Articule uma catequese com crianças baseada na consciência e vivência da fé

catequese é um conjunto de vivências, experiências e conhecimentos da fé e sobre a fé. Pode-se dizer, também, que a catequese pode ser formal e/ou informal, ou seja, aprendemos a fé e sobre a fé no desenrolar da vida (informal), mas as igrejas organizam espaços e tempos específicos para vivências, experiências e conteúdos da fé eclesial (formal).

A catequese não quer apenas ensinar um conteúdo, mas um determinado modo de ser e agir. O rito sacramental (eucaristia e crisma) é como que uma aliança entre a pessoa com Deus na sua Igreja. É ponto de chegada e, ao mesmo tempo, de partida. De chegada porque é o ápice de um itinerário de preparação (catequese), por meio do qual a pessoa teve oportunidade de aprender e experimentar a vida na fé, de tal modo, que no final do percurso ela tem condições de optar livremente. De partida, porque a partir da experiência sacramental a pessoa dá um passo além na qualidade e no aprofundamento da sua fé. Desse ponto em diante terá de assumir, pessoalmente, novas exigências e a responsabilidade da fé.

No que diz respeito à catequese com crianças, é necessário considerar a relação de compatibilidade entre a maturidade e o desenvolvimento da criança e as exigências de compreensão e prática dos conhecimentos aprendidos e das experiências vivenciadas. Para tanto, a criança deverá ser também um dos sujeitos da catequese, ou seja, ela deverá ter espaço para participar efetivamente. Infelizmente, esta questão é muito pouco levada em conta, hoje, na catequese, que é ainda muito mais para as crianças, que com as crianças.

Os primeiros anos de vida de uma criança são fundamentais para a formação da sua personalidade. As experiências que a criança vive são o suporte para a construção dos sentidos que guardará em sua consciência e que se tornarão a base, por meio da qual, interpretará e se relacionará com as outras pessoas, com o mundo e com Deus. Esta é uma das razões pelas quais os especialistas em infância ressaltam a importância dos primeiros anos de vida na formação do caráter e, diríamos, da espiritualidade de uma pessoa. Muito embora os sentidos cons­truídos possam ser reconstruídos e transformados ao longo da vida, as primeiras experiências continuam a ter um papel de destaque.

Veja-se, por exemplo, que uma criança de dois anos ainda não consegue compreender o conteúdo do conceito da Palavra de Deus. Há quem conclua, então, que a esta criança ainda não se pode ensinar a fé. Se pensarmos a catequese apenas como ensino de conteúdos abstratos devemos aceitar esta conclusão e aguardar a fase em que esta criança comece a compreender estes conteúdos para, então, introduzi-la em um processo catequético. Mas desde que a criança possa guardar alguma lembrança, consciente ou inconscientemente, ela já está aprendendo a fé e sobre a fé, por meio das experiências.

Se entendermos que Deus é amor, a forma de ensinarmos a fé é amarmos estas crianças e organizarmos vivências e experiências de amor. Se entendemos que Deus é justo e solidário, misericordioso e compassivo, a forma de ensinarmos as crianças é testemunharmos tudo isso e organizarmos experiências em que as crianças, de acordo com seu desenvolvimento e maturidade, possam viver a justiça, a solidariedade, a misericórdia e a compaixão.

Com isso quero dizer que a catequese pode começar muito cedo, desde que respeite a fase de desenvolvimento e maturidade da criança e se adapte ao o que e ao como a criança consegue aprender. A Pastoral da Catequese, assim, precisa articular a sua ação evangelizadora com outras pastorais, tais como a familiar, a do batismo, a da criança e a do menor.

