Na introdução da Exortação Apostólica Pós Sinodal “Amoris Laetitia” o Papa Francisco diz que a Bíblia desde o Gênesis ao Apocalipse fala do casal, da família.

Quando em 1977 a Diocese de Umuarama, Paraná, se preparava para a implantação da Pastoral do Dízimo, escrevi um livro com vinte temas de reflexões bíblicas sobre o dízimo iniciando pelo Gênesis e terminando no Apocalipse (Dízimo, Paulus Editora).

Nesses quarenta anos, aqui na Diocese e por esse Brasil afora informei, formei e incentivei a aceitação e a implantação e animação do sistema do dízimo com os mais diversos temas. No aprofundamento dessa matéria e pela experiência pessoal fui sentindo, cada vez mais, que o dízimo é questão de fé e amor. Ainda bem que nunca vi o dízimo como uma maneira de arrecadar ou ganhar mais dinheiro, pois se assim fosse hoje me sentiria bem frustrado.

Pela prática pude convencer-me de que a maneira melhor de compreender e participar do sistema do dízimo é se aprofundando no conhecimento e no amor a Deus e à Igreja. Consequentemente, a melhor maneira de levar o povo católico entrar no espírito de dízimo é levá-lo conhecer mais a Deus e os ensinamentos de Jesus, a fim de conhecer e viver bem a sua religião.

Por ocasião da implantação do dízimo, foi decidido em assembleia diocesana que o dízimo seria livre e espontâneo. Muitos em vez do dízimo ofereciam o centésimo. Com a catequese permanente feita por meio das Comunidades Eclesiais de Base e demais pastorais, os fiéis foram crescendo na fé. Procuramos mostrar o que Deus quer de nós, baseados na 2Cor 9, 7-9 que diz: “Sem ficar triste ou constrangida, cada pessoa dê conforme decidir seu coração, pois Deus ama quem doa com alegria. Poderoso é Deus para vos dar muito mais que precisais, de modo que tendo sempre o necessário possais ainda ajudar em todo o tipo de boa obra, conforme diz a Escritura: generosamente partilhou seus bens com os pobres, e sua generosidade dura para sempre”. E deste modo, conforme cresciam na fé, iam tornando-se capazes de ‘doar com alegria’ 2, 3, 5 ou 10% do que produziam cada mês.

O dízimo é uma pastoral educativa que leva o cristão a participar melhor da vida da Igreja. Procuro mostrar que a Igreja é como uma família, é a grande família de Deus. Como na família os filhos vão crescendo e vão assumindo responsabilidades, passando não apenas a receber, mas também a contribuir, assim deve acontecer na Família de Deus. Na medida em que vamos crescendo como cristãos, evoluindo na fé e no amor, precisamos ir assumindo maiores responsabilidades.

Ser bom católico é participar bem da vida da Igreja. É sentir que eu sou da Igreja e a Igreja é minha, é conquistar o sentimento de pertença.

E participar da vida da Igreja inclui muita coisa:

  1. Estar presente nas reuniões e celebrações;
  2. Assumir trabalhos apostólicos em alguma pastoral;
  3. Propagar sua fé e seu amor às outras pessoas, especialmente aos afastados;
  4. Orar pela Igreja, pelos cristãos e pela conversão de todo mundo.

E, nesse espírito missionário, ser responsável, juntamente com os demais cristãos, para que a Igreja tenha os meios financeiros para cumprir bem sua missão de evangelizar. Deste modo, o dízimo aparece com normalidade entre tantas outras obrigações do bom cristão. E mesmo os dizimistas incapazes de anunciar Jesus por ser idoso, doente ou analfabeto participa da missão oferecendo suas orações, sacrifícios, sofrimentos e dízimo.

Quem, sem ter esta fé, amor e compreensão oferece dízimo tem que ser ‘burro’ ou ‘trapaceiro’. Burro porque contribui financeiramente para uma coisa na qual não crê nem ama. Trapaceiro porque quer enganar até a Deus tentando comprar o céu com dinheiro.

Encerrando essa nossa conversa, quero dar meu testemunho. Desde que o dízimo foi oficialmente implantado na Diocese de Umuarama, 01/01/1979, eu e cada padre passamos a receber nosso salário mensal; não precisávamos mais pegar do dinheiro da Igreja para nos sustentar. Desde então, ofereço religiosamente os 10% do que recebo. Cada paróquia envia 10% das entradas mensais para as despesas da Diocese.

Eu ofereço meu dízimo com alegria. “O Senhor é o meu Pastor, nada me falta” (Sl 22, 1). Estamos no 38º ano do dízimo, e posso dizer que nem eu nem a Diocese passamos por crises econômicas porque, de fato, Deus é muito mais generoso que nós.

Dom José Maria Maimone, SAC é Bispo Emérito de Umuarama/PR.

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