“Eu sou o demônio, vim te matar porque você nos incomoda muito”
“Eu sou o demônio, vim te matar porque você nos incomoda muito” (Foto:Divulgação)

O relato arrepiante do assassinato do Padre Nazareno Lanciotti.

No dia 11 de fevereiro de 2001, no recinto da sala de jantar da casa paroquial, um total de nove pessoas, a saber:

Dr. Antônio Ferdinando Aurélio de Magalhães, Dr. Laerte Petrônio de Figueiredo, Giancarlo Della Chiesa, Isaura de Brito Giancarlo, Jorge Moreira, Simone Coelho Filho, Alair Davi, Franca Pini e Padre Lazareno Lanciotti.

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No final do jantar, às 21h40min, deram a entrada no recinto, dois homens encapuzados (ambos com o capuz da cor cinza escuro), e camisa de manga longa cor preta.

Um deles aparentava ter aproximadamente 1.67 de altura, de pele morena escura, vestindo calça jeans nova, cor verde escuro, sapato kildare, armado com uma pistola tipo 765 cromada, e o outro tinha aproximadamente 1,70 de altura, magro, de pele moreno claro, vestindo uma calça de brim, cor verde-escuro, sapato de camurça preto, este empunhava um revólver cano médio calibre 38, de cor cobre envelhecido.

Imediatamente ao entrar, um deles disse que aquilo não era nenhuma brincadeira e que eles estavam ali para um trabalho, por isso mandou que todos cooperassem e ficassem tranquilos que ninguém se feriria. Pediu que fossem fechadas as duas janelas que davam visão para a rua.

Depois, o segundo indivíduos mencionados, perguntou quem era o Padre, e o próprio se identificou, e queria saber ainda, quem era a dama que veio de longe, e Franca Pini se identificou como tal, este indivíduo era quem se pronunciava o tempo todo, enquanto o outro, posicionado perto da porta, vigia a todos.

Ele queria saber onde o Padre dormia. O Padre respondeu que dormia ali naquela mesa casa e também no seminário. O indivíduo pediu que ele apontasse onde era o quarto e foi rapidamente verificar.

Voltando ele disse que o Padre estava mentindo, e que ele não dormia ali, porque lá não havia roupa dele. Em seguida o indivíduo afirmou que o padre dormia no seminário, pois na noite anterior (10/02/01), eles estiveram no local e sabiam que o quarto dele era ali, e disse ainda: “nos íamos te pegar ontem, mas descobrimos que você tem um guarda, pois ele funcionou uma motocicleta dentro do seminário no momento que estávamos lá”.

O Padre explicou que no sábado, por causa de uma reunião, alguns jovens guardavam sua moto ali, e que no seminário não tinha nenhum guarda. Logo após o individua afirmava que o Padre tinha dois cofres onde guardava seus valores, e afirmava também que um estava no hospital e o outro no quarto do Padre.

A Sra. Franca e o Padre Nazareno confirmaram a afirmação. O Padre dizia que o cofre realmente existia, mas há cerca de vinte anos, ele não sabia mais a senha, pois um seminarista fechou o cofre com a senha dentro, e que lá só tinham cédulas de cruzeiro e papéis sem valor. O indivíduo se irritou dizendo que o Padre estava mentindo.

O Padre disse a ele que como no cofre não tinha nada, ele daria um cheque de quatro mil reais e não o sustaria, e ainda que levasse o carro.

Nesse instante o telefone tocou que era sem fio, o indivíduo se posicionou atrás do Padre, apontando o revólver na cabeça da Franca que estava ao seu lado e disse: “Não faça gracinha, senão acontece alguma coisa com ela”.

Na mesma hora o Padre devolveu o, dizendo que alinha tinha caído. Em seguida o indivíduo se algumas pessoas que estavam jantando, tinham seus quartos ali, e foi afirmado que sim.

Pegaram então as chaves dos quartos e os revistaram, voltando novamente ao recinto, sabendo que um deles era médico, e que morava ali próximo ao recinto, o indivíduo pegou a chave do quarto do medico para verificá-lo, e quatro minutos depois voltou dizendo que não conseguiu abrir a porta do quarto, e então o Dr. Laerte propôs ir junto no quarto, de onde voltaram com cerca de mil reais.

Nesse interesse, o segundo homem ficava no recinto fazendo a guarda dos outros.

Depois disso, voltando ao recinto, o outro perguntou se alguém mais tinha dinheiro, foram oferecidos 240 reais pela Franca, e a chave do quarto do Sr. Giancarlo, Della Chiesa, e declarou que lá havia 800 reais dentro do guarda-roupa.

O indivíduo foi ao quarto, e voltou sem ele, afirma o casal Giancarlo e Isaura, que pois de todo o ocorrido, constataram que o dinheiro não foi levado. Irritado, ele dizia que não era ladrão de pequena importância, mas sim ladrão de banco, e em seguida jogou na mesa todo o dinheiro arrecadado.

Em seguida, ele pediu novamente a senha do cofre, dizendo ao Padre que cooperasse dando a senha, senão ele colocaria a vida dos outros em risco.

