Como presbíteros que somos, nos faz bem pensar sobre a nossa existência enquanto tal. Não podemos pensar a nossa condição presbiteral sem esta preocupação com o discernimento acerca de quem somos: a nossa missão, a nossa diocesaneidade, a comunhão, a espiritualidade, a formação permanente, a personalidade e todos os outros elementos que têm a ver com a nossa vida.

Conheça o CONAGE – Congresso Nacional de Gestão Eclesial

Para uma renovação constante da caminhada, que nos possibilite progredir na história, com os demais presbíteros e demais membros do povo de Deus, temos que estar atentos ao processo que nos envolve enquanto homens, cristãos e sacerdotes.

Assine a Revista Paróquias e receba em casa material sobre Gestão Eclesial

A experiência atual, pela qual estou passando, me faz pensar sobre a importância de levarmos a sério duas questões muito importantes para o dinamismo histórico da nossa caminhada, a saber:

a) a nossa catolicidade; e
b) a nossa sinodalidade. Estas duas expressões as tomo, no primeiro ponto, de Henri de Lubac, não se referindo à pessoa do presbítero, mas propriamente sobre a realização da catolicidade eclesial, na Igreja Particular, ou seja, na Diocese; e a segunda, motivado pela preocupação do Papa Francisco de levar avante a sinodalidade eclesial; ou seja, o caminhar junto da Igreja e a sua comunhão nas diferenças.

No primeiro ponto, quero imediatamente ressaltar que o presbítero, e aqui a minha atenção está voltada ao presbítero diocesano, mesmo deixando claro que os religiosos devem viver a mesma experiência no interno das Dioceses, é aquele que assume a sua catolicidade na Igreja Particular, pois neste espaço acontece a universalidade da Igreja, mesmo cientes que somos responsáveis pelo bem de toda a Igreja Universal. Um presbítero não pode ser alguém desligado, nem indiferente à vida eclesial da sua Diocese.

Consciente de que o sinal de unidade da Igreja Particular é o Bispo, como Pastor Próprio, o presbítero assume no dia da sua ordenação a responsabilidade de colaborar com o dinamismo e o bem de todo o povo de Deus que ali está, sob seu pastoreio, com os demais membros do colegiado presbiteral. Ele deve ser um ser humano profundamente católico, no sentido genuíno do termo.

Não pode ser um homem de “tribos”, e aqui me aproprio da expressão de Maffesoli, sociólogo francês, quando fala da formação pós-moderna dos agrupamentos humanos por interesses e atrações comuns; nem, muito menos, uma figura “individualista e solipsista”, na interpretação do pensamento sobre a liquidez contemporânea, presente na obra de Bauman, e que trai profundamente a antropologia e eclesiologia do Concílio do Vaticano II, como mais ainda o Evangelho (Cf. Jo 17). Essas bases de pensamento podem ajudar a pensarmos a situação complexa e confusa na qual se encontram os presbitérios de muitas realidades diocesanas do nosso Brasil.

[Você conhece a ExpoCatólica?!]

Eu diria até que, o embasamento dogmático aqui é de insubstituível importância, quando temos clareza que a doutrina sobre a identidade do presbítero está em função da sua vida e ministério. Na experiência diocesana, o presbítero não pode sombrear a sua dinâmica pastoral formando tribos ou, sendo também, agregado ideológico de partidos e preferencias dicotômicas. Ai, surgem os lobbies e as construções virais que fazem muito mal ao corpo presbiteral. Nesse sentido, para quem tem a missão de gerar e promover a comunhão na vida diocesana, e aqui penso especificamente na pessoa do Bispo, há um grande desafio, que o compromete espiritualmente, intelectualmente e pastoralmente; pois, a vida missionária de uma Igreja Particular depende profundamente da “harmonia e integração do seu presbitério”.

Em tempos do extremismo do individualismo e da neurose social, um grupo humano que não está amadurecido e saudável, não faz bem àqueles para os quais deve ser servidor e promotor da vida cristã e eclesial. Ingenuamente, podemos até pensar que estamos fazendo bem aos outros; porém, o nosso narcisismo nos faz querer fazer o bem a nós mesmos, com os disfarces e as máscaras.

No segundo ponto, vem a questão da sinodalidade presbiteral na Diocese. Um presbítero diocesano existe numa Igreja Particular. Está incardinado nela e precisa caminhar com ela, juntamente com os demais membros do presbitério, seu plano pastoral, seu plano administrativo, suas orientações disciplinares, na interação com os fiéis, religiosos, religiosas, diáconos e as realidades circundantes. Um presbítero na Era pós-moderna não pode mais pensar que a sua vida é protegida por uma redoma sagrada. O mundano e o sagrado estão acontecendo juntos.

Qual o diferencial presbiteral? O mesmo dos demais cristãos: O testemunho de vida, sua conversão e seguimento de Jesus Cristo. Nós, mais do que qualquer outro, temos que sentir com a Igreja. Ou fazemos isso ou, pouco a pouco, perderemos a nossa credibilidade presbiteral, como já acontece muito fortemente na Europa e já presente em nossas paragens. Assumamos com muito senso de responsabilidade o bem das e pelas nossas Dioceses. Não é a Igreja que deve estar à nossa disposição para que nos aproveitemos do que ela nos oferece, mas somos nós que temos a missão de juntos fortalecermos a razão de ser da sua existência para evangelizar. Neste aspecto, é importante assumirmos a nossa existência sinodal.

Por fim, essa nossa existência presbiteral deve ser testemunhada e assumida com muita alegria. “Nós devemos ser padres; simplesmente padres e nada mais do que padres”. Temos que pensar e meditar com o coração aberto à gratuidade de Deus, que é misericordioso para conosco. Assumamos a nossa existência presbiteral, no serviço, na missão, na pobreza, na honestidade, na responsabilidade, na comunhão, na participação, na verdade, na integridade, no testemunho, na doação… Assim o seja!

[Visitantes também têm lugar na ExpoCatólica]

Pe. Matias Soares cursando mestrado em Teologia Moral na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, pertence à Arquidiocese de Natal.

Faça um comentário