‘Nossa Senhora é o exemplo maior de uma pessoa cristã, de ser humano. É o nosso modelo’, diz Dom Flávio

Para o bispo, Nossa Senhora não deve ser enxergada como deusa, mas como mãe do salvador e modelo de cristã, pois foi a mais perfeita discípula de Jesus.

A diocese de Santarém, no oeste do Pará, está em festa para a realização do 99º Círio de Nossa Senhora da Conceição, no domingo (26). O G1 entrevistou o bispo Dom Flávio Giovenale sobre temas como a fé que move o povo que caminha com a berlinda, sobre os exageros no pagamento de promessas, venda de bebida alcoólica no arraial, o resgate de eventos como a remaria, e sobre questões sociais como a escalada de violência que tem resultado na morte de muitos jovens, em Santarém. Confira

A cada ano se verifica o crescimento do número de fiéis que participam do Círio. Como explicar essa fé que mobiliza tantas pessoas para acompanhar a berlinda?

Eu penso que tem várias explicações. Algumas muito chão, chão, outras mais espirituais. Do ponto de vista mais humano, nós estamos em um momento em que há muita insegurança. Temos tantas informações, e não sabemos quais são verdadeiras e quais são falsas. Temos também muita incerteza sobre como educar os filhos. Parece que as mudanças são tão grandes e acontecem tão rapidamente que é difícil dizer isso está certo ou isso está errado.

Nós como seres humanos precisamos de segurança, e Deus pode nos dar essa segurança. Também o aumento da religiosidade em sentido geral, inclusive de igrejas evangélicas, e de grupos e movimentos dentro da igreja católica e novenas durante a semana. E quando tem fatos extraordinários, como o Círio, o povo se reúne. Ao mesmo tempo existe outra explicação mais espiritual, de que Deus está agindo e está congregando o seu povo. Nós somos seres humanos, então precisamos tocar, ver. Por isso que já no antigo testamento Deus mandou fazer a serpente de bronze para que as pessoas olhassem. Também a própria cruz de Cristo. A imagem de Nossa Senhora é apenas a representação de quem primeiro acolheu Cristo em sua vida.

Então, para nós, Nossa Senhora é o exemplo maior de uma pessoa cristã, de ser humano. É o nosso modelo. Deus age para que reconheçamos Jesus por Nosso Senhor e salvador. E por tabela, Nossa Senhora, que é a mãe de Jesus.

Esse é um ano mariano, mas muitas igrejas relegam a figura de Nossa Senhora. Na Igreja católica essa presença é muito forte. Qual o verdadeiro significado da mãe de Jesus para a igreja católica?

Para a igreja católica e para algumas igrejas evangélicas que estão redescobrindo esse amor, Nossa Senhora é verdadeiramente mãe. Algumas igrejas relegaram Nossa Senhora até por causa de alguns exageros de católicos que a colocavam acima de Jesus. E outras, por verdadeira pirraça.

O que os cristãos aceitam é pregar o Evangelho e este diz que Ela é agraciada, que Ela é cheia das graças de Deus, cheia do Espírito Santo, é chamada de Mãe do meu Senhor, e é a primeira missionária que leva Jesus a Isabel, que por sua vez também fica cheia do Espírito Santo. Para nós da Igreja Católica Ela é a mãe de Jesus, e nós chamamos também mãe de Deus. Ela não é deusa, é um ser humano. Como a mãe do Neymar que não sabe jogar bola, mas é a mãe de um dos melhores jogadores do mundo, é a mãe do salvador, é um modelo de cristã e foi a mais perfeita discípula de Jesus.

No Círio nós vemos muitas demonstrações de fé, mas também há exageros no pagamento de promessas. Como a igreja vê essa questão?

Exagero não é bom para nada. Agora, a igreja, especialmente os padres e o bispo podem trocar as promessas, que em geral são feitas em momentos de desespero. O crucifixo que temos na catedral é fruto de uma promessa feita por um cientista alemão durante uma tempestade. Nos hospitais, às pessoas fazem promessas ‘se eu for salvo, se minha filha ou meu filho for salvo, vou fazer isso’. Às vezes tem promessas que são exageradas, como fazer todo o Círio de joelhos.

A orientação da igreja é que uma vez que a pessoa se acalme, avalie se aquela promessa não é exagerada e procure um padre para fazer a troca. A promessa tem que ser demonstração de amor a Deus e não um pagamento, nem se deve ter medo que Deus ou um santo lance uma praga se não for cumprido aquilo que se prometeu. Também não se pode prometer para que os outros cumpram.

O agradecimento pela graça alcançada deve ser no sentido de ajudar os outros, ou seja, demonstrar o amor em gestos concretos. Em vez de soltar foguetes, por exemplo, o dinheiro pode ser usado para ajudar uma instituição de caridade, uma família que esteja em necessidade, uma doação de sangue, um remédio para quem não tem condições de comprar.

Dom Flávio Giovenale ressalta que a imagem de Nossa Senhora é apenas representação de quem primeiro acolheu Cristo em sua vida (Foto: Sílvia Vieira/G1)

Essas correntes que contêm ameaças, não passam de besteiras. É pensar Deus com os defeitos humanos. E Deus não tem defeitos humanos.

Com o uso de redes sociais, muita gente compartilha correntes usando nome de santos para que a mensagem seja passada para outros, sob pena de receber um castigo dos céus. O senhor já recebeu esse tipo de corrente?

