Mari Bueno é artista plástica e há mais de 32 anos mora em Sinop, cidade que é uma das portas de entrada da Amazônia pela região norte de Mato Grosso. Em 2006, a convite do Pe. João Salarini e de Dom Gentil Delazari, Bispo Diocesano de Sinop, começou a pintar os painéis internos da Catedral Sagrado Coração de Jesus. Mari Bueno também buscou especialização acadêmica em Arte Sacra e Espaço Litúrgico-Celebrativo. Logo, o projeto Cores da Catedral, desenvolvido com apoio do Ministério da Cultura, por meio da lei Rouanet, foi concluído e apresentado à comunidade em uma missa comemorativa. É sobre esse trabalho de cinco anos, de 363 m² de pintura e sobre sua percepção de arte sacra que Mari Bueno fala para a Revista Paróquias.

O que representa a arte sacra em sua vida?

      Algo muito além do que posso chamar simplesmente de profissão. Meu trabalho sempre foi a expressão da minha vivência nesta região amazônica, uma busca por outro sentido nas corriqueiras imagens que a retratam. E quando a arte sacra passou a fazer parte da minha vida fui conduzida a um mundo muito mais significativo e resultou no meu crescimento não só artístico, mas também humano e espiritual.

    O ‘estar a serviço’ da liturgia é realizar um trabalho no qual compreendi o que é ser apenas um veículo e o resultado não é mais uma expressão minha, pessoal, um simples ‘criar’, mas sim, o de uma busca fundamentada para realizar uma arte que exige unidade com os outros elementos litúrgicos e que seja um testemunho silencioso escrito com a imagem. É uma arte que tem sentido e para realizá-la exige muita concentração, oração, estudo e principalmente a humildade de reconhecer a imperfeição humana diante de uma beleza divina que não se é capaz de reproduzir fielmente.

Como artista plástica, quais são as orientações que podem ajudar o líder religioso na composição de arte nas igrejas?

     Inicialmente os estudos devem partir de um diálogo entre os clérigos, as lideranças e a comunidade como uma forma de conhecer a cultura e os anseios dos fiéis. Observando sempre as normativas que a Igreja nos propõe, as quais ao serem estudadas, ajudarão muito a esclarecer a melhor forma de executar o trabalho de arte dentro do espaço proposto. Assim, parte-se de um princípio de respeito com a comunidade, que é o corpo místico da Igreja, evidenciando que a arte não é meramente decorativa dentro do espaço sagrado, mas tem uma função a exercer.

     Na composição da arte deve-se manter do princípio ao fim da elaboração e execução do projeto a simplicidade, mas com nobreza, utilizando materiais que sejam verdadeiros, de qualidade, nada de imitações, pois é o verdadeiro que vai auxiliar o homem no seu encontro com o mistério. Deve-se tomar cuidado com a temática escolhida, cuidar com os excessos e a falta de unidade. Ela precisa estar integrada, fazer parte de uma leitura harmoniosa para que conduza o fiel e não o distraia pelo excesso de informação. Observar também os tamanhos e se não há duplicidade de imagens, mantendo uma composição equilibrada com fundamentos litúrgicos e teológicos, e sempre ressaltando que Cristo é o centro.

Partilhe com os nossos leitores sobre quais desafios encontra na história dos espaços cristãos?

   O cuidado e respeito com a história dos espaços cristãos é um dos maiores desafios. Orientar para que a mudança não seja feita aleatoriamente, que devem ser antes estudadas e só executadas com autorização é um trabalho de formação que precisa ser intensificado nas comunidades.  As intervenções que ocorrem na história de uma Igreja exigem planejamento e depois de executar a devida manutenção. Pois é isto que mantém viva a história cristã. Observar o que é significativo, o que deve ser conservado e o que pode ser alterado, faz parte do respeito para com o sagrado. Muitas vezes o que parece esteticamente não compatível com a atualidade tem um valor artístico e cultural que só será reconhecido com o tempo.

   Então, é de suma responsabilidade de quem atua hoje valorizar o que já passou, conservar e respeitar os bens da Igreja. O que será construído hoje não precisa ser uma imitação da arte e arquitetura que fez parte dos séculos da historia cristã, ela necessita ser atual, com características que se adaptem a região e a cultura local, marcando o seu tempo. Tendo sempre consciência que conservação e inovação embasadas na liturgia podem andar juntas harmoniosamente.

