A Igreja da atualidade pede padres com espírito de empreendedor, que não se acomode nos limites de sua paróquia

Pe. José Carlos Pereira, CP é Doutor em Sociologia, Mestre em Ciências da Religião, Membro do Núcleo de Estudos Religião e Sociedade (NURES), do Programa de pós-graduação em Ciências Sociais da PUC/SP, Autor de diversos livros, dentre eles: “Assembleia Paroquial – Roteiro de preparação e realização”, “Manual da Secretaria Paroquial”, “Religião e Exclusão Social – A dialética da exclusão e inclusão nos espaços sagrados da Igreja Católica”, “Gestão Paroquial – parábolas”, “Paróquia Missionária – à luz do Documento de Aparecida”, “Gestão Eficaz – sugestões para a renovação paroquial”, dentre outros. Membro do Conselho de Conteúdo da revista Paróquias & Casas Religiosas. É assessor do CCM (Centro Cultural Missionário), de Brasília/DF, organismo da CNBB e ministra cursos e palestras em paróquias e dioceses do Brasil. Nessa entrevista, esclarece pontos importantes para uma administração paroquial sempre atualizada e renovada! Confira:

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 Do ponto de vista sociológico, como o Sr. enxerga a administração eclesial?

Pe. José Carlos: Ao tratar de administração eclesial costume recorrer a atribuição dada ao padre por Pierre Bourdieu. Esse renomado sociólogo francês da atualidade, ao tratar da economia dos bens simbólicos, atribuiu ao padre a função de gerenciador do sagrado. Gerenciador é aquele que gerencia, administra, cuida com responsabilidade social de algo, neste caso a paróquia, para que ela cumpra o seu papel enquanto instituição eclesiástica, com suas devidas articulações territoriais. É também por este viés da sociologia que enxergo a administração eclesial, porém, não apenas pelo prima oferecido por Bourdieu. Concordo que o padre é, em primeiro lugar gerenciador do sagrado, mas ele é também gerenciador de uma instituição, uma empresa, e aqui recorro a Max Weber que classificou a Igreja como associação hierocrática, isto é, aquele tipo de associação que tem um poder reconhecido e oficializado pela sociedade para gerar e gerir não apenas bens de salvação, mas também os bens materiais necessários para sua subsistência: seu patrimônio e seu dinheiro. Por esse motivo ela é tida pelo governo como uma empresa do terceiro setor, isto é, filantrópica, sem fins lucrativos. Desse modo, como qualquer outra empresa, há que cumprir com suas obrigações sociais que envolvem, além de bens patrimoniais, pessoas (funcionários, voluntários, fiéis, etc). Estes, por sua vez, por contribuírem de alguma forma (financeira e pastoralmente) com a paróquia, cobram dos seus gerenciadores resultados, prestação de contas, etc. Além disso, a paróquia deve prestar contas de sua administração para a diocese e para o governo. Enfim, do ponto de vista sociológico, a paróquia se configura numa instituição que administra relações sociais, com todas as implicações que se desdobram dessas relações.

Um administrador paroquial deve ter uma visão diferenciada de um administrador de uma organização secular?

Pe. José Carlos: Diria que em parte sim e em parte não. Explico. Sim, no sentido de que a paróquia não é uma empresa qualquer, uma empresa do primeiro setor que visa lucros financeiros nos seus investimentos. Como padres, administradores paroquiais, não podemos confundir a administração paroquial com este tipo de empresa. Aqui cabe uma visão diferenciada na administração paroquial da dos administradores de uma organização secular. Como disse antes, lidamos com bens simbólicos de salvação antes dos bens materiais. Lidamos com fiéis, seres humanos, e não apenas com funcionários e máquinas que estão a serviço do desenvolvimento da empresa e do lucro. Nosso campo de ação passa pelos meandros da fé e não pelas estatísticas das cifras que avolumam os cofres da instituição. Há que haver essa diferenciação na hora de administrar a paróquia. Por outro lado, o administrador paroquial precisa aprender a arte de administrar a paróquia, enquanto empresa do terceiro setor, com os bons administradores das organizações seculares. Por exemplo: ter visão crítica; conhecer os riscos que corre sua paróquia, enquanto empresa; saber planejar; saber trabalhar em equipe; investir nas pastorais e na infra-estrutura da paróquia; investir em materiais humanos (formação técnica, pastoral, teológica, espiritual dos agentes); modernizar a paróquia para atrair os fiéis; rigor nas prestações de contas, etc. Nisso, como administrador eclesial, temos muito que aprender com os administradores de empresas do âmbito secular.

Como a administração paroquial deve ser exercida? O que é necessário para bem administrar uma paróquia ou qualquer outra instituição religiosa?

Pe. José Carlos: Em primeiro lugar, a administração paroquial deve ser exercida com amor e caridade pastoral. O zelo pelas coisas da paróquia como bens públicos e sagrados faz do pároco um administrador diferente de um administrador de Empresa no sentido comum do termo. É preciso saber exercer o ofício com autoridade sem ser autoritário. É necessário que o pároco tenha espírito de liderança aliado á espiritualidade e a formação intelectual. Todo padre deve ter noções básicas de administração e isso nem sempre se aprende durante a formação no seminário. Ele terá que buscar se aperfeiçoar nisso depois senão estará fadado a ser um pároco mediano. Durante o tempo de seminário, é comum o seminarista ter apenas uma visão romântica do ofício de padre como apenas um “administrador de almas”, esquecendo-se que essas almas estão vinculadas a corpos e que esses corpos vivem em sociedades que se organizam através de associações e instituições. Estas instituições, por sua vez, necessitam de gerenciadores bem preparados. Que ele, seminarista de hoje, será o padre de amanhã que irá gerir, administrar toda a complexidade duma instituição religiosa, composta por pessoas que, embora sejam fiéis, trazem consigo uma gama de situações problemáticas não apenas do âmbito espiritual, mas oriunda das relações sociais que são desencadeadas no seio destas mesmas instituições e que carecem de alguém que saiba gerir com equilíbrio e competência todas estas situações. Assim sendo, a administração paroquial deve ser exercida com responsabilidade e eficiência equilibrando profissionalismo, humildade e caridade evangélica.

O Sr. acredita que a administração paroquial ainda esbarre em preconceitos e teorias antiquadas que impedem uma gestão mais eficaz?

Pe. José Carlos: Apesar de vivermos em pleno século XXI, há quem insista em administrar sua paróquia pautado em modelos ultrapassados, tipicamente campesino, de uma época sem muita tecnologia e avanços científicos. Hoje temos muitos recursos que podem ajudar de modo eficaz a administração paroquial, porém o preconceito, a falta de formação e informação torna-se obstáculos para a modernização do sistema administrativo de muitas paróquias. E comum encontrar padres que ainda não aderiram as facilidades da tecnologia do campo da informática. Não investem nos modernos programas de computadores que facilitam o controle do dízimo, dos livros paroquiais, da internet que encurta caminhos, dos meios de comunicação e tantas outras ferramentas que contribuem na administração, facilitando o bom gerenciamento da vida paroquial. As paróquias precisam abrir-se mais para as novas tecnologias se não quiser ficar paradas no tempo. A Igreja da atualidade pede padres com espírito de empreendedor, que não se acomode nos limites de sua paróquia.

Contato: [email protected]

Site: www.pejosecarlospereira.com.br

 Entrevista concedida a Revista Paróquias & Casas Religiosas

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