Ética na sociedade atual: crise de valores e moralidade

A questão é complexa. Muito difícil de ser tratada, sem uma via de síntese, pois vivemos uma profunda crise de valores e moralidade. Houve uma tentativa de diferenciar a ética da moral, principalmente depois do Iluminismo; todavia, penso que os termos estão sendo aplicados paralelamente por vários pensadores que tratam do assunto na atualidade.

A ideia de particularizar as concepções do que é a ética na modernidade trouxe muita confusão sobre o seu significado na pós-modernidade.

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Todos os indivíduos têm o seu ethos. Cada um quer que o seu paradigma subjetivista, particular, grupal, ideológico, partidário seja imposto aos demais sujeitos que compõem a sociedade. Todos querem que seus direitos sejam respeitados, mas poucos estão abertos a obedecer às regras que dizem o que é o direito dos outros.

Há uma dificuldade de reconhecer quem é o outro, enquanto diferença que não pode ser para mim uma realidade a ser destruída e renegada; mas sim, contemplada enquanto sujeito, que é animal político e habita uma realidade criada.

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Aqui eu introduzo a linha sintética da reflexão que trago neste espaço, a saber:

1) A ética e o respeito à vida

A preocupação com a vida é o tema central da reflexão ética. Só tem liberdade, quem tem vida. A reflexão sobre a ação humana precisa sempre estar atenta a este ponto cardeal.

As atrocidades cometidas na Segunda Guerra mundial reenviaram a narrativa sobre a centralidade e inviolabilidade da vida humana, a ser tipificada na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948.

A sociedade contemporânea, com sua amnésia histórica, está tomando o mesmo caminho da vontade de poder como meta a ser buscada por todos os meios, e deixando a vontade da verdade, que considera a dignidade humana, como algo secundário e periférico, como tão bem denunciou Romano Guardini no pós-guerra.

É uma preocupação profundamente contemporânea. A centralidade da verdade, que primeirea a pessoa humana e tudo o que a ele está relacionado, precisa ser assumida pela humanidade e seus meios representativos.

A perspectiva da ecologia integral pensada pelo Papa Francisco tem essa dimensão (LS, Cap. IV). Uma ética integral e integrante, na qual e da qual a pessoa humana seja o princípio e o fim.

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 2) A ética e a justiça social

Esse tema é o mais preocupante no atual cenário, principalmente em nosso país. Podemos dizer que aqui temos um reflexo que nos permite afirmar que a nossa sociedade passa por uma profunda crise ética e moral; pois a corrupção das pessoas, dos políticos e das instituições traduz a falta de consciência ética e cidadã do próprio povo.

Existe uma cegueira política generalizada, por omissão ou participação irracional, sem seriedade e capacidade de verdade ética.

Esse é um problema estrutural, mas é também uma questão pessoal. Observando e discernindo o que temos como figuras representativas na política, devemos considerar que o próprio povo é quem elege e defende os que são promotores da injustiça e da desigualdade social, em parceria com os detentores do poder econômico, e agora com a grande mídia que se tornou mais uma prostituta do mercado.

Há a urgência de uma ética da responsabilidade (H. Jonas). Através dela, podemos aprofundar a interação das éticas laica e cristã.

Todos deverão assumir a responsabilidade de uma transformação pessoal e comunitária da nossa sociedade, e, no nosso caso, na atual conjuntura política das nossas instituições.

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 3) A ética e as novas tecnologias

O último e pungente ponto é sobre as novas tecnologias. A ética pós-moderna tem que dialogar com o que está sendo qualificado como pós-humano e pós-verdade.

Estamos colhendo os frutos da Revolução Tecnológica do pós-guerra. A sociedade contemporânea tem que saber o que fazer com uma nova realidade, que para progredir não quer saber de uma ética que delimite o seu poder, e que considere a centralidade da vida humana e da criação como o seu fim, e não o seu meio.

De um modo mais imediato e existencial, as novas Mídias Sociais transformaram o próprio modo de ser da condição humana.

Existe uma perplexidade em saber quem é o sujeito e o objeto neste novo cenário. Uma ética pós-moderna, que faça a leitura dos sinais dos novos de modo honesto, deve ler esse novo modo de ser das pessoas e como protagonizar uma direção que faça com que o ser humano não esqueça que é o senhor da história e da sua própria vida; ou seja, o tema da liberdade como capacidade de interação e respeito humano é um ponto de aprofundamento para sabermos que ética é necessária na sociedade contemporânea.

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Por fim, o tema é amplo. Metodologicamente, só pontuei algumas preocupações que, na atualidade, são transversais e que exigem da sociedade um esforço intelectual e institucional que possibilite uma chamada de atenção para que sejamos mais saudáveis e promotores da vida e do bem social. Assim o seja!

Pe. Matias Soares – Arquidiocese de Natal/RN, mestrando Pio Brasileiro em Roma.
Siga no twitter: @pe_matias

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