. Pessoas íntegras e qualificadas na administração farão com que a paróquia tenha sempre recursos para a missão.

3. Invista na Pastoral do Dízimo: o dízimo é a pastoral que está na fronteira entre o material e o simbólico, a administração e a missão. Ao mesmo tempo em que o dízimo é uma pastoral, ele é também o responsável pelos recursos financeiros de nossas paróquias. Recursos que irão suprir as outras necessidades, tanto da parte burocrática, quanto da missão. Paróquias que não priorizam a pastoral do dízimo como parte da sua missão evangelizadora, tendem a ficar presas a formas arcaicas de captação de recursos para a sua manutenção.

4. Tenha uma boa equipe de festas: infelizmente nem só do dízimo sobrevive a maioria das paróquias. Se esse for o caso de sua paróquia, procure montar uma boa equipe de festas ou promoções. Eles se encarregarão de organizar e realizar os eventos que irão arrecadar fundos para a paróquia. Porém, não esqueça de cuidar para que esses eventos não desvirtuem as suas finalidades que devem ser essencialmente de manutenção e pastorais.

5. Conte com a ajuda de profissionais: tanto na área pastoral quanto na administrativa, contar com pessoas bem preparadas é fundamental. Convide bons assessores, nas mais diversas áreas, para dar formação para os agentes de pastoral. Contrate profissionais que ajudem a resolver problemas administrativos. O mesmo vale para outros serviços que envolvam bens materiais e patrimoniais da paróquia.

6. Mantenha a organização: em qualquer uma das dimensões da administração paroquial a organização é fundamental. Mantenha um calendário pastoral, com reuniões e eventos que sustentarão acesa a chama da missão. Esteja atendo para o cumprimento desse calendário.

7. Equilibre ação e oração: nenhuma paróquia sobrevive somente de oração ou de ação. A fé sem obras é morta, diz Tiago (2, 26), mas a ação sem oração se transforma num ativismo vazio. Manter esse equilíbrio é primordial para o bom gerenciamento paroquial. É ele que fará da paróquia uma instituição diferente de qualquer outra.

Estes são alguns pontos que poderão ajudar a manter unida a administração patrimonial, financeira e a missão evangelizadora na paróquia. O padre, como gerenciador do sagrado, tem nas mãos a responsabilidade de buscar o equilíbrio entre o material e o espiritual, o humano e o divino.

Pe. José Carlos Pereira, CP é Doutor em Sociologia e Autor de diversos livros, dentre eles “Assembleia Paroquial. Roteiro de preparação e realização”, pela Editora Vozes e “Religião e exclusão social”, pela Editora Santuário.

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Fonte: Revista Paróquias, ed. 23. Para ler mais matérias sobre gestão eclesial, assine já: (12) 3311-0665 ou [email protected]

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