PE. JERÔNIMO GASQUES

                                                   

Escrever sobre o dízimo sem­­pre me traz muita ale­gria; em cada­ pedido de um artigo, uma palestra, um encontro é sempre motivo de satisfação para mim. Minha pergunta: o que eu posso dizer que o leitor não sabe? Vamos nos ater a dois questionamentos: como entender a prática do dízimo e como dinamizar o trabalho do agente de pastoral do dízimo na comunidade?

 

A DOUTRINA SOBRE O DÍZIMO

 

Pensar o dízimo, de certa forma, envolve dinheiro, economia e outros elementos práticos (pastorais e de critérios); que tão distante do “não vos preocupeis” de Jesus. Em todo o caso esse é o mundo em que vivemos. Com esse pensamento não se vai muito longe até pelo fato que o dízimo vai além dessas relações comerciais. Mas já é um primeiro dado importante, pois ele caminha, infelizmente, por essa trilha.

Ver o dízimo apenas como compensação financeira é uma proposta má e de péssima visibilidade. Cria-se uma ideia equivocada do dízimo e um estrago espiritual e um distanciamento do propósito divino. O dízimo assim não passa de um forte apelo emocional e que conduz à asneira em/de aumentar os celeiros.

O triste quadro do dízimo: entre o altar e o cofre. Nada mais pejorativo que pensá-lo assim. Acabamos desvirtuando o dízimo e retirando-o do seu contexto de solidariedade, do comensal fraterno entre os empobrecidos e entre os iguais na familiaridade comum.

Observo, na maioria das vezes, uma proposta hedonista ao entorno do dízimo. Há mais alegria em ter um bom retorno financeiro que o contentamento em ser um dizimista solidário. Sem esse viés o dízimo não passa de algo apenas interesseiro e capitalizado a cada mês.

Não podemos concordar com esse tal de dízimo! Eu não o vejo assim. Isso me cheira comércio com as coisas sagradas (At 5). Certamente que a isso denominamos de simonia (cf. At 8,18-19) que, embora errado, não nos damos conta.

As pessoas convencionaram refletir e pensar o dízimo por essa via. Não deveria de ser. Em caso mais prático não deixa de ser evasivo e disperso. O dízimo fica impreciso e distante do propósito bíblico (cf. Dt 14,28s; 26,12). Certamente que o dízimo solidário dá muito mais trabalho e custa mais merecer a atenção dos fiéis. Mas não deveríamos descontextualizá-lo!

Todo dízimo, em princípio, é bom. Mas o bom mesmo é aquele que renova a comunidade paroquial. Seguramente que não é uma questão de valor financeiro; uma questão de pastoral. Há uma tendência em se olhar o dízimo por meio do “dizimômetro”. Esse não mede a experiência daquele que contribui com o dízimo, apenas os dividendos e os resultados no final do mês.

Há uma distância vocacional entre o coração e as mãos. Existe base bíblica para isso. Paulo nos convida a sermos generosos e doarmos de coração (cf. 2Cor 9,7; Hb 3,8) e Jesus apela às mãos dadivosas que se abrem a todo aquele que pede (cf. Mt 7,7-12).

Não estamos vendo e contemplando isso nesses últimos anos.

O dízimo é uma experiência que fazemos da solidariedade humana. Sem essa ideia, o princípio é só uma ajuda sem sentido ou apenas uma simples contribuição. Com isso o dízimo não produz nenhum efeito restaurador na vida do contribuinte; muitos questionamentos ficam sem respostas. Somente comentários negativos.

Daí a necessidade de se refletir a experiência de Deus como nos indica o profeta Malaquias (Ml 3,1-10). O Apóstolo Paulo tinha uma preocupação com a coleta feita em favor dos irmãos de Jerusalém (2Cor 8,16s) e escolhe Tito como aquele que iria administrar aquelas ofertas.

 

COMO MOTIVAR/DINAMIZAR O AGENTE DE PASTORAL

 

Estamos cansados e colhendo poucos resultados práticos e surpreendentes. Ninguém motiva ninguém. Esse deve ser o primeiro elemento de compreensão. Decerto nada fácil em tempo de penúria e de tanto interesse e procura por um dízimo mais gordo e cofres mais cheios.

Algumas indicações para a prática do agente de pastoral. Há um tempo publiquei, nesta Revista: “13 ideias para avançar no dízimo com alegria” e que pode ser uma primeira indicação.

 

5 ideias que devemos aplicar na Pastoral do Dízimo

 

1.  A realidade que temos. Os agentes de pastoral não devem se empolgar por demais. Devem ao equilíbrio e o bom senso. Dízimo muito animado pode ser causa de frustração mais tarde. Ter controle sobre a realidade paroquial e não ir com tanta sede ao pote!

2.  Avaliar a caminhada e os contribuintes. Cada paróquia tem a sua realidade. Nada se deve comparar ou imitar. O resultado do dízimo é o retrato comunitário em rigor. Acontece que muitos vão ao dízimo super animados e o povo acaba não respondendo aos apelos. O povo também resiste, inclusive, devido à falta de formação e orientação em décadas passadas.

3.  Tempo de estudo e de reflexão. O dízimo não se aprende; experimenta-se. A experiência do dízimo se firma em um árduo trabalho de pastoral que devemos estar sempre atentos aos resultados: econômico e emocional. Nada de empolgação se ao povo não lhe é ensinada ler as Escrituras, livros, documentos, etc.

4.  Ação e prática. O agente bem orientado pode caminhar e enxergar longe. O agente que não consegue ter esse olhar, certamente, ficará aquém dos bons resultados. Não há como dispensar um método de trabalho; é impossível trabalhar na pastoral como se o dízimo fosse uma coisa qualquer.

5.  Rever atitude. A Pastoral do Dízimo “antes de ser um objeto de reflexão à pastoral é um processo que se dá entre pessoas” (R. Balbinot). O agente deve saber e aprender a ter visão do mundo e da comunidade, e medir quais passos devem ser dados e em qual momento é mais ou menos oportuno tal e tal atitude ou decisão.

Enfim, os padres devem (deveriam) ter mais cuidado com a experiência do dízimo em sua paróquia. Estamos observando coisas que desagradam e não contribuem para uma experiência positiva e cristã do dízimo. Não podemos achar que o econômico seja mais importante em uma vida paroquial e desejar a todo custo aumentar nossos celeiros a custa do sacrifício do povo. O dinheiro faz bem e devemos preservar esse valor, mas a sobriedade e o amor não têm preço!

 

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Pe. Jerônimo Gasques é Pároco da Igreja São José, Presidente Prudente-SP e Autor do livro “As Sete Chaves do Dízimo”, publicado pela Paulus Editora.

Contato: [email protected]

 

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