caminhos alternativos para uma gestão democrática

Mestre em Educação, pela PUC Minas e Especialista em Ciências da Religião e Psicodrama, Adailton Altoé, partilha com os leitores da Revista Paróquias algumas ideias que iluminam a experiência humana em busca de aprofundamento relacional, bem como desenvolver atitudes proativas na gestão eclesial. Autor de várias obras como “Construção da cidadania e gestão eclesial: relato de uma experiência que deu certo”, publicado pela Paulus, Altoé discute nessa entrevista suas impressões e orientações de caminhos alternativos para uma gestão democrática e criativa.

Todo ser humano, em tese, é um ser religioso. Como dialogar com aqueles que se dizem ateus e acabam por fazer do ateísmo a sua fé?

As religiões são respostas significativas de compreensão, legitimação ou contestação da realidade que nos cerca. Elas procuram se constituir em um Nomos Sagrado, ou Ordem Social Significativa, na compreensão de Peter Berguer. Qualquer ordem social desejada por um Deus digno do nome, deve ser pautada no Direito, na justiça, no amor, na solidariedade, no respeito à alteridade e na defesa da vida em todas as suas formas de manifestações, atualmente expressas no conceito de ecologia. A partir e em torno desses valores fundamentais é possível dialogar com qualquer cidadão, de qualquer nacionalidade e de qualquer credo. O problema começa quando ficamos aprisionados aos rituais religiosos. Para Jesus o que interessa é o Reinado do Pai, que não é o reinado de um “velho barbudo”, mas o reinado da vida, da amorosidade, do cuidado de uns para com os outros e para com o universo.

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No diálogo entre Deus e o ser humano, como refletir sobre corporeidade hoje, segundo a teologia?

Deve-se partir da experiência de corporeidade de cada interlocutor (pessoa, grupo) e analisar essas experiências, suas causas e consequências. Verificar por exemplo: quanto sacrifícios impomos aos nossos corpos para conseguir o sustento do dia a dia, para manter as aparências ou mesmo para modificá-la, para se apropriar do corpo dos outros; verificar o quanto temos valido de nosso corpo para nos comunicarmos com os outros e para interagirmos em sociedade, para estabelecer relações prazerosas e fecundas e assim por diante. Em seguida, devemos confrontar essas experiências sistematizadas com a Palavra de Deus e seu projeto de amor, para depois perguntarmos se nossas atitudes são de idolatria, de intercomunicação solidária e se temos sido fiéis “Templos do Espírito Santo” e portadores do Amor. Trata-se de fazer um processo de reflexão a partir da ação, da experiência, a fim de ressignificá-la à luz da fé. Em Jesus o Verbo se faz corpo…

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Todo líder religioso possui um papel decisivo na organização dos grupos?

Há muito venho repetindo que todo grupo fica com a cara de sua liderança. Logo, um líder religioso tem fundamental responsabilidade, não só na organização e multiplicação dos grupos e líderes, mas também na sua formação humana, teológica e metodológica. Que seja uma formação na ação. Também cabe ao líder ajudar determinados grupos a morrerem… para ressuscitar. Se se quer manter a vitalidade dos grupos ou de uma instituição, é fundamental promover a renovação de liderança. Apresento uma série de dicas de como fazer isso, de modo bem prático e operacional, no livro “Organização Paroquial: Conselhos, equipes e serviços pastorais”, publicado pelas Vozes.

A utilização dos meios de comunicação pela Igreja configura um processo sociocultural importante. Que relação o senhor faz sobre esta nova realidade?

A Igreja sempre se utilizou de diferentes meios de comunicação para promover a evangelização. Acredito que o mais significativo de todos é o corpo, com seus gestos e atitudes coerentes. Atualmente podemos estender e disseminar essas expressões através dos meios eletrônicos e digitais. Acredito que precisamos ir além do teatral e do marketing, frequentemente recheados de merchandising. Mais do que ritos, a sociedade está carente de profecia, de sentido, de orientação para a vida e de esperança palpável. É hora de “lançar as redes em águas mais profundas” e contrapor as redes de exploração, de pedofilia, de bullying, de fofocas, com redes de solidariedade, de promoção da vida, da ética, da justiça, da sustentabilidade ecológica.

Atualmente a sociedade, assim como as Igrejas, discute a questão da sustentabilidade e do consumo. Como a teologia pode ajudar nessa discussão?

