O feminismo surgiu com uma proposta, mas acabou distorcido com ideais que acabam ferindo a mulher, explica filósofa

No dia internacional da mulher o noticias.cancaonova.com conversa com a mestre em sociologia Arlene Denise Bocarji sobre feminismo. A professora reconhece as conquistas deste movimento mas alerta para as distorções e radicalismos que ele adquiriu ao longo do tempo, como negar as diferenças biológicas entre os sexos ou até mesmo, favorecer o aborto.

Ela faz ainda uma análise sobre as contradições do feminismo, destaca a maternidade ao falar sobre o papel da mulher na sociedade, defende que é possível conciliar trabalho e família e propõe uma reflexão neste dia 8 de março.

À luz da sociologia e antropologia, o que é o feminismo? A busca de igualdade de direitos entre homens e mulheres resume esse conceito?

Professora Arlene Denise Bacarji – Sim. “ O feminismo pode ser definido como a defesa dos direitos iguais para homens e mulheres, acompanhada do compromisso de melhorar a posição das mulheres na sociedade”. (Dicionário do Pensamento Social do século XX). No entanto, esse é um movimento social que tem desavenças políticas e ideológicas até mesmo entre os que apóiam a causa das mulheres. Mas o básico é sim a busca de direitos iguais entre mulheres e homens. Hoje não somente direitos iguais mas também proteção da mulher contra a violência masculina. É importante dizer que no Brasil, segundo a cada 12 segundos uma mulher é violentada, de acordo com uma pesquisa da Secretaria de Políticas para Mulheres do Governo Federal, a cada 10 minutos, uma mulher é estuprada, de acordo com o Mapa da Violência, e a cada 90 minutos uma mulher é assassinada, de acordo com o IPEA. São crimes ditos passionais, diferentes das mortes que ocorrem com os homens. Essa é uma luta que penso ser de todos. Ao longo da história começaram haver problemas com o termo “feminismo” devido aos radicalismos que se desenvolveram em torno desse termo, mas etimologicamente não podemos dizer que o termo “feminismo” tem a ver com as distorções, radicalismos e desvios desse termo original.

Gostaria que a senhora recordasse um pouco o histórico. Quando e como surgiu o feminismo? A proposta inicial é a mesma que se apresenta hoje, ou os ideais feministas foram instrumentalizados de maneira radical?

Professora Arlene – Não, a proposta inicial se desenvolve em 1792, na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, como feminismo democrático, liberal dirigido a obtenção de direitos iguais para mulheres e homens. Apesar das grandes conquistas que esse movimento
alcançou, pois graças a ele temos os nossos direitos garantidos pelas leis, com o decorrer da história esse feminismo vai adquirindo muitas faces, dentre elas a mais radical de negar as diferenças biológicas entre os sexos, ou de favorecer o aborto, com o argumento de que a

mulher tem poder sobre seu corpo e o direito de uma liberdade de fazer o que quiser com sua vida. As ideologias vão contribuindo para um feminismo que não mais exige somente igualdade de direitos, dignidade e proteção contra a violência, mas um feminismo que confunde igualdade de direitos e dignidade, com igualdade biológica, necessidade de supressão do masculino e da masculinidade, assim como supressão daquilo que faz parte do feminino como os aspectos biológicos, argumentando que por causa da maternidade e do argumento de diferenças biológicas as mulheres ganham menores salários ou tem menos acesso a empregos e cargos superiores, etc.

Atualmente percebe-se uma “onda” de adolescentes feministas. Sabemos que a adolescência é uma fase em que se questiona normas de conduta. Será que na adolescência há de fato a consciência clara do que se reivindica nesse movimento?

