Deus predestinou uns ao céu e outros ao inferno?

Se Deus criou os homens sabendo que iriam uns para o céu e outros para o inferno, seria correto dizer que Ele “predestinou” algumas almas a serem condenadas?

Se Deus criou os homens sabendo que iriam uns para o céu e outros, para o inferno, seria correto dizer que Ele predestinou algumas almas a serem condenadas, assim como predestinou outras à salvação eterna?

Deve guiar-nos nesta resposta um versículo bíblico: “Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2, 4).

Isso significa, em primeiro lugar, que não: Deus não criou nenhum ser humano com a intenção de condená-lo ao inferno. Essa tese — assumida por Calvino em suas consequências mais absurdas, a ponto de o herege reformador defender que Deus teria predestinado o ser humano inclusive ao pecado — deve ser descartada antes de qualquer coisa, sob o risco de blasfemarmos contra a justiça e a santidade divinas. Adotá-la equivaleria a dizer que Deus deseja o mal a suas criaturas.

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Mas o termo predestinação admite, de fato, inúmeros sentidos. Por isso, antes de nos aprofundarmos na questão teológica, seria importante deixar bem claro a que, afinal, estamos nos referindo quando usamos este termo.

“Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade.”

Em um sentido mais amplo, predestinação seria “todo decreto divino por meio do qual Deus, devido à infalível presciência que tem do futuro, fixou e ordenou desde a eternidade todos os eventos que ocorreriam no tempo, especialmente os procedentes diretamente, ou pelo menos influenciados pelo livre-arbítrio do homem” [1]. Neste sentido, falar de predestinação seria o mesmo que falar da Providência Divina, que todas as coisas governa com sabedoria.

Em um sentido mais estrito, porém, a predestinação diz respeito ao destino eterno que Deus tem reservado para suas criaturas racionais e, em especial, aos seres humanos. Teríamos de falar aqui, portanto, de uma dupla predestinação: uma ao céu e outra ao inferno (sendo esta mais comumente chamada de “reprovação”).

Mas as duas precisam ser entendidas do modo ortodoxo. Santo Tomás de Aquino, ao responder se Deus reprova algum homem (S. Th., I, q. 23, a. 3), explica que “a predestinação [ao céu] inclui a vontade de conferir a graça e a glória, assim também a reprovação inclui a vontade de permitir que alguém caia em culpa e de infligir a pena da condenação por esta culpa”.

Note-se que os verbos usados pelo Aquinate não são os mesmos: em relação aos predestinados, há a vontade de conferir a graça e a glória; em relação aos condenados, há a vontade de permitir que pequem e de infligir a pena devida pelo pecado.

As palavras são importantes porque deixam clara a interferência da liberdade humana no projeto original de Deus: embora Ele queira, de fato, que todos os homens se salvem, alguns, em virtude do “não” que respondem ao amor divino, terminam se condenando.

Explicação melhor a esse respeito encontramos ainda na Suma Teológica, quando Santo Tomás afirma, em relação à passagem de que “Deus quer que todos os homens se salvem”, tratar-se aqui de sua vontade antecedente, e não de sua vontade consequente:

Essa distinção não se toma da parte da própria vontade divina, em que não existe antes nem depois, mas da parte das coisas que Ele quer. Para compreendê-lo, é preciso considerar que qualquer coisa, na medida em que é boa, é querida por Deus. Ora, algo pode ser à primeira vista considerado, de modo absoluto, bom ou mau; ao passo que, considerado com outra coisa, e esta é uma consideração consequente, seja exatamente o contrário.

Por exemplo: que um homem esteja vivo é um bem, matar um homem é mal, se consideramos de modo absoluto. Se, contudo, se acrescenta, para determinado homem, que é um assassino ou um perigo para a coletividade, sob esse aspecto é bom que este homem seja morto, é um mal que viva.

Daí poder-se falar de um juiz justo: quanto à vontade antecedente quer que todo homem viva, mas quanto à vontade consequente quer que o assassino seja enforcado. Assim também Deus quer, quanto à vontade antecedente, que todos os homens sejam salvos, mas quanto à vontade consequente quer que alguns sejam condenados, segundo exige sua justiça (I, q. 19, a. 6, ad 1).

Em suma, o responsável pela própria condenação é sempre o homem, nunca Deus.

O mesmo não se pode dizer, no entanto, da predestinação ao céu, sob o risco de incorrermos no extremo do pelagianismo. A obra da salvação do homem, desde o início até a sua consumação, é de iniciativa divina, pois é Deus “que opera em nós o querer e o fazer” (Fl 2, 13): Ele, “aos que predestinou, também os chamou; e aos que chamou, também os justificou; e aos que justificou, também os glorificou” (Rm 8, 30).

Esse trabalho de Deus não dispensa, é claro, a colaboração humana: “Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti”, dizia Santo Agostinho. Em inúmeras passagens do Evangelho, o céu e o inferno são tratados como o “prêmio” e o “castigo” eternos devidos a nossas obras boas ou más.

