É COMUM NOS DEPARARMOS, em publicações espíritas diversas, impressas ou virtuais, com a divulgação de “noticias” dando conta de que a Igreja Católica teria de algum modo reconhecido e/ou aceitado a prática da invocação dos espíritos dos mortos, reconhecendo assim a veracidade da doutrina espírita. Tais notícias são sempre inconsistentes e confusas –, simplesmente por serem sempre totalmente falsas –, trazem fontes duvidosas, quando não simplesmente falsificadas. Recentemente, um padre da herética “Igreja Católica Brasileira” foi citado, desonestamente, como se fosse um sacerdote da Igreja Católica Apostólica Romana. A verdade é que não existe a menor possibilidade de que tal coisa venha um dia a acontecer, já que estamos falando de uma prática proibida categoricamente pelas Escrituras, pela Tradição, pela Teologia e por toda a doutrina cristã e católica desde sempre.

O máximo que a Igreja pode pretender, com relação ao espiritismo, é a coexistência cordial e pacífica, na medida do possível, e isso já se tem buscado há um bom tempo. Todavia, conviver pacífica e respeitosamente com o diferente não é a mesma coisa que aceitar ou assumir os seus erros doutrinais. Quando uma pessoa declaradamente “católica” diz que também crê em reencarnação, ou quando procura um “médium” para evocar “espíritos” –, supostas “entidades” das quais ela, além de tudo, não tem como conhecer a origem –, comete grave pecado que precisará ser confessado. E se tal prática se torna habitual, esta pessoa cai no desvio ainda mais grave da contumácia, deixando mesmo de ser membro da Igreja Católica, excluindo-se automaticamente da Comunhão com o Corpo de Cristo.

Diretamente relacionada a estas realidades é a seguinte mensagem, que recebemos do leitor Valdemir Faleiros, comentando nossa postagem sobre a vida de Chico Xavier:

“Henrique, espero que meu comentário não seja ironizado por vc respeite as pessoas que aqui chegam amigo… Espero também, não ser chamado de sem educação, pois em nenhum momento fui… Quero ver agora, se vc tem peito de mostrar a verdade.”

Logo em seguida, Valdemir acrescenta ao seu comentário o link para uma página espírita-esotérica (que por motivos óbvios não divulgaremos) que apresenta uma matéria ida ao ar há alguns anos pelo programa “Fantástico” da rede Globo de televisão (que notoriamente sempre promoveu o espiritismo – mais informações neste link), intitulada “Museu das Almas do Purgatório” (veja do que se trata).

Antes de entrar na questão do referido museu e do que ele significa, gostaríamos de reafirmar o que é evidente, ao Sr. Valdemir e a todos os nossos leitores: entre os mais de duzentos comentários que aquela postagem sobre Chico Xavier recebeu, em nenhuma das nossas respostas fomos desrespeitosos. Fomos nós, isto sim, muito desrespeitados, sendo que diversas mensagens foram pessoalmente ofensivas (boa parte sequer pôde ser publicada). Todos os participantes, entretanto, receberam respostas puramente informativas. Portanto, não entendemos a preocupação de Valdemir quanto a ter o seu comentário “ironizado”.

Entrando no assunto proposto, o chamado “museu” de fato existe, numa igreja em Roma, e foi idealizado com o intuito de demonstrar a real existência do lugar ou estado das almas que permanecem em purificação até que possam ser admitidas ao Paraíso Celeste: o Purgatório, tema sobre o qual já tratamos aqui.

Esse curioso “museu” contém relíquias que seriam testemunhos da comunicação de certas almas padecentes no Purgatório. A referida matéria televisiva fala de um pesquisador brasileiro de parapsicologia, chamado Clóvis Nunes, que entrou no local e filmou as peças ali conservadas. Foi entrevistado também o Padre Gino Concetti, teólogo franciscano que declaradamente não atribui grande importância às peças do museu, dizendo:

“Eu penso que a materialização da religião e das verdades é sempre uma expressão ligada a uma determinada época, a uma cultura e sensibilidade. Eu acredito mais numa verdade sobrenatural espiritual. Não podemos saber nada do purgatório, apenas isto: é um lugar, como disse Dante, onde os espíritos vivem até serem dignos do Reino dos Céus. Sabemos que o inferno é um lugar de tormento, como disse Jesus no Evangelho, onde há pranto e lamento. Mais do que isso não podemos saber.”

Curiosamente, o próprio Padre Gino chega a dizer que, pessoalmente, não acredita naquelas relíquias: “Não é possível materializar uma coisa espiritual. Nós imaginamos as almas entre chamas para exprimir a ideia de que essas almas sofrem tormentos e precisam de ajuda. Mas na verdade não é (exatamente ou literalmente) assim”. A reportagem ouviu também o padre capuchinho Vittorio Traini, exorcista do Vaticano, que disse o seguinte:

“As almas não manifestam a sua presença com essas coisas, a menos que tenham sido graças muito especiais ou extraordinárias, concedidas a pessoas [e em casos] especiais. Assim como existem essas manifestações, há também manifestações de caráter infernal, do diabo.”