Professora Arlene – O que ocorre são dois fatores conjugados que complicam a situação. Um é de que a adolescência tem “fama” de ter necessidade de ir contra tudo e contra todos, (digo “fama” porque discordo que isso precisa ser uma regra do ser adolescente, penso que existem muitos adolescentes que por motivos de uma criação com profundo diálogo, podem ser equilibrados, bem orientados e não precisam desses comportamentos autoafirmativos a partir de radicalismos). O outro fator é que com a cultura da superficialidade em que vivemos onde as pessoas não buscam mais um conhecimento sólido sobre as questões, muitos jovens e adolescentes engolem as ideologias sem a menor critica ou conhecimento do que se trata realmente. Ou seja, há uma ignorância da gravidade do assunto, um “oba-oba” e uma necessidade de entrar nas “modas”, por medo de ser diferente e ir contra a correnteza.

Ainda em relação a adolescência, qual o reflexo que a falta da consciência clara sobre o que de fato é o feminismo pode ter na vida dessas jovens, em termos individual e social?

Professora Arlene – As conseqüências são muitas. Uma dela é o feminismo ter um efeito
completamente contrário. Veja como esse movimento gera contradições, apesar de suas inegáveis conquistas: A busca original era de igualdade de direitos e de dignidade e a luta contra a violência contra a mulher. O que se obtém com as distorções é o oposto: A busca de direitos iguais em vez de favorecer as mulheres no mercado de trabalho mostrando o quanto são inteligentes e capazes, levou-as a obter o direito de se liberar sexualmente como eram e são os homens, naquilo que eles (os homens) têm de mais pobre e instintivo. Isso faz delas objeto sexual como nunca na história. Ao transformar a mulher cada vez mais em objeto sexual, mais favorece os homens e uma sexualidade masculina problemática assim como favorece a necessidade de se fazer mais e mais abortos, traumatizando as mulheres tanto física como psiquicamente, pois o aborto é uma violência contra a própria mulher. Mesmo que feito em clinicas boas e bem equipadas. Ilusão é acreditar que o aborto é violência somente com as mulheres pobres que não tem acesso a um aborto bem feito, isso é ilusão. O aborto, seja ele bem pago ou em bons hospitais, será sempre uma violência psicológica, afetiva e física, tanto contra a mulher e milhões de vezes maior, contra o ser humano que ali está sendo abortado. É uma contradição imensa. Ao mesmo tempo que muitas feministas estão associadas às lutas pela conservação do planeta, a luta contra a violência doméstica, incluindo crianças, algumas lutam por terem direito de cometer tamanha violência contra si e contra a criança e contra a natureza, como o aborto. É uma contradição estranha.

Em alguns casos é possível perceber um certo constrangimento da mulher que opta por cuidar da casa e dos filhos e não trabalhar fora. Dizer que é dona de casa por exemplo, pode parecer uma “diminuição” da mulher, como se isso fosse uma opressão e não uma realização. Isso é fruto dos ideias feministas?

Professora Arlene – É claro que o feminismo influenciou e influencia muito a sociedade e as mulheres, mas é ao mesmo tempo contraditório esse sentimento, pois a luta das feministas é pela liberdade, então se esta mulher faz essa opção livremente e por vontade própria, teria que estar de acordo com o feminismo. A pressão maior vem de dentro de si mesma. O que ocorre é que na realidade essa situação da mulher incomoda porque hoje as mulheres sentem necessidade de terem componentes na sua identidade que vão além do ser mãe de família, ligados à própria autoestima. Elas almejam usar sua inteligência, suas potencialidades intelectuais e de renda familiar. Outro aspecto que devemos levar em consideração é que quando a mulher faz essa opção de ser mãe de família e não estar engajada no mercado de trabalho ela está também optando pela dependência financeira e isso pode trazer alguns transtornos para a relação conjugal. No entanto, isso pode ser visto como um momento da vida familiar, um momento em que haja necessidade dessa parada para se dedicar a um dom especial das mulheres que é o de ser mãe. E que após os filhos se desenvolverem um pouco mais ela pode retornar ou buscar se engajar no mercado de trabalho. Existem opções de trabalhos com menores jornadas. O ideal é a pessoa saber que é possível conciliar as coisas e lutar por isso sem prejudicar a familia.