Devemos resgatar o Método da práxis teológica. No passado recente, ao fazer análise da realidade a partir do lugar social de Jesus de Nazaré, explicitou que a grande contradição na América Latina era a Opressão X Libertação ou projeto de Liberdade de Deus para seus filhos. Posteriormente percebeu-se uma contradição de caráter mais cultural. Atualmente, o grande desafio é o Ecológico. A vida, de todos encontra-se ameaçada. É a morte X o projeto de vida. Trata-se de uma temática que tem tudo a ver com o Deus criador. Os anjos estão a dizer insistentemente: “por que estais aí a olhar para o céu?” enquanto a terra corre sérios riscos? Como mostrar, com práticas e atitudes, que o caminho da felicidade não está naquilo que se consome, nem na exibição de beleza, de bens e de poder?

Como fazer da Bíblia e da Igreja uma referência para a sociedade pós-moderna?

Essa questão é muito séria. Podemos dizer que parte da questão foi respondida na questão 2. Trata-se de compartilhar, analisar e sistematizar as experiências de vida à luz da fé, da Bílbia, a fim de ressignificá-la. Recentemente lancei um livrinho destinado à catequese, mas que serve para todos os grupos, sobre o Método Ver, Julgar, Agir, Rever e Celebrar na caminhada, publicado pela Paulus explicitando esse processo. Ademais penso que teríamos que tomar uma atitude nova, corajosa e evangelizadora em relação à celebração dos Sacramentos em um contexto individualista e de tendência mercantilista. Por exemplo: o modo como celebramos muitos batizados e casamentos, expressa pouca crença em seu significado profundo. E o que é pior, acaba-se cometendo uma grave injustiça quando se tira das pessoas que procuram o sacramento a oportunidade de fazer uma experiência significativa de Deus junto à comunidade.

De fato, não tem que participar de nada para batizar, pois é o Batismo que é para quem se converteu, aderiu ao Projeto do Reino de Deus, se comprometeu a ser missionário, assumindo a mesma missão de Jesus e renasceu para uma vida nova em comunidade e quer fazer festa para celebrar esse grande acontecimento. Mas o que vemos: normalmente uma pastoral litúrgica, de preparação para o rito, para a celebração, intitulada de pastoral do batismo, que não faz nenhuma proposição de engajamento para experimentar as maravilhas do Reino. Afinal, que proposta catequética temos para as famílias que procuram esses ritos para além da repetição do rito?

Como incentivar a paróquia ter uma gestão democrática?

  1. Implementar uma gestão participativa, democrática, transparente;
  2. Elaborar um regimento com explicitação de objetivos, papéis, funções e procedimentos para renovação de lideranças. O livro já citado: Organização Paroquial, pode ser uma boa referência;
  3. Acreditar que tanto o modo de gerir a secretaria paroquial, quanto o modo de fazer a gestão de pessoal, formação de lideranças e organização exercício do poder em conselhos, assim como o modo de gerir os recursos financeiros tem que ser evangelizadores. Sem isso, a Igreja perde a força de sal e de fermento.

Por fim, sinalize alguns pontos que merecem ser destacados de seu livro “Construção da cidadania e gestão eclesial”.

Destaco como elementos fundantes:
a) clareza da missão e do Projeto Pastoral;
b) colocar Jesus como referência, transcendendo os pontos de vista de cada pessoa ou grupo envolvido no processo;
c) convite a todos para a conversão, a reconciliação e o seguimento de Jesus em comunidade; d) normas claras e para todos, indistintamente;
e) opção pela verdade e pela transparência;
f) ninguém é obrigado a seguir no Caminho de Jesus, mas nossa opção e posição tem que ser clara e objetiva;
g) opção pela organização da paróquia em rede de comunidades e pelo dízimo como forma de organização financeira e sustentação da evangelização;
h) opção pelo círculo bíblico como lugar privilegiado de se recriar a experiência de Jesus;
i) convite a transformar as festas de lugar de manifestação do poder político e econômico e da marginalização social em lugar de comunhão, com comida e bebida de graça, igualmente para todos, tendo como centro a comunhão celebrada na Eucaristia e na refeição comum.

Enfim, procuramos fazer da experiência eclesial uma possibilidade de Encontro com Deus no encontro fecundo e feliz com os irmãos. A experiência foi profundamente significativa. Vale a pena conferir o relato.

Fonte: Revista Paróquias, ed. 32. Para ler mais matérias sobre gestão eclesial, assine já: (12) 3311-0665 ou [email protected]

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