Vivemos em um contexto marcado pela corrupção, apropriação indevida de bens públicos, impunidade, na qual a educação e as questões sociais são relegadas a segundo plano. Por outro lado, crescem a organização de grupos e instituições em defesa da vida, transformando a bioética em novo paradigma de comportamento pessoal, social e institucional. Esta complexa realidade afeta a vida das Igrejas, pois constituem força, ora de legitimação, ora de transformação do status quo. Por isso cabe aqui uma reflexão sobre prestação de contas com vistas a um outro mundo possível.

É significativo destacar que nas comunidades eclesiais relacionamos prestação de contas com questões financeiras, subsídios pastorais, discriminando cada item. Esta prática deverá despertar a comunidade para a elaboração de um projeto financeiro coerente com o projeto pastoral da Igreja.

Estamos acostumados também a ver prestação de contas de serviços sacramentais e espirituais por meio da qual são discriminados o número de batizados, casamentos, crismas, etc. Antigamente anotava-se o número de hóstias consumidas. Porém constata-se que poucas ações têm sido realizadas no sentido de melhorar a vivência sacramental nas comunidades, indicando que nem sempre a responsabilidade social e gerencial é levada a sério. Uma boa prestação de contas nesse sentido despertará a comunidade eclesial para um projeto catequético que proporcione um processo de preparação para os sacramentos, sobretudo para a vivência da realidade sacramental.

Outras vezes se faz também prestação de contas pastoral, na qual a realidade dos conselhos e equipes pastorais é descrita em detalhes, como quantas reuniões foram feitas e quais foram as repercussões. Assim é possível avaliar a incidência da atuação pastoral realizada pela comunidade.

Em menor proporção vemos a prestação de contas administrativa. Ela descreve como a comunidade eclesial é administrada, como funcionaram os conselhos pastorais, se houve transparência e legalidade nas contas e etc. Contudo, que repercussões eclesiais, sociais e políticas tiveram nossa atuação administrativa diante de tanta corrupção em nosso País? Resta-nos responder à sociedade se nossa gestão foi legitimadora ou transformadora da mentalidade acerca da administração pública. Fomos fermento e luz para a sociedade ou deixamo-nos corromper pelo “fermento do mal”?!

Menos ainda se vê em termos de prestação de contas política, na qual se descreve como foi exercido o poder na comunidade eclesial e se as decisões tomadas foram implementadas sem privilégio para pessoas ou grupos. E ainda, como se estabeleceu o relacionamento com as normas, como foram tratados os “fora da lei” eclesial e se o poder foi exercido como serviço ao bem comum e se fomos uma boa referência para a sociedade em nossa gestão ou prática política eclesial?

Por último devemos nos perguntar a respeito da prestação de contas social. Qual foi a repercussão de nossa ação pastoral e de nosso jeito de nos organizarmos no entorno da comunidade? Quais as implicações de nossa pregação e postura a respeito da moral social e sexual? É curioso notar que, muitas vezes, levamos a moral sexual até as últimas conseqüências e praticamente desconhecemos a moral social, para a qual o Evangelho dá maior importância. Nosso trabalho no que diz respeito ao planejamento familiar, atendimento adequado às crianças e idosos, adolescentes grávidas e a famílias separadas contribuiu para a melhoria da qualidade de vida da população?

Finalmente, como estes diferentes aspectos estão presentes em nossa prestação de contas? Que concepção de Igreja e pastoral está subjacente? Como foram levantados os dados de análise e avaliação para elaborar a prestação de contas? Representam, de fato, a realidade? Fizemos pesquisa participativa? Apresentamos o resultado para a comunidade e para a sociedade de seu entorno?

Na condição de comunidades e gestores eclesiais somos chamados a dar testemunho dos valores fundamentais da Justiça, Solidariedade, Honestidade, Verdade, Respeito, Compaixão e promoção da dignidade humana, mantendo viva a esperança em um outro mundo possível.

Enquanto instituição social, a Igreja é lugar de ENCONTRO de PESSOAS, lugar de RELAÇÃO ou Relacionamento. Já como instituição religiosa é MEDIADORA de encontro com DEUS, de EXPERIÊNCIA do Sagrado. Segundo Peter Berger, ela sacraliza o nonos social, familiar e até o institucional e o administrativo-financeiro. Daí a maior responsabilidade. Como instituição, é uma célula social que interage com seu entorno, com a sociedade globalmente.

Que sejamos, pois, portadores desta boa notícia fazendo frutificar o Evangelho de Jesus Cristo, recriando sua experiência.

Adailton Altoé é graduado em Filosofia e Teologia, pós-graduado em Ciências da Religião e Psicodrama e atualmente é professor no Instituto Mineiro de Psicodrama e Promotor da Editora Vozes em Minas Gerais. Autor de vários livros e roteiros para grupos, dentre eles o título “Organização Paroquial: conselhos, equipes e serviços pastorais”, Vozes.

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