Cada mudança que fazemos é um projeto, ou seja, um esforço temporário com início, meio e fim, que busca alcançar um objetivo específico

Imagine que você teve uma ideia brilhante a respeito de um evento e passou dias considerando se deveria ou não compartilhar com o seu coordenador. As semanas se passaram e a ideia não foi embora, muito pelo contrário, ganhou força quando você compartilhou com outras pessoas e isto lhe deixou mais motivado ainda. Marcou um horário com o coordenador, quem sabe até com o seu pároco, e depois de um bom tempo explicando a ideia você ouviu: “Coloque seu projeto no papel e justifique bem direitinho a sua proposta”. De imediato, sua resposta foi: “Como assim, colocar no papel? Eu tenho a ideia, mas não estou pronto para apresentar um projeto por escrito!” O fato é que muitas ideias começam a desmoronar quando esta resposta é ouvida. É como se recebêssemos um “balde de água fria” e a ideia perdesse força no momento em que deve ser transferida para o papel e se transformar em um projeto.

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A temática é atual

Nunca se publicou tanta literatura sobre projetos como agora e, ainda assim, à primeira vista, parece que o termo “projetos” somente nos lembra burocracia, papel, documentação, formalização excessiva. Mas projetos existem desde o início dos tempos. As grandes construções da Antiguidade são exemplos de projetos bem-sucedidos que foram planejados e executados e que até hoje podem ser visitados e admirados. Ao falarmos de projetos, quem não se lembra do texto de Lucas a respeito da construção da torre? E se deixarmos de olhar para a História e para a Bíblia e olharmos para o nosso dia a dia, veremos que planejamos e executamos muito mais projetos do que supomos. Alguns exemplos são as viagens de férias, as festas de aniversário, a compra de um imóvel, uma mudança de cidade, a reforma da casa, celebrações de final de ano, enfim, atividades que fazem parte do nosso dia-a-dia que são, na verdade, projetos. Esta afirmação pode lhe surpreender, mas a verdade é que você tem atuado como um gerente de projetos em muitas ocasiões e pode ser bem experiente nisso!

Cada mudança que fazemos é um projeto, ou seja, um esforço temporário com início, meio e fim, que busca alcançar um objetivo específico. Geralmente cada projeto resulta em um produto ou serviço único, já que tem características próprias que o diferenciam de outros semelhantes. Vejamos, no caso da nossa viagem de férias: ela é única, temporária e geralmente alcança o objetivo para o qual ela foi planejada. O mesmo acontece com os outros exemplos acima. Em cada um deles o esforço é temporário e o resultado é único.

Trazendo este conceito para a realidade das nossas comunidades podemos identificar várias frentes que se encaixam perfeitamente nesta definição: eventos de evangelização, retiros, reuniões com as lideranças, viagens para participação em congressos, eventos diocesanos, palestras, construção de uma nova igreja, compra de veículo, reforma das instalações, abertura de um centro catequético, batizados, celebrações especiais, enfim, os exemplos são muitos e conhecidos por aqueles que atuam como lideranças em suas igrejas locais.

Partindo então do pressuposto comum de que projetos fazem parte do nosso dia a dia e de que temos até “certa experiência nisso”, o que nos impede, como líderes, de formalizarmos nossas idéias e sugestões dando formato ao projeto? Por que ficamos desanimados e desmotivados diante do desafio de propor algo por escrito quando a ideia queima dentro de nós? Seria a falta de tempo? Ou será que fazemos parte do time daqueles que não conjugam o verbo planejar e, sendo assim, eliminaram também do seu dicionário os substantivos plano, projeto, propósito, cronograma, orçamento?

Muitas vezes a nossa dificuldade não reside propriamente em como descrever nossa ideia, mas sim em como justificá-la, ou seja, porque nosso projeto deve ser executado e de que forma ele faz sentido para a comunidade. Em meio a tantas ideias, o que diferencia a nossa? Neste texto não pretendo analisar o projeto olhando para dentro dele, mas sim, para fora, para o contexto, para o ambiente, para a organização e para a igreja. Há muitos modelos e metodologias que podemos utilizar para formalizar nosso projeto, mas isto será assunto para uma outra oportunidade.

Olhando então para fora do projeto, o que justificaria a sua execução? Hoje, mais do que nunca, os recursos físicos, financeiros e de pessoal são escassos. Afaste-se por um momento da sua ideia-projeto e olhe para a igreja, olhe para fora. Quais fatores validariam este projeto em detrimento de outros propostos? São muitas as idéias e é normal que muitas idéias nunca venham a ser executadas. Que tipo de indicador nos daria o sinal verde para transformar uma idéia em um projeto? Haveria um fator maior que tivesse tamanha importância a ponto de uma idéia “saltar aos olhos” da liderança?

Projetos são elementos de execução da estratégia da organização

Entende-se estratégia como um conjunto de orientações e diretrizes de como atingir os objetivos definidos pela liderança. A estratégia fornece o rumo, a direção para onde a comunidade está coordenando todos os seus esforços. Olhando então para fora da ideia “candidata a projeto” vemos a estratégia como um grande guarda-chuva embaixo do qual todos os projetos devem se alinhar. Este alinhamento resulta em sinergia para a instituição na medida em que contribui para que a mesma alcance os objetivos traçados pela estratégia.

Olhando a estratégia mais de perto e buscando dentro dela a sua essência, chega-se na declaração de missão e visão da comunidade. Esta declaração é o fator mais importante na validação da sua idéia. É a partir da visão e missão que todas as estratégias são construídas. Se a sua ideia não está remando na mesma direção da visão e missão, você tem grandes chances de fracassar em seu projeto, ou ainda que ele tenha certo êxito, resulte em pouca ou nenhuma sinergia para a missão/visão da comunidade. Assim como os músicos de uma orquestra mantêm um olho no instrumento musical e o outro no maestro durante a performance, assim devem ser iniciados, conduzidos e finalizados todos os projetos dentro da comunidade. Sem um alinhamento estratégico do projeto com a visão/missão corremos muitos riscos que vão desde desperdício de recursos até a frustração com o fraco resultado do mesmo.

A reflexão e a análise fundamental a serem feitas, antes de um projeto ser colocado no papel são: a minha idéia está alinhada com a visão/missão da comunidade? Os recursos a serem alocados no meu projeto vão gerar sinergia para que a comunidade seja fortalecida na direção da visão/missão? Eu conheço e entendo a visão/missão da comunidade? Minhas prioridades e objetivos são influenciados por esta missão/visão? Esta visão repercute dentro de mim? Esta análise é essencial, tanto para o projeto em si quanto para o reforço de visão da comunidade. Portanto, não perca a missão/visão de vista. Utilize-a como uma bússola, como um direcionador, como inspiração e motivação, como limitador e como objetivo maior!

Concluo com uma citação de George Barna extraída do livro Líderes em Ação: “Visão é o ponto de partida de uma liderança eficaz. É também o ponto de chegada, porque todos os nossos esforços, em última análise, são avaliados em termos do progresso que fazemos no sentido de implementar a visão plena e fielmente”.

Adriana Pasello é coordenadora do Instituto Jetro. Formada em Letras pela Universidade Estadual de Londrina, tem MBA em Gerência de Projetos pela FGV-ISAE e cursa Administração de Empresas no IESB Metropolitana.

Revista Paróquias & Casas Religiosas, edição 10 – www.revistaparoquias.com.br

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