Analfabetos eclesiais: um novo radicalismo

A intenção desta reflexão é situar uma nova categoria que, devido à falta de conhecimento do pensamento da Igreja, a partir das suas fontes genuínas e autênticas, que são a Sagrada Escritura e a sua Tradição Viva, com a interpretação do seu Magistério, tem assumido um radicalismo violento, irresponsável e imaturo na concepção e modo de proceder do seu “sentir contra a Igreja” e não “com a Igreja”. Quando penso sobre o significado de radicalismo, o diferencio de radicalidade evangélica, no seguinte:

  1. A radicalidade: esta é fruto da nossa conversão diária e permanente, que nos torna dóceis ao chamamento do Senhor. É da nossa fé e confiança na ação gratuita, misericordiosa e amorosa de Deus-Pai. Por ela, somos chamados a amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. Ela não exclui, não mata, nem promove a injustiça e a desunião… Ela nos torna sinais da presença do Reino de Deus, já aqui e agora.
  2. O radicalismo: esse nos faz preconceituosos e excludentes. Nos leva ao fundamentalismo, ou é fruto deste. Não é sinal do amor de Deus. Não brota do coração que ama, mas da hipocrisia. Não gera vida, e sim a morte. Não permite que haja compaixão e misericórdia. Nos tenta a querer tomar o lugar de Deus. Nos torna auto referenciais e não seguidores autênticos de Jesus Cristo, que anunciou e testemunho o Reino de Deus, fazendo a vontade do Pai-Nosso.

Em outra consideração, já tinha abordado essa questão. A radicalidade evangélica é própria da santidade cristã. Sobre o fundamento da mesma, assim ensina o Papa Francisco na sua Exortação: “Sobre a essência da santidade, podem haver muitas teorias, abundantes explicações e distinções. Uma reflexão do gênero poderia ser útil, mas não há nada de mais esclarecedor do que voltar às palavras de Jesus e recolher o seu modo de transmitir a verdade. Jesus explicou, com toda a simplicidade, o que é ser santo; fê-lo quando nos deixou as bem-aventuranças (cf. Mt 5, 3-12; Lc 6, 20-23). Estas são como que o bilhete de identidade do cristão. Assim, se um de nós se questionar sobre como fazer para chegar a ser um bom cristão, a resposta é simples: é necessário fazer – cada qual a seu modo – aquilo que Jesus disse no sermão das bem-aventuranças. Nelas está delineado o rosto do Mestre, que somos chamados a deixar transparecer no dia-a-dia da nossa vida”. (Cf. GE, n. 63). Para ser cristã e viver a sequela de Cristo, o que é essencial é a vivência do Evangelho. Quando percebemos a diferença entre radicalismo e radicalidade, podemos ter um termômetro das condições, às quais estão a delimitar e sufocar o essencial espírito do que é o Reino de Deus.

Existe um “Analfabetismo Eclesial e Evangélico” das novas gerações de milhares de membros de comunidades eclesiais, que renegam constantemente a “Essência do Cristianismo”. Esta está configurada e qualificada pela vida e obra de Jesus de Nazaré, o Ressuscitado e nosso único Salvador. Para muitos, que não entram na lógica universal e necessária do Evangelho, o Cristianismo está sendo assumido, como mais uma religião.

Esse fenômeno da superficialidade da vida cristã fez com que, os autores do suspense, como Freud, Nietzsche e Marx percebessem, sim, as lacunas da “religião cristã”, que seus aderentes assumiram no decorrer da história, porque se esqueceram de testemunhar com a própria vida a fé, à qual se converteram. A grande ânsia do mundo contemporâneo sobre a credibilidade de quem é o “Cristão” passa pela santidade de vida.

Neste aspecto está o porquê da Exortação do Papa Francisco: o testemunho. Ser Cristão é viver o que se professa no dia a dia da história, em cada estado de vida e consagração que são assumidos pelo fiel batizado, que testemunha o que é-lhe próprio como Cristão.

Os Analfabetos Eclesiais, deste modo, não são ignorantes só do que a Igreja ensina, como também não conhecem o que o próprio Evangelho ensina. Há um “Analfabetismo Evangélico”. Os paladinos do secundário, que não recordam do essencial estão assumindo novas formas de contraposições ao significado da dinâmica cristã. O Pontífice os descreve com simplicidade e muita clareza, sem deixar a profundidade teológica, na sua Exortação sobre a Santidade. São elas:

  1. O gnosticismo: “supõe uma fé fechada no subjetivismo, onde apenas interessa uma determinada experiência ou uma série de raciocínios e conhecimentos que supostamente confortam e iluminam, mas, em última instância, a pessoa fica enclausurada na imanência da sua própria razão ou dos seus sentimentos” (Cf. GE, n. 36).
  2. O pelagianismo: “o gnosticismo deu lugar a outra heresia antiga, que está presente também hoje. Com o passar do tempo, muitos começaram a reconhecer que não é o conhecimento que nos torna melhores ou santos, mas a vida que levamos. O problema é que isto foi subtilmente degenerando, de modo que o mesmo erro dos gnósticos foi simplesmente transformado, mas não superado. Com efeito, o poder que os gnósticos atribuíam à inteligência, alguns começaram a atribuí-lo à vontade humana, ao esforço pessoal” (Cf. GE, n. 47-48).

Essa ideologização, que degenera a beleza do Evangelho está obscurecendo a consciência de muitos batizados. O ódio, a intolerância, a falta de caridade, que é o pior dos pecados do discípulo de Jesus, na hierarquia das virtudes, foi e continua a ser fonte de divisão e perversão da Igreja do Senhor (Cf. Mc 3,24; Jo 17,21). A polarização política, que tem como parâmetro a divisão para o domínio, tornou-se mais penetrante do que a comunhão das e nas diferenças, que é própria da comunidade cristã. Pois, “a comunhão é o sacramento da comunidade” (R. Guardini).

Penso que, um redescobrimento da importância da espiritualidade eclesial é urgente na vida da Igreja. Esse testemunho é indispensável para o fortalecimento e testemunho do que a Igreja deve e precisa ser para o Mundo e, muito especialmente, para o povo brasileiro. Tudo que contribui para que não demos o testemunho de unidade é uma chaga aberta no corpo eclesial. Conversão ao Evangelho e à identidade da Igreja. Que o Espírito Santo nos fortaleça nessa busca que é o grande desafio da fé da comunidade eclesial para os tempos de hoje. Nisto consiste também a nossa santidade. Assim o seja!

Pe. Matias Soares – Arquidiocese de Natal/RN, mestrando Pio Brasileiro em Roma.
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