Elaborar um projeto desde o início é um caminho linear, mas e quando é necessário fazer intervenções naquilo que já foi criado anteriormente?

     Neste caso a cautela é o primeiro passo. Realizar uma intervenção deve partir de um profundo estudo deste espaço. Procurar ver se já ocorreram intervenções ou serão necessárias as primeiras; o que faz parte da historia e se foi tombado pelo patrimônio histórico.

        E quando estas intervenções ocorrem devem estar explícitas que são contemporâneas, não se volta ao estado original, nada que imite uma época, como por exemplo, fazer uma réplica de uma cadeira do século XIX ou de um altar barroco. Deve-se ficar claro no espaço sagrado onde cada intervenção ocorreu e seu período, para marcar a história que acompanhou esta Igreja e todas as suas fases. Pode-se conciliar a preservação do que já foi criado, com seu valor histórico e artístico e com as exigências litúrgicas atuais para que não aconteça a destruição de obras de valor incalculáveis.

Quais são os critérios para atender as demandas que implicam em mexer em obras de arte, desenhos e afrescos centenários, por exemplo?

      Vendo-se a necessidade de restauração o primeiro passo é a contratação de mão de obra especializada para a realização de um estudo e um acompanhamento que deve ocorrer antes e durante o processo de execução, sendo necessária a autorização da autoridade competente (Bispo ou comissão diocesana). Este estudo prévio é muito importante para buscar na história destas obras as diversas fases, acréscimos, reformas, alterações e restaurações que possam ter ocorrido anteriormente. A vistoria deve ser rigorosa, pois vai facilitar posteriores decisões.

    A restauração é uma operação de caráter excepcional, na qual, apenas em casos específicos, se aceita o uso de técnica construtiva contemporânea. Restaurar não é voltar ao estado inicial da obra, mas respeitar as contribuições de todas as épocas e admitir apenas a retirada ou modificação de elementos que podem comprometê-la em seu valor artístico e histórico. Não esquecendo que todo trabalho deve ser detalhadamente registrado e documentado por fotos, desenhos, relatórios e outros materiais que possam auxiliar na manutenção e futuras restaurações se necessário.

Fale para os nossos leitores, que são gestores de igrejas, quais dicas podem ajudar na conservação das artes de sua comunidade.

       Isto deve fazer parte de um trabalho constante e não apenas quando se observa alguma alteração na obra. Vários fatores necessitam de monitoramento, como as trincas e umidades que podem ocorrer em todo o edifício, paredes, pisos e teto. No caso de utilização de madeira o cuidado se intensifica na prevenção para evitar cupins e outros fatores que interferem neste material. A iluminação é também um fator muito importante, pois pode ocasionar a alteração de cores em pinturas e esculturas, como também a falta de manutenção da instalação elétrica que pode causar danos irreversíveis às obras.

       Os produtos utilizados para a limpeza devem ser cuidadosamente escolhidos, buscando uma avaliação de especialistas para relatar qual tipo de material foi utilizado na obra e como pode ser feita a limpeza, sendo que muitos produtos hoje no mercado podem ocasionar sérias alterações. Em obras recentes, o artista também deve deixar registrado o material que foi utilizado e a melhor forma de conservação. Registros como fotos são necessários para auxiliar em uma futura restauração.

Por último, deixe sua maior expressão sobre o que é a arte sacra para Igreja no Brasil.

    A arte sacra no Brasil não se limita apenas a história da Igreja, mas de todo o país já que foi a primeira expressão artística no Brasil colonial. Seu patrimônio é de valor inestimável não apenas material, mas principalmente cultural. Somos um país jovem, que tem sua história marcada por grandes momentos e que deve se orgulhar por sermos uma nação que constrói Igrejas, ao contrário de outras, que na atualidade apenas mantém as que foram construídas há muito tempo. Temos períodos que a arte foi inspirada por culturas ocorridas em outros continentes, mas também uma arte sacra que foi a expressão do povo brasileiro.

    A diversidade cultural de nosso país fez com que tivéssemos uma arte riquíssima em que não há um estilo definido, resultado de mudanças que ocorreram por meio do tempo e dos lugares onde foi desenvolvida. Retrata o caminho de uma grande nação cristã que faz de sua arte um verdadeiro símbolo do mistério Divino.

Site: www.maribueno.com.br

Fonte: Revista Paróquias, ed. 30. Para ler mais matérias sobre Arte Sacra, assine já: (12) 3311-0665 ou [email protected]

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