Conselhos de um Bispo para os párocos

Para desempenhar bem a própria tarefa de evangelizador, é necessário dar atenção a dois aspectos da vida sacerdotal: as tarefas organizativas, que incluem desde as atividades de secretaria até visitas às famílias, desde a organização da catequese até a participação nos Círculos Bíblicos e, ao mesmo tempo, o aspecto pessoal, pois é indispensável reservar momentos para manter viva a consciência da própria vocação e cultivar a relação pessoal com Cristo, como fonte da energia, da criatividade, da ação missionária. Isto implica a fidelidade, a oração litúrgica, a missa cotidiana (mesmo quando não têm fiéis) e uma leitura espiritual que possa alimentá-lo cotidianamente. Neste sentido, um sacerdote é o enviado de Deus ao povo da sua paróquia e, por isto, deverá unir ao serviço que presta a este povo, a formação e o aprofundamento da própria consciência sacerdotal, como discípulo-missionário do Senhor.

Aprimoramento
Uma característica impressionante do mundo contemporâneo é a velocidade vertiginosa com a qual são produzidas novidades, tanto no plano técnico, como no cultural. É importante que o sacerdote seja capaz de dialogar com os seus paroquianos adultos, jovens, idosos, adolescentes, procurando compreender suas esperanças, medos, angústias e expectativas de vida. Por isto, é necessária não somente uma atualização teológica para acompanhar a reflexão que está sendo elaborada para a compreensão do mistério, mas é indispensável também acompanhar o Magistério da Igreja e, de modo especial, os pronunciamentos do Santo Padre, o Papa. Com efeito, ele é quem mais, sistematicamente, dialoga com a cultura atual. A finalidade deste aprimoramento intelectual e espiritual, teológico e cultural é, de um lado, compreender a problemática dos seus paroquianos e, do outro lado, ser compreendido na sua atividade de evangelizador. Nada é pior do que um padre que, ao falar aos seus paroquianos, fala de algo que está “das nuvens para cima”, quer dizer, que não arranha sequer a realidade cotidiana com seus conflitos e problemas, que não traz a luz de Cristo para iluminar os conflitos e as esperanças que eles vivem no cotidiano, parecendo querer construir um mundo espiritual sem nexo com a realidade.

Controle das finanças
Uma postura comum de muitos párocos é planejar as atividades pastorais e relativas às despesas, a partir das entradas previstas através do dízimo e de outras possíveis fontes. Na realidade, vale a pena inverter este ponto de vista, não renunciando a uma certa audácia para planejar uma ação evangelizadora e missionária, mesmo quando os recursos necessários estão acima das entradas previstas. A comunidade pode se motivar e se mobilizar para conseguir mais recursos na medida em que o objetivo que se propõe é relevante.

Captar recursos
A Igreja no Brasil vem de uma longa tradição de captação de recursos na Europa e nos Estados Unidos, especialmente para projetos de maior envergadura. Quer para construir salas, capelas, igrejas, quer para realizar projetos educativos, promocionais e de evangelização. Estas circunstâncias estão mudando: o Brasil é considerado um país emergente, onde circula uma grande quantidade de recursos financeiros e, portanto, outros governos e Igrejas de outros lugares, consideram que o Brasil deve conseguir a autonomia neste campo. Por outro lado, a secularização nos países do primeiro mundo e a recente crise econômica que afeta, de maneira mais grave estes países, indicam uma maior dificuldade para eles continuarem a oferecer recursos como vinham fazendo nas últimas décadas. Chegou o momento de cultivar nas nossas comunidades católicas, uma maior sensibilidade para as necessidades da Igreja e uma maior generosidade.

