Volta e vez e meia certa mídia laica fala do declínio do catolicismo no Brasil. O assunto rende! Ainda bem que declínio não é o mesmo que derrota! Francisco e os reformadores pobres do Século XIII que o digam. Responderam em massa a uma igreja que declinava desde o século X. Profetas têm isso de bom. Falam e vivem e futuro revela se foram ou não foram profetas.

Tornou-se a falar em declínio da presença da Igreja Católica no Brasil quando da morte do influente Dom Eugênio Sales, cardeal emérito de tantos méritos, mas também de tantas polêmicas exatamente porque tinha convicções e se pronunciava. O Documento de Aparecida fala da necessidade de voltar à polêmica sadia em defesa da Igreja. ( D.A. 229) Se outros podiam falar para os aplausos de um dos lados, por que não ele que, tímido, nunca buscou aplausos nem holofotes? Homem de bastidores, capaz de fazer politica sem alarde, Dom Eugênio fazia acontecer enquanto ele pouco aparecia. Era um articulador. Direito legítimo seu tanto quanto o era dos outros que, como ele, também falavam a agiam. Foi bom para o país e para a fé. Mostrou que os católicos não são um bando tímido de comedores de pipoca a ver na tela o que se passa lá fora…

Mas foi esta virtude de dialogar e de defender até quem dele discordasse que fez de Dom Eugênio de Araújo Sales uma figura marcante. Sei disso porque ele me livrou de uma ordem de prisão. Apostou em mim e tomou a minha defesa quando soube que eu tinha falado em Belo Horizonte que uma juventude que não aprende a votar aprende a se revoltar.

De falcão ele tinha pouco, de cordeirinho também não, mas estava longe de ser o lobo que o pintaram. Havia um misto de pomba serena e de leão quando ele se erguia em defesa da fé e quando acolhia os perseguidos pela ditadura na sua residência ou em espaços da diocese.

Esteve presente em momentos lúcidos e fortes do país. E foi inovador em muitos campos. Participou e agiu na criação da Sudene, na alfabetização dos pobres, na valorização do rádio como instrumento de cidadania dos pequenos, na distribuição de terras da igreja, na pastoral da criança, pastoral das favelas, nas Comunidades Eclesiais de Base e em dezenas de outras atividades que apontavam para o social. Se ele não era simpatizante da esquerda como se apresentava naqueles dias, esquerda que também matou e fez guerrilha, também não era da direita que em alguns casos foi brutal. Hoje sabemos um pouco mais sobre aqueles dias de convulsão que só não foi pior porque houve uma igreja que falou e reagiu contra desmandos dos dois lados.

Situá-lo como direitista ou ultraconservador foi, é e será uma enorme injustiça. Conservador lúcido, sim, ultraconservador nunca. Imobilistas aferrados ao passado não fazem as inovações que ele fez. Dom Eugênio, isto sim, era avesso a aventuras de quem sabia o que não queria, mas nem sempre sabia o que queria. Reagiu contra determinados discursos incendiários dentro e fora da Igreja, mas ele mesmo era um padre e bispo com fortes preocupações politicas e sociais, ao mesmo tempo em que não aceitava o marxismo nem aplaudia o capitalismo selvagem que se delineava no Brasil.

Suas falas no rádio e na televisão mostravam fé e moderação. Se lutou contra algum movimento de Igreja ou alguma corrente política era seu direito de cidadão e de cardeal. Suas ideias venceram. Entre os que perderam muitos conservaram respeito por suas posturas humanísticas e outros o reverberam até hoje.

Imagino que nos anos 300 , em Alexandria e arredores os defensores do padre Ário não admirassem os bispos Alexandre e Atanásio e vice-versa. Mas foram eles que propiciaram o Credo que rezamos hoje! Era um tempo de concepções antagônicas sobre Jesus e sobre fé e política que envolviam até os imperadores. Hoje, os leitores e eleitores da esquerda ou da direita terão seus gurus, seus afetos e seus desafetos. Indiferente a rótulos, Dom Eugênio falou e agiu. Ele era um bispo católico e ponto final: defendia a fé que jurara defender.
Tivesse morrido um padre ou um pastor famoso, destes que ficam bem diante de um holofote, aquele pombo que ficou o tempo todo ao lado e sobre o caixão do falecido cardeal, até quando o transportavam, teria se transformado em símbolo de alguma coisa. Mas, como Dom Eugênio não tinha milhões de seguidores nem os buscava, ele ficou reduzido a apenas uma coincidência.

Mas pode-se tirar alguma lição do fato. Pombos não ficam perto de falcões… Talvez aquele pombo dissesse que não houve o que temer diante dele nem na vida nem na morte. Era homem de diálogo que, porém, não se dobrava a pressões e não se calava. Era e é possível amá-lo, porque foi um baluarte.

Um período como aquele talvez não volte, mas registre-se a vida e os atos do cardeal Eugênio Sales como proféticos. Ele cabe muito bem na galeria dos mais de trinta bispos e sacerdotes católicos que marcaram aqueles dias. Das muitas locomotivas laicas e religiosas que puxaram o pesado país Brasil para a democracia, situe-se Dom Eugênio. Levou a sério a ideia de Ordem e Progresso. Alguém perguntaria: -“Que ordem e que progresso?” Exatamente o que ele também perguntou!… Vamos e venhamos! Coerência não tem sido a virtude brasileira dos últimos 60 anos. Ele a exerceu. Foi um homem coerente!

Pe. Zezinho, 10/03/2013

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