Como desenvolver estratégias para enfrentar os desafios na paróquia

O Terceiro Setor surge a partir da constatação da ineficiência dos setores governamentais e privados em atender às necessidades da sociedade civil. Ambos por conflitos de interesses. Moradia, saúde, educação dentre outras áreas que compõem os direitos humanos vêm sendo negligenciados, expondo feridas de miséria no tecido social.

A caridade e a filantropia são práticas tão antigas quanto a história da humanidade. E foi com base nessa experiência que a gestão do Terceiro Setor ou organizações sem fins lucrativos se espelharam em seu surgimento. Organizações Não Governamentais, Associações, Fundações, Institutos e Igrejas. Os desafios foram se tornando cada vez mais complexos, exigindo dos gestores muito mais do que a intuição ou o ‘feeling’.

O Terceiro Setor se sofisticou e ampliou suas áreas de atuação. Organizações em todo planeta objetivam atender as necessidades imediatas e futuras da população mundial. Da distribuição de alimentos à preservação do meio ambiente. Do desenvolvimento da medicina às descobertas no espaço. Com esse crescimento surgiu a necessidade de novas técnicas e ferramentas de gestão, o que se trouxe um novo desafio aos administradores: ter uma visão sistêmica e complexa das organizações.

As Igrejas fazem parte do Terceiro Setor e seus gestores se veem diante de enormes desafios. O primeiro deles é a formação específica em gestão. No caso da Igreja Católica, bispos e padres (administradores diocesanos e paroquiais) que durante muitos anos recebem formação para uma abordagem espiritual, ao assumirem suas comunidades se deparam com rotinas e exigências para hábeis administradores.

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Aparentemente o que seria apenas um inocente trabalho de caridade e filantropia se torna uma gigante e complexa organização. Como desabafava um sacerdote amigo, ao tentar abrir um abrigo para doentes: “há burocracia até para se fazer o bem”. E ele está coberto de razão.

Um sacerdote que busca atender apenas à sua paróquia deve ter no mínimo uma noção sobre: Recursos Humanos – Marketing – Contabilidade – Patrimônio – sobre as leis ambientais de sua cidade (por causa das festas e outras atividades paroquiais) – Finanças e ainda de quebra, deve ter carisma de um líder para fazer com que por meio dos fiéis as atividades inerentes à missão da Igreja sejam realizadas. E sabemos que esse mínimo na maioria das vezes não é suficiente. Não são raros nem poucos os casos judiciais contra a Igreja, em face da ingênua maneira de gerir de alguns administradores paroquiais e até diocesanos.

No Brasil, as dioceses vêm promovendo encontros de formação visando ampliar a capacidade e potencial de gestão de seus administradores. E por incrível que possa parecer muitos dos sacerdotes não participam desses encontros. O mesmo ocorre com secretários e secretárias paroquiais. Com leigos e leigas envolvidos nos afazeres administrativos da paróquia. Por quê?

Alguns equívocos conceituais de administração podem nortear a resposta a essa pergunta:

A – Achar que administrar é apenas saber alocar recursos;
B – Contar apenas com o carisma e a intuição;
C – Achar que construir prédios é sinônimo de boa administração;
D – Entender que ter dinheiro em caixa, mesmo que aplicado, é sinal de boa gestão;
E – Achar que sua paróquia é singular em suas dificuldades e torná-la um feudo;
F – A centralização das decisões e o afastamento de pessoas de fato competentes.

Enfim, esses equívocos podem levar o gestor à autossuficiência e seu isolamento. Uma sensação de que (nos encontros de formação) se está ‘chovendo no molhado’. Geralmente esses gestores se acercam de pessoas incompetentes, mas que o obedecem. Tomam decisões isoladas do grupo. Não se preocupam com a formação e treinamento de seu pessoal. Não conhecem, tampouco adotam ferramentas facilitadoras de gestão. Conheço alguns sacerdotes que sequer um computador instala em suas secretarias, outros que durante a noite fazem os lançamentos em seus computadores pessoais em planilhas feitas por eles mesmos. Pode soar primitivo, o que estou partilhando, mas é uma realidade.

Alguns profissionais do secretariado paroquial e ou diocesano, não se sentem motivados à formação. Seja por causa dos salários, seja pela falta de visão de crescimento. Muitos destes acham que estão fazendo um ato voluntário de generosidade. Outros argumentam que se o padre não se preocupa, porque ele(a) deve se preocupar com isso.

Participação ativa

Leigos e leigas, que poderiam ter uma participação extraordinária nos afazeres administrativos na paróquia, seja por sua formação ou pela experiência profissional no mercado de trabalho, não encontram tempo em sua agenda para se dedicarem à comunidade, quanto mais a formação específica. E a grande argumentação é: quem manda é o padre. Há ainda casos contrários. Leigos e leigas, de sobremodo os que participam da comunidade desde sua fundação se sentem donos da mesma. Confundem senso de pertença, com o sentido da posse. A igreja me pertence, ao invés de eu pertenço à comunidade.

Diante desses desencontros nos vemos diante do enfraquecimento nos afazeres sagrados. As pastorais e movimentos se tornam guetos, tribos isoladas, e não conseguem trabalhar em conjunto. Não se tem uma visão de metas e objetivos comuns a serem alcançados. Faz-se o que é possível ser feito, sem planejamento ou organização. Assistimos ao desinteresse por parte dos fiéis na participação ativa na missão de evangelizar da Igreja.

Meu intuito não é o de desanimar, mas ser uma nesga luz a indiciar o caminho da formação específica para gestores e seus envolvidos na administração paroquial e diocesana. É de dizer que existem ferramentas, profissionais e meios de se melhorar e facilitar a administração paroquial.

Ações possíveis

A participação em encontros, congressos, treinamentos e cursos são fundamentais para a reflexão, debates e busca de esforços comuns em aprimorar as técnicas administrativas de nossos gestores. A revista Paróquias, o CONAGE (Congresso Nacional de Gestão Eclesial), o Encontro para Gestores promovidos pela Arquidiocese de João Pessoa, Encontros de marketing e comunicação, os meios que a CNBB vem disponibilizando no afã de alertar, aprimorar e formar administradores e fomentar a liderança, os encontros diocesanos para o clero e profissionais do secretariado, as ferramentas de gestão como o Idizimo (idizimo.com.br) e outros, são alguns dos muitos meios disponíveis e que podem contribuir muito na conquista de novos horizontes para gestores e administradores de nossa Igreja.

Conheça o CONAGE – Congresso Nacional de Gestão Eclesial

Desafios surgem para serem vencidos. E o mais difícil deles, o mais árduo de todos os caminhos a ser percorrido é o que se agiganta dentro de nós. O comodismo, a indiferença, a preguiça a falta de boa vontade, o medo de mudar, a estagnação, a falta de amor e ardor pela missão. Este caminho só pode ser percorrido por cada um de nós. Que o Espírito Santo nos anime a todos.

Aristides Luis Madureira é Graduado em Comunicação, com Especialização em Direção de TV, Diretor da Editora A Partilha, há 20 anos implantando e revigorando a Pastoral do Dízimo no Brasil. Autor de várias obras sobre o dízimo e a oferta, dentre elas: “Pastoral da Partilha Manutenção”, “Dízimo e as obras de misericórdia”, publicados pela Editora A Partilha.
Fonte: Revista Paróquias, ed. 31. Para ler mais matérias sobre gestão eclesial, assine já: (12) 3311-0665,  (12) 99660-1989 ou [email protected]

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