A Sinodalidade Eclesial na visão de Padre Matias Soares

Há uma percepção mundial na atualidade da fragmentação das construções identitárias. A ideia de crise, sobre a qual tanto é dissertado, é consequência de como as pessoas percebem a si e os ambientes nos quais estão vivendo. Temos crise ecológica, econômica, cultural e institucional. Fusões continentais foram construídas para facilitar o livre comércio, o fortalecimento na conjuntura global e a locomoção das pessoas além fronteiras; contudo, uma nova onda de retrocesso está sendo veiculada pela preocupação com as inseguranças nacionais e civilizacionais que estão sendo projetadas.

É tempo de mundialização de possibilidades. Mas também, das incertezas que essas podem portar. A Igreja está vivendo essas inquietações institucionais desta nova ordem sistêmica. Por isso, a urgência de ser fortalecida a sua atuação teórica e prática em meio aos novos sinais, de uma época com suas características individualistas, relativistas e pós-modernas.

Na sua história, a Igreja sempre teve a necessária preocupação de fazer a experiência da sinodalidade, ou seja, “caminhar juntos” (Cf. Alves de Lima, Luiz, in Dicionário do Conc. Vat. II, pág. 909-913).

Como um dos frutos do Concílio Vaticano II, que depois foi assumido pelo Papa Paulo VI, através do motu próprio Apostolica Sollicitudo, o Sínodo dos Bispos será das grandes manifestações do modus operandis da Igreja pós-conciliar. Segundo Alves, “a sinodalidade é uma característica da Igreja: ela é uma reunião de pessoas que, tendo Jesus como guia, procuram caminhar juntas; já conforme o Antigo Testamento, ela é uma assembleia convocada por Deus (kahal, ekklesia). Estar juntos, em comunhão (koinonia), sempre foi uma das características da Igreja. Se isso está na raiz de sua natureza, por outro lado se manifesta principalmente quando se reúne, seja para celebrar, orar, comemorar, seja para refletir e tomar decisões importantes em conjunto” (Idem, pág. 909).

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O Papa Francisco ensina e assume que a sinodalidade deve ser o rosto da Igreja para este momento da história. Segundo o Pontífice, “o mundo, em que vivemos e que somos chamados a amar e servir mesmo nas suas contradições, exige da Igreja o reforço das sinergias em todas as áreas da sua missão. O caminho da sinodalidade é precisamente o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milênio” (Discurso, 17/10/2015).

O princípio teológico assumido pelo Santo Padre é que “depois de ter reafirmado, que o Povo de Deus é constituído por todos os batizados chamados a ‘serem casa espiritual, sacerdócio santo’, o Concílio Vaticano II proclama que ‘a totalidade dos fiéis que receberam a unção do Santo (cf. 1 Jo 2, 20.27), não pode enganar-se na fé; e esta sua propriedade peculiar manifesta-se por meio do sentir sobrenatural da fé do Povo todo, quando este, desde os bispos até ao último dos leigos fiéis, manifesta consenso universal em matéria de fé e costumes’. Aquele famoso infalível ‘in credendo’: não pode enganar-se na fé” (Idem). Essa fundamentação é que clarificará que a colegialidade episcopal é sinal da sinodalidade eclesial que, por sua vez, é mais abrangente.

Os meios assumidos pelas Igrejas Particulares, com suas paróquias e demais realidades eclesiais serão os Conselhos Representativos de fiéis, que compõem uma comunidade eclesial, a saber: o pastoral e o administrativo. Outros instrumentos de participação e organização da vida eclesial sempre serão sinais genuínos e autênticos da imprescindível consciência de que a vida cristã, que é de todos, graças ao batismo, deve ser pensada e assumida por todos, que fazem parte do mesmo Povo de Deus, mesmo considerando a dimensão hierárquica da Igreja, com sua missão de garantia da unidade e do serviço, dos e aos demais membros da comunidade eclesial. Assim o seja!

Pe. Matias Soares – Pároco da paróquia de Santo Afonso/Natal-RN.

Por Redação Catholicus
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