Na semana passada fui surpreendida por um colega contando que gosta muito de namorar, mas, “veja quantas mulheres lindas estão à nossa volta”. Isso me lembrou uma conversa no salão de cabeleireiro outro dia, quando uma fisiculturista comparava o desempenho sexual de cada parceiro e acusava aqueles que considera “de baixa performance”. Era uma afronta. Sentia-se injuriada por perder tempo sem superar as expectativas.

Em ambos os casos, concluo que o outro existe exclusivamente para lhe dar prazer. Essas conversas invadem nosso cotidiano porque fazem parte de uma cultura que reduz a sexualidade humana a impulsos e instintos sexuais. O outro sujeito, aquele com quem me relaciono, tornou-se um meio para um fim: suprir, simplesmente, minhas necessidades.  Vem daí a obsessão pelo corpo ideal, o culto pelas celebridades e a instabilidade dos relacionamentos. Afinal, é grande a oferta de corpos disponíveis.

A isso o sociólogo Zygmunt Bauman denominou de “amor líquido”, ao escrever sobre a fragilidade dos laços humanos. Os relacionamentos que se iniciam já vêm com etiqueta de validade. “Mantenha-os enquanto eles te trouxerem satisfação e os substitua por outros que prometem ainda mais satisfação”, diz.

Victor Frankl, conceituado psiquiatra e pai da logoterapia, explorando sobre essa tendência de viver a vida sexual desintegrada da vida pessoal, como se fossem dimensões separadas, vê nisso um tipo de neurose que é resultado de frustração existencial. “O sexo é desvalorizado na medida em que é desumanizado. Quem não é capaz de amar, acaba por envolver-se na promiscuidade. Não é de admirar que procure compensar a perda de qualidade pela quantidade”.

São indivíduos frágeis. Em todas as idades, tem tanta gente se escondendo dentro do apartamento próprio, do carro próprio, do mundo próprio e existe tanto medo de que esse outro – que serve apenas para fins específicos – de repente queira entrar e descobrir a vulnerabilidade dos seus sentimentos! É a imaturidade de quem não quer aprender a regar os jardins do dia a dia.

Melhor do que se envolver com gente assim, é estar solteiro. Preencher os dias de atividades e colocar neles cor, mas não se submeter a aceitar menos do que merece.  Penso que a gente tem que esperar, sim, por alguém que não reprima nossos sonhos nem queira estabelecer limites para o tamanho do amor. Que não tenha medo de ouvir confissões apaixonadas e respeite sentimentos delicados.

Temos que acreditar ser possível esperar por alguém que vai contar para os amigos sobre nossas conversas inteligentes. Que vai dizer que está tudo bem se quiser ser uma executiva reconhecida, mas que está tudo bem também se quiser viver da sua arte ou se dedicar a ser mãe. Alguém que vai torcer e se alegrar com suas alegrias, mas que também vai tentar te consertar quando estiver quebrada, porque é capaz de conviver com fracassos.

Ah, minha gente, não sei vocês, mas eu quero é reciprocidade! Se ainda não é assim… Feliz Dia dos Solteiros pra você também. Relacionamento é para os fortes. Amar requer coragem. É para quem não tem medo de compromisso e é maduro para responsabilidade. Se ainda não foi assim, está tudo bem. Se ninguém vier, está tudo certo, porque a vida já está bela e transbordando. Mas se uma hora o amor bater à porta, que retire antes as sandálias. Meu coração é uma pérola rara e meu corpo é solo sagrado.

Marília Saveri

Fonte: Shalom

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