A Igreja Católica está vivendo uma fase de travessia grandiosa da sua história. Não a das honrarias, glorificações e das acidentalidades da mundanidade. Não! O que está em questão é a radicalidade do Evangelho e retomada da transversal Tradição Viva da sua identidade, como sujeito eclesial, que na pessoa de Jesus Cristo tem o seu fundamento e a sua inspiração. A Igreja está fazendo a sua mais autêntica e genuína memória.

Com a celebração do Dia Mundial do Pobre, que tem que ser acolhida à luz do grande Jubileu da Misericórdia (cf. Misericordia et Misera, 21), o Pontífice coloca a Igreja na atualidade para que possa testemunhar que a misericórdia é testemunhada não só com palavras, mas também com obras. Sem dúvida, o que está sendo levado em consideração é uma Igreja pobre e para os Pobres. Na homilia da Santa Missa, deste dia 19/11/17, Francisco afirmou que “a omissão é também o grande pecado contra os pobres. Aqui assume um nome preciso: indiferença. Esta é dizer: Não me diz respeito, não é problema meu, é culpa da sociedade. É passar ao largo quando o irmão está em necessidade, é mudar de canal, logo que um problema sério nos indispõe, é também indignar-se com o mal mas sem fazer nada. Deus, porém, não nos perguntará se sentimos justa indignação, mas se fizemos o bem”. Com isto, ele provocando a responsabilidade de todos. Um ser humano não pode ser indiferente ao sofrimento do outro, que tanto quanto deve ter a sua dignidade reconhecida e respeitada integralmente.

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Para a Igreja, essa opção, é um dos elementos da necessária reforma pensada por Francisco; pois, deste modo, ela estará sendo fiel à boa notícia do Reino de Deus (cf. Lc 4,18; Mt 25, 35-45), que coloca o Pobre no centro da proclamação. A opção preferencial pelos mais pobres dos pobres está na raiz da Divina Revelação, não limitadamente como categoria sociológica; mas, como categoria teológica, tendo em Jesus Cristo o fundamento hermenêutico desta opção necessária.  A afirmação de Bento XVI, no seu discurso de abertura da V Conferência de Aparecida, sobre esta questão é lapidar: “A fé nos liberta do isolamento do eu, porque nos leva à comunhão: o encontro com Deus é, em si mesmo e como tal, encontro com os irmãos, um ato de convocação, de unificação, de responsabilidade em relação ao outro e aos demais. Neste sentido, a opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós para nos enriquecer com a sua pobreza” (cf. 2Cor 8,9). Consideremos esse ensinamento do atual Bispo Emérito de Roma e o coloquemos no que é pungente para que todos os cristãos façam essa opção eclesial como uma resposta à nossa filiação divina e como uma atitude de fé indissociável do que celebramos e somos chamados a testemunhar, na busca pela santidade e sinal de conversão ao Reino de Deus (cf. Mc 1,15).

O Papa Francisco ensina que a conversão eclesial, ou reforma, como possa acolhido pelos homens e mulheres de boa vontade, é fruto da conversão pessoal. Assim o asseverou no seu discurso de Natal à Cúria Romana, em 2016: “Nesta perspectiva, é preciso destacar que a reforma será eficaz única e exclusivamente se for implementada com homens «renovados» e não apenas com homens novos. Não basta contentar-se em mudar o pessoal, mas é preciso levar os membros da Cúria a renovar-se espiritual, humana e profissionalmente. A reforma da Cúria não se atua de forma alguma com a mudança das pessoas – que, sem dúvida, tem acontecido e acontecerá – mas com a conversão nas pessoas. Na realidade, não basta uma formação permanente, é preciso também e sobretudo uma conversão e uma purificação permanente. Sem uma mudança de mentalidade, o esforço funcional não teria qualquer utilidade”. A consideração de Francisco é colocar no centro das instituições e na vida de cada membro da comunidade eclesial a certeza de que o referencial da sua fidelidade aos ensinamentos do seu Único Senhor é o Evangelho, que é a fonte da nossa sublime alegria (cf. EG, 1).

Para o Mundo globalizado, o que Francisco trás e impulsiona é uma verdadeira revolução. O Cardeal Kasper falou de uma revolução da ternura, que estava sendo fomentada pelo atual Pontífice. Talvez, o que estamos percebendo é a “revolução da misericórdia”, que não gera só vida na Igreja; mas pode ser a força transformadora desta sociedade que globalizou a indiferença. Há desavisados que têm medo da expressão “revolução”. Contudo, um discípulo missionário de Jesus Cristo, convertido ao Evangelho, é enviado a ser no Mundo um revolucionário. Não pela força das armas e da violência, seja essa física ou verbal, como infelizmente estamos vendo nos tempos hodiernos; mas, pela força transformadora da verdade do Evangelho. O Cristão não pode trair a Boa Notícia de Jesus Cristo. O Cristão é chamado a ser alma do Mundo, um sinal de contradição contra tudo aquilo que é próprio do projeto salvífico de Deus para todos os seus filhos, como tão conscientemente ensinaram os Padres da Igreja, configurando assim os detalhes irrenunciáveis do que é a límpida Tradição Viva da Igreja (cf. Dionieto, Pastor de Hermas).

Diante de tantas injustiças sociais, fome, imigrantes que saem de suas terras de origem, crise ecológica, ameaças de guerra, intolerâncias religiosas e étnicas e assim por diante, o Mundo pode e deve sentir-se provocado pela Igreja, através da atitude do Papa Francisco, a pensar que civilização estamos construindo e que futuro está sendo preparado. Os Cristãos pelo amor, que gerou serviço e vida para todos, sempre questionaram o Mundo (cf. Jo 13, 13-15). Não foi por questões e aparatos secundários. Lembremo-nos sempre que a vitalidade da Igreja, nos seus momentos de crises históricas teve no testemunho dos santos e mártires o seu baluarte. Essa revolução que a verdadeira vida cristã pode promover só pode acontecer quando o que a conduz é abertura a estes sinais dos tempos. O Espírito Santo pode motivar em cada Cristão e demais Homens e Mulheres de boa vontade, sejam quem forem, estejam onde estiverem, a fazer esse caminho de  adesão ao Bem que todos precisamos acolher.

Por fim, tantas questões nos são postas. O caminho é o da esperança e do amor. Não podemos deixar de acreditar, mesmo que vejamos a passagem do mal e de sinais sombrios em tantos lugares e instituições. Não esqueçamos: a história não começa conosco, nem termina conosco! Com ela podemos contribuir, sabendo que a mesma pode ser qualificada pela ação misericordiosa e amorosa de Deus, que é Pai. Vamos nos converter, para que nos renovemos e revolucionemos o Mundo com a Alegria do Evangelho. Assim o seja!

Pe. Matias Soares cursando Mestrado em Teologia Moral na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, pertence à Arquidiocese de Natal.

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