Dia 2 de novembro eu até respondi em um grupo de WhatsApp uma mensagem que dizia ‘hoje é dia de Santa Rita, se a mensagem não for compartilhada imediatamente você não terá seus pedidos atendidos, vai acontecer tudo ao contrário’. Primeiro que não era dia de Santa Rita, o dia dela é 22 de maio. Ameaças não fazem parte do jeito de Deus, isso é pura superstição. Eu nunca repasso correntes. Inclusive, o Papa se pronunciou uma vez pelo Twitter dizendo que as ameaças não vêm de Deus. Essas correntes que contêm ameaças, não passam de besteiras. É pensar Deus com os defeitos humanos. E Deus não tem defeitos humanos.

O Círio desse ano resgata eventos tradicionais como Remaria que estava há muitos anos fora da programação. A questão da segurança pesou na decisão?

De fato a Remaria ficou sem acontecer por vários anos pelo fator segurança. Mas, esse ano, com a parceria da Capitania Fluvial reunimos as condições ideais para termos novamente a devoção aliada à segurança, porque eu não quero que ninguém se machuque, tudo tem que ser feito dentro da segurança. Tem também o fator social que temos que cuidar.

Nós sabemos que a trasladação e outros eventos como a Ciclo Romaria atrapalham o trânsito, porque algumas ruas são interditadas e isso gera transtorno para quem está tentando voltar para casa. Mas dentro da segurança, nós vamos realizando os eventos. Na moto romaria, por exemplo, os órgãos como Detran e SMT já aproveitam para fazer um trabalho de educação no trânsito.

Durante as festividades de Nossa Senhora da Conceição nós temos arraial e um questão que sempre divide opiniões é a venda de bebidas alcoólicas. Como será esse ano?

Já conseguimos tirar há alguns anos a venda de bebidas fortes. Infelizmente, no ano passado, ainda teve uma barraquinha mais afastada vendendo. Mas esse ano os órgãos de segurança junto com o Ministério Público farão uma fiscalização. Nós ficaremos responsáveis pelas barracas que estiverem fazendo vendas relacionadas as coisas do arraial. E as demais ficarão sob a responsabilidade da Prefeitura. Foi uma parceria firmada sob orientação do Ministério Público. Estamos avançando nesse ponto. Agora, na barraca da Santa vai continuar a vender só cerveja, porque tendo o cuidado, dá para fazer.

A bebida em si não é proibida, o que é proibido é a bebedeira. Quem acha que por participar de uma festa tem que se embriagar está no mau caminho.

O ideal é fazer como fazia Jesus: não é proibir tudo. Jesus bebia vinho, transformou a água em vinho bom. A bebida em si não é proibida, o que é proibido é a bebedeira. Quem acha que por participar de uma festa tem que se embriagar está no mau caminho. A Bíblia é muito clara, os beberrões não vão para o Reino dos Céus, vão para o inferno.

Dom Flávio, Santarém vive um momento de crescimento da escalada de violência. Muitos jovens têm perdido a vida por envolvimento com drogas e assaltos. Essa é uma questão que preocupa a igreja?

Preocupa muito, porque os jovens são o futuro da nação e também da igreja. Tem acontecido um verdadeiro extermínio de jovens, principalmente de meninos. No Brasil nasce muito mais meninos que meninas. Mas aos 25 anos, o número de meninas é maior que o de meninos, porque há um verdadeiro massacre de meninos no trânsito e na criminalidade. Em 2018, a campanha da Fraternidade vai trabalhar a construção da paz contra a violência. Não é só a violência de tiros, é a violência familiar, a violência contra as mulheres e contra os jovens. Na sociedade atual temos algumas coisas que são contraditórias.

Precisamos de uma sociedade onde haja trabalho e emprego para todos e onde as famílias assumam seu papel na educação dos filhos.

De um lado se elogia enormemente a juventude. Mas, quando se fala dos jovens, é só que eles não prestam, que são irresponsáveis, que não querem estudar, não querem nada com nada. Há esse desprezo pelos jovens. E aí vem uma série de outros problemas. Então, há várias coisas que influenciam os jovens para o mal. Tem muita letra de funk que incita a violência, que incita matar policiais, que incita o estupro, que incita o uso de drogas. A mulher continua sendo objeto, o que vale são os órgãos sexuais da mulher, ela ainda é muito estigmatizada pelo seu corpo. Tudo pela cultura do dinheiro. Precisamos de uma sociedade onde haja trabalho e emprego para todos e onde as famílias assumam seu papel na educação dos filhos.

Essa cultura do dinheiro tem separado as famílias?

O rei do dinheiro é o demônio e o sonho do demônio é nos matar, literalmente. Tem havido um trabalho sistemático de desagregação das famílias. Dizem que o importante é se amar, mas se amam por três meses, depois não tem mais amor e partem para outra. É homem com homem, mulher com mulher. Amor a três, quatro, cinco, sete, são famílias abertas. Mas como cristão isso não é família.

Família cristã é constituída por homem, mulher e filhos. O resto poderá ser o que quiser, mas não é família. Mas tem um trabalho sistemático de destruição das famílias e dos valores familiares. Nas famílias pode haver brigas, desentendimentos, mas o amor sempre renasce, sempre supera. Colocar o dinheiro em primeiro lugar acaba por destruir as famílias. A ideia de trabalhar, buscar estabilidade financeira e adiar o sonho da maternidade é vendido como empoderamento feminino.

Fonte: G1

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