Qual é de fato o papel da mulher na sociedade?

Professora Arlene – A mulher tem algo muito diferente dos homens, ela tem o dom da maternidade. Isso, ao contrario do que algumas feministas pensam, faz dela pessoa mais intuitiva, mais afetiva e mais madura, inúmeras vezes. E também faz dela pessoa mais sensível o que pode contribuir para um tipo de inteligência muito especial. Ela tem muitos papéis. Ela pode adquirir o papel de profissional nas áreas que lhe interessam, ela pode adquirir o papel que quiser. Mas um dos papéis instituídos pela natureza é o de ter uma influencia imensa na sociedade quando ela é capaz de cumprir bem o papel de mãe. Pois não adianta você ser uma excelente profissional em qualquer que seja a área e ter filhos psicóticos, sem estrutura psíquica ou sem formação, sem caráter, delinqüentes, por que você foi uma mãe relapsa, desligada e sem vinculo afetivo com seu filho ou filha. Infelizmente nossa sociedade tem cada vez mais jovens delinqüentes e psicopatas devido às ausências de mãe e pai na educação e formação dessas crianças. E aqui não entra somente a mulher, mas todo ser humano que pretende ter uma família, o primeiro grande papel dele é formar bem o psiquismo de seus filhos, tanto pai quanto mãe. É claro que isso muda muito de acordo com as classes sociais, não podemos esquecer das mães pobres que são obrigadas a trabalhar em subempregos, de doze horas de ausência em casa, para ganhar o pão de cada dia. Esse é um fator social que não podemos ignorar e que lutar por direitos a salários mais justos, vida mais digna com a família, maternidade mais bem vivida sem tanta pobreza deveria ser a grande luta de todos nós e das feministas principalmente.

Qual reflexão a senhora gostaria de propor para as mulheres nesse dia 8 de março?

Professora Arlene – A luta pelo equilíbrio. Capacidade de agir com responsabilidade, se engravidou assuma o filho, cuide para que ele seja um ser humano na face da terra que faça o diferencial, que seja alguém especial, capaz de ser transformador da sociedade, capaz de ser saudável e feliz. Que as mulheres sejam menos vitimas das ideologias pseudo-feministas que em vez de libertá-las para uma vida melhor e saudável escraviza-as por meio de uma vida de servidão sexual, e violência contra seus próprios corpos, que elas mesmas cometem com abortos e sexualidade desordenada , contraindo as DSTs, com máscara de libertação e direito ao prazer. Que as mulheres possam ser conscientes de suas características biológicas e não negá-las, que elas possam ser livres cada dia mais pela VERDADE. O verdadeiro feminismo deveria se opor ao fato da mulher ser cada dia mais objeto sexual nas mídias, nas revistas, etc. Deveria ser a libertação da mulher com relação a uma sexualidade desordenada, que a coloca como objeto sexual de homens que não lhes oferecem a dignidade que merecem. A verdadeira libertação é a castidade até que encontremos alguém que possa nos oferecer amor verdadeiro, compromisso, respeito, consideração e não somente nos tratar como objetos e nos escravizar. Só a VERDADE liberta, o pecado e as ideologias escravizam.

Sobre a entrevistada – Arlene Denise Bacarji – Possui graduação em filosofia pela Universidade Católica Dom Bosco (1991) e Mestrado em Sociologia pela Universidade Federal do Paraná (2000) e mestrado em Teologia pela PUC/RS e doutorado em Teologia sistemático-pastoral pela PUC-Rio . Possui experiência nas disciplinas de Sociologia, sociologia da religião, Filosofia e filosofia política e Introdução a Teologia, Eclesiologia, Moral Social, Teologia de Gênero, Sacramentos de Iniciação, Mariologia. Atualmente é professora da Faculdade Canção Nova em Cachoeira Paulista

Fonte: Canção Nova

 

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