Um homem e uma mulher que se amam muito selam suas histórias na celebração belíssima do casamento. Assim se inicia uma vida conjugal. Agora, viverão as bênçãos e os desafios do matrimônio embaixo do mesmo teto e unidos por esse vínculo inquebrantável. Mas e se as coisas começam a ficar insuportáveis? E se o cônjuge se demonstrar outra pessoa, causando sofrimento e angústia ao seu par? E se o relacionamento perde o brilho inicial? Podem separar-se?

Pode se envolver em um novo casamento?

No Catecismo da Igreja Católica temos a claríssima definição que segue: “O vínculo matrimonial é, portanto, estabelecido pelo próprio Deus, de maneira que o matrimônio ratificado e consumado entre batizados não pode jamais ser dissolvido. Este vínculo, resultante do ato humano livre dos esposos e da consumação do matrimônio, é, a partir de então, uma realidade irrevogável e dá origem a uma aliança garantida pela fidelidade de Deus. A Igreja não tem poder para se pronunciar contra esta disposição da sabedoria divina”. (1640). Com todas essas afirmações contundentes, a resposta é que não há maneiras para separar aquilo que Deus uniu!

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Mas, padre, meu marido me traiu e vive bebendo pinga no bar com os amigos, devo continuar com ele? Esse é um exemplo de caso específico. A resposta que virá da Igreja é sempre a de que o restabelecimento da união e do respeito dentro de casa deve partir sempre do diálogo entre os cônjuges, que deverão tentar sempre salvar o sacramento do matrimônio pelo qual optaram. Novamente repetindo, não há possibilidades de separação. Há maneiras de declarar o casamento nulo (dizer que ele nunca existiu) ou de a Igreja conceder uma dispensa do matrimônio (para salvaguardar o direito daquele que sempre lutou para que o matrimônio desse certo, ainda que o outro nunca tenha se esforçado para isso), mas esses são assuntos para outro momento!

O próprio Jesus Cristo rebate as afirmações dos fariseus quando é questionado se o divórcio é licito. Os fariseus usam o Livro do Deuteronômio para dizerem a Jesus que Moisés era a favor de que os homens pudessem dar certidão de divórcio para as suas mulheres que lhes desagradassem. (Cf. Dt 24, 1). Mas Jesus é enérgico nesse ponto. Ele afirma que foi por causa da dureza do coração daqueles antepassados machistas, que despediam as esposas por motivos ridículos.

Moisés, ou o autor do Deuteronômio, queria garantir o direito de as mulheres poderem voltar para a casa com algum subsídio para viver com dignidade, por isso autorizou a certidão de divórcio. Jesus não tolera a ideia de que o marido possa largar sua esposa por motivos torpes. Por isso afirma que quem opta pelo divórcio comete pecado, e essa é uma ameaça mais forte para os homens, pois eram eles que decidiam tudo na sociedade em que Jesus vivia; no entanto, a mensagem também foi dirigida às mulheres. “Todo aquele que se divorciar de sua mulher e se casar com outra comete adultério contra a primeira. Também comete adultério a mulher que se divorciar de seu marido e se casar com outro”. (Mc 10, 11-12).

Tudo isso posto, deixa-nos mais conscientes da impossibilidade de separação dos que assumiram o compromisso do matrimônio. Por outro lado, padre, existem milhares de casos de pessoas que se separaram e vivem sozinhas hoje; e um número cada vez maior de pessoas que abandonaram o casamento e contraíram novas núpcias. Como lidar com esses casos? Bem, as pessoas que estão separadas, mas não vivem em segunda união, devem tentar a reconciliação sempre. Por outro lado, elas continuam casadas, pois os dois permanecem vivos. Se a lei é até que a morte os separe, e eles estão vivos, continuam casados.

No caso daqueles que contraíram novas núpcias, continuam vinculados ao primeiro e único matrimônio e vivem com outra pessoa, impossibilitando, assim, de viver plenamente os sacramentos da Reconciliação e da Eucaristia, enquanto perdurar tal situação.

Mas sabemos que, na vida real, muita gente já optou pela segunda união e vive muito bem. Não podemos fechar os olhos para essa realidade que existe. A Igreja dá passos largos para tentar acolher essas novas famílias.

O Catecismo diz explicitamente sobre eles: Com respeito a cristãos que vivem nesta situação e que muitas vezes conservam a fé e desejam educar cristãmente os seus filhos, os sacerdotes e toda a comunidade devem dar provas duma solicitude atenta, para que eles não se sintam separados da Igreja, em cuja vida podem e devem participar como batizados. Serão convidados a ouvir a Palavra de Deus, a assistir ao sacrifício da Missa, a perseverar na oração, a prestar o seu contributo às obras de caridade e às iniciativas da comunidade em prol da justiça, a educar os seus filhos na fé cristã, a cultivar o espírito de penitência e a cumprir os atos respectivos, a fim de implorarem, dia após dia, a graça de Deus. (1651). Em resumo, as pessoas em segunda união não são excluídas da Igreja, e devem tentar viver plenamente conforme o Coração de Misericordioso de Jesus Cristo.

É óbvio que a Igreja não incentiva a segunda união, pois ela continua afirmando a indissolubilidade do casamento. Por outro lado, a Esposa de Jesus jamais abandonará um filho seu que venha lhe pedir colo. Assim sendo, as pessoas que estão vivendo a segunda união não devem ser recebidas com pedras por membros intolerantes de nossas comunidades ou por clérigos estúpidos e sem misericórdia!

“…pela lei, os que vivem a segunda união não podem se aproximar dos sacramentos da Reconciliação e da Santíssima Eucaristia, a não ser que resolvam essa situação”.

Respondendo, então, a pergunta aqui colocada: pela lei, os que vivem a segunda união não podem se aproximar dos sacramentos da Reconciliação e da Santíssima Eucaristia, a não ser que resolvam essa situação. “O novo casamento dos divorciados, em vida do cônjuge legítimo, é contrário ao desígnio e à Lei de Deus ensinados por Cristo. Eles não ficam separados da Igreja, mas não têm acesso à comunhão eucarística. Viverão a sua vida cristã sobretudo educando os filhos na fé”. (Catecismo da Igreja Católica, 1665).

É certo que essa lei pode ser questionada: mas duas pessoas que estão em segundas núpcias vivem a paz e o respeito dentro de casa, e não podem comungar; enquanto duas pessoas legitimamente casadas na Igreja vivem um inferno dentro do lar, mas podem comungar. Que Igreja injusta! Realmente, o questionamento é válido. Mas isso somente demonstra que deve haver mais coerência daqueles que assumem compromissos com a Igreja e com Deus, mediante os sacramentos! Não é nada fácil dar respostas prontas para esse problema, pois estamos lidando com seres humanos que são preciosos aos olhos de Deus. Como o Papa Francisco sugere na Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris Laetitia: olhemos com carinho e misericórdia, caso por caso. E que o pároco seja a referência de Porta da Misericórdia a todas as pessoas que se encontrarem em dúvidas!

 Fonte: A12

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