Como vemos, a verdade está bem longe do que alguns espíritas foram rápidos em afirmar, isto é, que a Igreja estaria “aceitando” as práticas espíritas ou coisa parecida… Mesmo assim, insistentemente, diversos veículos espíritas continuam divulgando a existência do museu como uma espécie de “prova” de que a Igreja Católica admitiria a comunicação com os espíritos dos mortos, conforme defende a doutrina espírita. Uma atitude puramente desonesta e lamentável. Deixemos então o disse-que-disse, e vamos ao que afinal interessa: a verdade dos fatos.

1. Inconsistência da notícia

Não é a primeira vez que o espiritismo procura atrair para si o abono da Igreja Católica. Pelo contrário, basta lembrar por exemplo que, num recente filme (fictício e totalmente apologético) sobre a vida de Chico Xavier, além de incluírem um padre católico como o principal amigo do “médium”, os espíritas ainda insistiram em citar como “muito católico” o ator Tony Ramos, que atuou na produção. Ora, um padre como ombro amigo de Chico Xavier e mais a presença de um artista de renome supostamente “muito católico” atuando no filme espírita: eis a combinação pensada para transmitir aos católicos (menos esclarecidos) uma mensagem bem clara: o espiritismo é compatível e conciliável com o catolicismo. Desonesto e lamentável, mais uma vez.

Afinal de contas, a Igreja aceita a comunicação com espíritos? A simples verdade

a) Como dissemos no começo, vez em quando surgem “notícias” dando conta de que padre fulano teria declarado que acredita na comunicação com os espíritos, ou que o padre ciclano “concorda” com a doutrina espírita… No vídeo do Youtube em que um padre de uma seita é descaradamente apresentado como “padre católico”, defendendo o espiritismo e renegando a doutrina católica mais elementar, vemos a clara e criminosa desonestidade intelectual. Mas – e isto é muito importante – ainda que algum autêntico padre católico, por qualquer motivo, realmente aprovasse as práticas espíritas, isso não significaria que a Igreja Católica confirma ou aceita o espiritismo. Aliás, tal padre seria imediatamente afastado das suas funções assim que seus procedimentos chegassem ao conhecimento do seu bispo.

Toda decisão doutrinária da Santa Sé é publicada em documento assinado pelo Papa ou colaboradores imediatos. A coleção chamada “Acta Apostolicae Sedis” é o órgão através do qual são divulgados os atos oficiais da Santa Sé. Nenhum teólogo, padre ou bispo, e em última análise nem mesmo o Papa, falando isoladamente, pode ser tido como representante da fé da Igreja, se não estiver em concordância com a Sã Doutrina de sempre e a Tradição bimilenar desta mesma Igreja.

b) O Catecismo da Igreja Católica (CIC) é uma fonte segura para nos informarmos a respeito das questões fundamentais da autêntica doutrina católica. Qualquer pessoa pode e deve procurar no seu índice e informar-se a respeito de todo assunto relacionado. Quanto ao espiritismo, o texto do CIC é claro, no seu parágrafo 2117: “a Igreja adverte seus fiéis a evitá-lo”; e quem recorre o Catecismo só encontra ali a clássica doutrina da Comunhão dos Santos, sem nenhuma referência a evocação ou comunicação com falecidos. Vejam-se os parágrafos seguintes:

“A comunhão com os falecidos – Reconhecendo cabalmente a Comunhão de todo o Corpo Místico de Jesus Cristo, a Igreja terrestre, desde os tempos primeiros da religião cristã venerou com grande piedade a memória dos defuntos. (…) Já que é um pensamento santo e salutar rezar pelos defuntos para que sejam perdoados dos seus pecados (2Mc 12, 46), também ofereceu sufrágios em favor deles. A nossa oração por eles pode não somente ajudá-los, mas também tornar eficaz a sua intercessão por nós.” (CIC §958)

“As testemunhas que nos precederem no Reino, especialmente as que a Igreja reconhece como santos, participam da tradição viva da oração, pelo exemplo modelar de sua vida, pela transmissão dos seus escritos e pela sua oração hoje. Contemplam a Deus, louvam-no e não deixam de velar por aqueles que deixaram na Terra. Entrando na Alegria do Mestre, eles foram postos à frente de muitos. A sua intercessão é o mais alto serviço que prestam ao plano de Deus. Podemos e devemos pedir-lhes que intercedam por nós e pelo mundo inteiro.” (§959)

A Igreja aceita a oração aos santos (pedidos humildes dirigidos aos justos, já no Céu, para que intercedam por nós), mas não aceita a invocação dos mortos (prática ritual que pretende obter mensagens dos mortos). São coisas completamente diferentes.

c) Cabe observar, por fim, que a Igreja aceita tranquilamente o estudo da paranormalidade, coisa bem diferente de necromancia. Sensitivo é o indivíduo dotado de paranormalidade aguçada; este não é o que chamam “médium” espírita; só o será se pregar que os fenômenos psíquicos sejam produzidos por espíritos do além que lhe comunicam mensagens contrárias à fé cristã de sempre.