A equipe
São conhecidos dois modos de organizar a atividade pastoral em uma paróquia. Um modo centralizador, em que tudo é decidido pelo pároco, até as questões mais simples e, no pólo oposto, um modo que delega aos leigos todas as tarefas e todas as responsabilidades. Os dois modos são perniciosos porque não educam os leigos da paróquia para uma efetiva responsabilidade. É fundamental que o pároco compartilhe suas responsabilidades com grupos de leigos e planeje, com eles, as diversas atividades. Mas, cabe a ele manter viva a consciência da unidade entre os diversos grupos da paróquia, orientá-la para uma relação orgânica com o plano de pastoral da diocese e com as diretrizes gerais da ação evangelizadora da CNBB. As diversas atividades pastorais poderão ter um bom desempenho e uma continuidade no tempo mais garantida se, o pároco como coordenador e motivador estiver presente, participado não apenas da etapa do planejamento, mas acompanhando diretamente todos os passos dados.

O relacionamento com a comunidade
A comunidade gosta de perceber o seu pároco como “homem de Deus”. Eu pude verificar que os leigos têm estima por um pároco “administrador”, por um pároco “construtor”, mas eles admiram mesmo o pároco que vivendo uma profunda relação pessoal com Jesus Cristo, vive com eles uma verdadeira paternidade, ajudando a cada um a dar os passos para uma maturidade e uma responsabilidade maior na Igreja e no mundo. Um bom pároco estará atento a promover um testemunho de vida cristã, nos diversos ambientes onde os seus paroquianos trabalham: escola, hospital, empresa, repartição pública, etc. Neste sentido, ele valorizará os leigos que se engajam na equipe litúrgica, no grupo do dízimo, na catequese e nas outras diversas atividades paroquiais, mas dará toda força, apoio e orientação aos leigos que irão levar o anúncio de Cristo aonde a paróquia não pode chegar, isto é, nos ambientes de trabalho.

A catequese
A catequese constitui o coração de uma paróquia, não somente a catequese das crianças, orientada a primeira eucaristia e a catequese dos adolescentes, orientada ao Crisma, mas a catequese de adultos, inclusive dos não batizados como escola permanente de formação. Nos últimos tempos, afirma-se uma mentalidade segundo a qual se devem preferir pequenos grupos de catequese. Supondo que, desta maneira, poderá ser garantida uma maior qualidade do aprendizado e do envolvimento daquelas crianças e adolescentes com aquela Igreja. Às vezes, eu tenho a impressão que se trata não do zelo por uma qualidade maior, mas de um pretexto para reduzir trabalho e responsabilidade. Deve-se sempre fazer uma relação entre as crianças que freqüentam a catequese e as outras crianças da mesma idade que moram no território da paróquia. Poderá o pároco dar-se por satisfeito se ele alcança, por sua catequese, dois ou três por cento da totalidade das crianças de sua paróquia. Também, muitas crianças que freqüentam a catequese só vêem o pároco de longe, na missa de domingo. É muito importante que cada pároco, como bom pastor, conheça as suas ovelhas, as chame pelo nome, quer dizer, acompanhe direta e pessoalmente as crianças e os adolescentes da catequese.

As pastorais
As diversas pastorais constituem o corpo da paróquia, como comunidade de comunidades. Sempre mais as diversas pastorais devem conquistar, além do espírito de serviço para responder às necessidades organizativas da paróquia, o espírito do discipulado, para reservar sistematicamente momentos para a formação e o aprofundamento de sua caminhada de fé. No espírito do Documento de Aparecida, os discípulos são convidados também a serem testemunhas de Cristo, missionários. Cabe ao pároco zelar para que cada pastoral mantenham vivas estas dimensões, para que cada membro possa ser efetivamente discípulo e missionário do Senhor. Esta é a condição para que cada pastoral possa acolher novos membros que desejam sair do afastamento da Igreja. Eles querem encontrar não somente grupos de trabalho, mas um testemunho vivo de Cristo.

Sugestão final
Gostaria de sugerir ao pároco que esteja presente nos grupos, nos encontros de formação, nas reuniões, como um bom pastor, enviado de Deus, responsável pela conversão e pelo caminho de fé das pessoas que, por intermédio do Bispo, o próprio lhe confiou. Esta presença determina a qualidade de sua ação pastoral que deverá ser acompanhada de visita às famílias, especialmente, quando passam por alguma circunstância difícil (doenças, desemprego, etc).
Dom João Carlos Petrini é Bispo da Diocese de Camaçari/BA.

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