Não é verdade, portanto, que nos salvaremos por puro arbítrio divino, não importando o que fizermos ou deixarmos de fazer. Se o nosso nome estiver escrito no Livro da Vida, isso se deverá sem dúvida nenhuma à misericórdia divina, mas à misericórdia que nós livremente aceitamos dizendo “sim”, dia após dia, à vontade de Deus.

Nesta vida, porém, ninguém pode estar seguro da própria salvação. Escutemos a esse respeito o que ensinou o imortal Concílio de Trento, respondendo às angústias mal resolvidas dos autores da “Reforma” Protestante e advertindo-nos da necessidade de viver santamente:

Ninguém […], enquanto vive nesta condição mortal, deve presumir do arcano mistério da predestinação divina a ponto de se julgar, seguramente, no número dos predestinados, como se fosse verdade que quem foi justificado ou não pode mais pecar ou, se pecar, deve contar com um seguro arrependimento. Pois não se pode saber a quem Deus escolheu para si, senão por uma especial revelação.

De modo semelhante deve-se dizer em relação ao dom da perseverança, do qual está escrito: “Quem perseverar até o fim, será salvo” (Mt 10, 22) […]. Ninguém, quanto a este dom, imagine alguma coisa com absoluta certeza, embora todos devam nutrir e guardar firmíssima esperança no auxílio de Deus. Pois, se não falharem quanto à sua graça, Deus, como começou a boa obra, assim também a levará a termo, operando o querer e o realizar (cf. Fl 2, 13).

Todavia, aqueles que crêem estar em pé cuidem de não cair (cf. 1Cor 10, 12) e realizem a própria salvação com temor e tremor (cf. Fl 2, 12), nas fadigas, nas vigílias, nas esmolas, nas orações e nas ofertas, nos jejuns e na castidade (cf. 2Cor 6, 5s).

Sabendo que foram regenerados na esperança da glória (cf. 1Pd 1, 3), mas não ainda na glória, devem temer pela batalha que ainda resta contra a carne, contra o mundo, contra o diabo, da qual não podem sair vencedores, se não obedecerem, com a graça de Deus, às palavras do Apóstolo: “Somos devedores, mas não à carne, para vivermos segundo a carne; pois, se viveis segundo a carne, morrereis. Se, ao contrário, no Espírito fazeis morrer as obras da carne, vivereis” (Rm 8, 12) [2].

— Agora estou em parafusos! Ninguém pode ter certeza da própria salvação? É possível, então, que uma pessoa cumpra a vontade de Deus ao longo de toda a vida e, no último instante, consentindo em um pecado mortal, seja condenada ao inferno? Como pensar nisso e não enlouquecer?

Tendo “firmíssima esperança no auxílio de Deus”, como diz o Concílio de Trento e como ensina este episódio da biografia de São Francisco de Sales:

Entre fins de 1586 e começos de 1587, quando ainda estudava em Paris, [Francisco] tomara contato com a tese teológica da predestinação, defendida pelos protestantes (em especial Calvino) e por alguns autores católicos, e muito discutida na universidade. Ao debruçar-se sobre esse problema, começara a duvidar da própria salvação — muito embora, tanto quanto é possível sabê-lo, nunca tenha cometido um único pecado mortal —, e passara uns bons dois meses acossado por uma tentação obsessiva de desespero que lhe ia roendo a paz de espírito e até a saúde física.

Livrara-se dela num dia em que, ajoelhado diante de uma imagem de Nossa Senhora, fizera a única coisa possível a quem se encontra nessa situação: um ato heroico de abandono e de esperança em Deus. Declarou ao Senhor que estava disposto a amá-lo durante esta vida mesmo que o seu destino fosse a condenação eterna, e abandonou todas as dúvidas acerca da sua salvação na Misericórdia divina [3].

A exemplo de São Francisco de Sales, confiemo-nos à Virgem Maria, “esperança nossa”, sempre que nos ocorrer qualquer tentação, seja ao desespero, seja à presunção. E aprendamos a ter sempre em mente este ato de esperança: “Eu espero, meu Deus, com firme confiança, que pelos merecimentos de meu Senhor Jesus Cristo, me dareis a salvação eterna e as graças necessárias para consegui-la, porque vós, sumamente bom e poderoso, o haveis prometido a quem observar fielmente os vossos mandamentos, como eu proponho fazer com o vosso auxílio”. Amém.

Referências
1. Joseph Pole, “Predestination”. The Catholic Encyclopedia, v. 12. New York: Robert Appleton Company, 1911.
2. Concílio de Trento, Decreto sobre a justificação, 6.ª sessão, 13 jan. 1547, cc. 12-13 (DH 1540-1541).
3. Joseph Tissot, A arte de aproveitar as próprias faltas, trad. de Emérico da Gama. 3.ª ed., São Paulo: Quadrante, 2003, p. 10.

Fonte: Padre Paulo Ricardo
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