2. O testemunho bíblico

Para o católico, é fundamental o testemunho das Sagradas Escrituras. O mesmo Deus que, segundo seus inescrutáveis Desígnios, permite as vezes a aparição de santos ou mesmo de defuntos, proibiu terminantemente a evocação dos mortos, e foi sempre claríssimo neste sentido:

“Se alguém se dirige aos que invocam os espíritos e aos adivinhos, para se entregar às suas práticas, voltarei minha Face contra esse homem e o afastarei do meu povo.” (Lv 20, 6)

“Todo homem ou toda mulher que evocar os espíritos ou se der à adivinhação, será punido de morte. Lapidá-lo-ão; seu sangue recairá so­bre ele.” (Lv 20,27 – ver ainda Lv 19,31 / Dt 18,11)

Não obstante estas severíssimas proibições veterotestamentárias, conta a Escritura que o rei Saul, atribulado numa campanha bélica, foi ter com a pitonisa e necromante ou “médium” de Endor, pedindo-lhe que o pusesse em comunicação com a alma de Samuel, seu mentor de outrora (cf. ISm 28, 7-14). Tal coisa parece que de fato ocorre, porém (muito importante) a Bíblia Sagrada acentua com toda a clareza que esse feito foi ilícito:

“Saul se tornara culpado diante do SENHOR porque interrogara e consultara os que invocam os mortos.” (1Cr 10, 13)

Ainda assim, segundo a Escritura (que nem sempre deve ser tomada ao pé da letra) dá a entender que Deus permitiu que o espírito de Samuel, evocado, respondesse, não por causa dos ritos da pitonisa, mas para que através das suas palavras o rei se arrependesse e fizesse penitência, ao menos no fim de sua vida (Saul morreria no dia seguinte); a exortação dirigida a Saul em circunstâncias tão especiais e extraordinárias poderia ter sido particularmente eficaz. Isto, porém, não quer dizer que Deus se dirija aos homens por via tão incomum todas as vezes que os chamados “médiuns” o desejem.

3. E as visões dos santos?

Não existe absolutamente nenhuma relação entre os alegados fenômenos espíritas e as visões dos santos. Em primeiro lugar, os santos de Deus são servos do SENHOR e modelos de cristãos que estão no Céu, em Deus, e não espíritos “desencarnados” ou almas de pessoas mortas esperando para reencarnar e que vêm à Terra trazer mensagens quando chamamos por eles.

As visões e aparições da Virgem Maria e dos santos católicos são espontâneas, não resultam de invocações de “médiuns” ou algo que as provoquem. Tais visões podem ser a resposta do SENHOR às preces das almas justas; contudo, assim como Deus pode atender a essas súplicas (caso isso ocorra para o bem dos fiéis), pode também não fazê-lo: nunca será lícito ao cristão crer que dispõe de algum meio para se comunicar com as almas dos defuntos ou chamá-las quando quiser, em rituais ou reuniões específicas para este fim.

Todo o nosso possível intercâmbio com os santos se realiza mediante a insondável e soberana permissão de Deus. Tanto assim que, mesmo quando uma pessoa piedosa e devota julga estar sendo agraciada por visões, os mestres da vida espiritual sempre lhe aconselham toda a cautela na interpretação de tais fenômenos, e a Igreja custa muito a reconhecê-los; só os admite mediante rigorosa investigação e mesmo assim não impõe o seu conteúdo como verdade absoluta, regra de fé ou dogma para toda a Igreja.

Todo este rigor existe porque a Igreja sabe que Satanás não raro se dissimula em “anjo de luz”, como novamente advertem as Sagradas Escrituras (cf. 2Cor 11,14). De fato, as autênticas aparições de santos neste mundo (que não são provocadas nem controladas por nós) são fenômenos raros.

Como se vê, também neste último quesito, nada daquilo que a Igreja crê se identifica com a posição dos espíritas. Como cristãos católicos, não desejamos nem pregamos o conflito entre pessoas de diferentes religiões; apenas exigimos a honestidade necessária para que se reconheça que “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”.

Fonte: O Fiel Católico

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