9 dicas para dinamizar a catequese com crianças 

1.  Cultive a fé na sua vida familiar, social e profissional. O testemunho do amor, da justiça, da honestidade e da solidariedade é um exemplo por meio do qual aprendemos Deus e o anunciamos às outras pessoas, principalmente, às crianças;

2.  Estude e pesquise a fé. Grupos de estudo e reflexão, cursos de aprofundamento teológico-pastoral, cursos de formação e capacitação, entre outros, são bons espaços para aprofundar a fé. Leia bons livros de teologia, pastoral e espiritualidade. O estudo e a pesquisa são importantes aliados para compreender a fé, as formas de sua aprendizagem e prática, bem como a metodologia da ação evangelizadora. A fé de superfície já não consegue convencer. É preciso fé profunda, traduzida em mística;

3.  Procure saber em que fase de desenvolvimento e maturidade estão as crianças com as quais você (catequista) está vivendo a experiência da catequese. Conseguirá estas informações lendo bons livros de pedagogia, psicologia e psicopedagogia. Procure uma psicopedagoga especializada que lhe possa dar as primeiras orientações;

4.  Elabore dinâmicas e estratégias próprias para descobrir os sentidos que as crianças já têm em sua consciência sobre as pessoas, o mundo, Deus, a Igreja, a sociedade, entre outros. Esta ação será bem mais proveitosa se já houver um plano de pastoral de conjunto com as outras pastorais, que também trabalham com as crianças, de modo especial, as que atendem a família e a primeira infância;

5.  Trabalhe com os principais sentidos descobertos a partir de uma visão de fé. É hora de produzir o conteúdo da catequese a partir dos sentidos que as crianças já têm elaborados. É possível que algumas visões que as crianças trazem sejam distorcidas e inadequadas à fé cristã. Apenas dizer que a visão não está adequada e ensinar o conteúdo supostamente certo, não fará a criança mudar de visão. Aí está o desafio dos/as catequistas. A reconstrução de sentidos passa pela vivência de novas experiências e, para isso, é preciso utilizar linguagem e metodologia que de fato atinjam as crianças;

6.  Busque traduzir o conteúdo da catequese a uma linguagem que estas crianças possam compreender. E, quando aqui falo em linguagem, não estou me referindo apenas à verbal, mas a todas as formas de comunicação possíveis (visual, corporal, musical, artística, etc);

7.  Escolha a metodologia apropriada. Organize vivências, experiências, jogos e dinâmicas utilizando processos, estratégias, instrumentos e recursos adequados à fase de desenvolvimento e maturidade destas crianças. Lembre-se, é a experiência toda da catequese que proporcionará às crianças a aprendizagem da fé;

8.  Registre, partilhe, reflita e reze a sua prática com frequência, pessoalmente e também em grupo. Jesus fazia isso seguidamente. Ele refletia e rezava pessoalmente, com os discípulos, com o povo e com a multidão. A missão catequética está envolvida com o plano de Deus. É a vontade de Deus que queremos ver realizada. Dessa forma, não estamos aí para fazer o que nos parece melhor, mas aquilo que é o melhor para Deus;

9.  Tenha um plano de ação evangelizadora com objetivo, necessidades prioritárias, metas e atividades. Defina os responsáveis pela realização das ações (quem), a forma de realizar (como), o local (onde), o dia e a hora (quando), os custos (quanto).

Os desafios que enfrentamos hoje na catequese, fazem parte de uma mudança de época. A nova época depende, em parte, do que faremos dela. Dessa forma, precisamos agir para “fazer novas todas as coisas” (Ap 21,5), organizando “a tenda de Deus com as pessoas” (Ap 21,3).

 

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 Rodinei Balbinot é Mestre em Educação pela Universidade de Passo Fundo, Graduado em Teologia Pastoral pelo Instituto de Teologia e Pastoral de Passo Fundo/RS, onde foi professor e diretor; Graduado em Filosofia pela Fundação Educacional de Brusque (FEBE). Atualmente é Diretor Geral da Linha de Sustentabilidade, Educação da Rede Santa Paulina. Pós-Graduando em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas. Contato: [email protected]

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