Nessa hora o Padre levantou-se e pediu misericórdia, pois ele não sabia a senha, e não ia colocar a vida dos outros em risco, e que se fosse matar ou ferir alguém, que essa pessoa fosse ele.

Nesse momento o indivíduo percebeu o volume no bolso da camisa do Padre, e o pegou perguntando-lhe o que era pedindo que o padre abrisse.

O Padre abriu a “teca” (pequeno objeto onde se guardava a Eucaristia), e mostrou que era a Hóstia Consagrada que sobrou da visita aos doentes. O indivíduo viu e disse que aquilo não o interessava.

Então foi proposto aos indivíduos, que levassem o cofre inteiro dentro de qualquer um dos carros ali disponíveis, podendo ser o carro do Padre Nazareno, o Dr. Laerte, ou do Sr. Giancarlo, e ainda levar o cheque do Padre e todo o dinheiro arrecadado.

Após o fato o indivíduo disse que como o Padre não cooperava, estava decidido a ferir alguém, praticando a roleta russa.

Mandou que todos ficassem sentados. Nesse momento o Padre disse ser um Sacerdote, e que não mentia, e o indivíduo se aproximou do ouvido esquerdo do Padre e cochichou em voz muito baixa que ninguém dos presentes pôde ouvir.

Nesse momento o Dr. Laerte, a Franca, a Isaura, a Simone, a Alair e o Jorge, puderam ver a atitude e a feição do Padre se transformar, demonstrando medo e desespero, levando as mãos ao rosto, abaixou a cabeça.

O indivíduo se afastou, cochichou rapidamente com seu companheiro e começou a retirar algumas balas do tambor do revolver.

A roleta russa iniciou pela Simone, que estava sentada no meio da mesa, depois de se deslocar para a esquerda, clicou na Alair e em seguida, voltando para a direita, deu a volta na cabeceira da mesa, chegando ao lado oposto onde estava o Padre na primeira cadeira, que ao perceber o revolver em sua têmpora (visto pelo Dr. Laerte que estava em sua frente), inclinou sua cabeça para a direita deslocando a ponta do revolver para o pescoço onde se efetuou o disparo.

Todo o ocorrido durou aproximadamente quarenta minutos.

Atestamos e damos fé de que neste documento consta somente a verdade.

Os dois bandidos fugiram e todos se precipitaram para socorrer o Pe. Nazareno que havia tombado à direita, amparado pela Franquina, que estava ao seu lado.

O Padre foi rapidamente levado ao hospital, a poucos metros da casa, com a assistência dos médicos. De lá foi transportado para Cuiabá em um pequeno avião. Chegou a Cuiabá as duas da madrugada, depois de sofre duas paradas cardíacas durante a viagem sendo prontamente reanimado pelos médicos que o acompanhavam.

As seis da manhã, Pe. Celso Duca, pároco da Araputanga, ciente do acontecido chegava de carro ao hospital. Pe. Nazareno o reconheceu e pediu-lhe a absolvição sacramental.

A convite do Pe. Celso renovou sua consagração a Nossa Senhora, ofereceu sua vida pela paróquia, pela Igreja, pelo Papa, pelo Movimento Sacerdotal Mariano e perdoou aos seus assassinos.

No mesmo dia doze de fevereiro foi transportado para São Paulo, onde ficou ate dia 22 de fevereiro. Foi assistido com muito amor pelo Bispo de Cacéres, pelo Pe. Estefano Gobbi, pelo Otávio Piva de Albuquerque e por todos os fiéis do Movimento Sacerdotal Mariano em São Paulo.

Não perdeu a consciência, mas ficou paralisado. Revelou ao Padre Gobbi que o bandido, antes de atirar, havia sussurrado ao seu ouvido estas palavras: “Eu sou o demônio… vim te matar porque você nos incomoda muito”.

O Pe. Nazareno morreu às seis da manhã de 22 de fevereiro de 2001.

O féretro foi trazido de São Paulo a Jauru. Fez uma parada em Cuiabá onde, às quatro da manhã de 22 de fevereiro, foi celebrada uma Santa Missa de sufrágio, na Catedral, com a presença de muitos sacerdotes e uma multidão de fiéis. Presidia a cerimônia Dom Bonifácio Piccininni, Arcebispo Metropolitano de Cuiabá.

Às oito da manhã chegaram a Catedral de Cáceres, onde Dom José Vieira de Lima celebrou outra Missa, com alguns sacerdotes e os fiéis que lotaram a Igreja.

Às doze horas o féretro chegara de avião a Jauru onde foi recebido com tristeza e amor pelo seu povo, que o velou em oração durante o dia e a noite.

No dia 24 às dez da manhã, celebraram-se os funerais. Monsenhor José Vieira de Lima presidiu a cerimônia, concelebrada por trinta sacerdotes.

O féretro, depois de um cortejo pela avenida em frente à Igreja, foi conduzido à Matriz e sepultado ao lado direito do tabernáculo e do trono de Nossa Senhora do Pilar.

Fonte: Aleteia

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