O Papa Emérito, Bento XVI, na sua última entrevista curada por Peter Seewald, fala como foi sua relação de amizade com o teólogo Balthasar (Cf. Benedeto XVI. Ultime Conversazioni. Pág. 139-143). No desenrolar do diálogo, algo é de ser levado em consideração para o que me proponho com esta partilha: a afirmação de quem era Balthasar na breve descrição de ambos. O jornalista refere-se ao jesuíta suíço como o místico, enquanto o pontífice o coloca como referência teológica; ou seja, como teólogo que o influenciou na construção do seu pensamento, juntamente com De Lubac. Interessante mencionar que Balthasar quando era solicitado na Comissão Teológica para algum trabalho, ele respondia: “já não sou teólogo, não posso fazer”. A partir deste ponto de encontro entre o místico e o teólogo, quero traçar a questão, que é de suma importância para o que estamos a viver no contexto da Igreja como instituição nos tempos hodiernos.

O estado da questão é o seguinte: qual é a relação entre a pessoa do místico e do teólogo? Todo teólogo deve ser místico, ou todo místico deve ser teólogo? Para o que é a Igreja e o seu papel como Sacramento de Jesus Cristo é uma perspectiva a ser aprofundada; pois, no homem e na mulher de fé, no cristão, no batizado, no discípulo missionário, esse encontro deve existir. É de ser citada a famosa frase de Karl Rahner que disse: “o cristão dos tempos modernos, ou será místico, ou não será cristão”. Mas, em senso lato, todo cristão é chamado, pela graça de Deus, a ser teólogo; ou seja, alguém que pelas virtudes teologais responde à gratuidade de Deus. Superando as particularidades dos séculos XVI a XVII com as grandes personalidades, como Santo Inácio, São João da Cruz, Santa Teresa de Àvila, claro que sempre atento ao histórico de tantos outros expoentes da mística cristã, na modernidade o tema está constantemente sendo trabalhado de modo indissociável da teologia. O teólogo Michel de Certeau tem uma reflexão ampla e transversal nesta linha, considerando o tema da mística. O teólogo J. Batista Metz fala sobre a mística de olhos abertos. Ele, atento à renovação da teologia pós-conciliar, que estava preocupada em considerar a história como lugar teológico, falará da urgência de uma mística de olhos abertos. Os próprios teólogos da Teologia da Libertação, como Clodovis Boff, colocarão o tema da mística como uma necessidade qualificativa do fazer teológico, ou seja, o que for pensado como autêntica teologia cristã na atualidade precisa fazer esse processo de interação entre o que é próprio da teologia e o que é próprio da mística, sem contrapô-las, mas tratá-las de modo complementar e interativo. Contudo, cabe a pergunta: é possível considerar um estatuto paradigmático de cada uma? Pensei um pequeno esquema, que espero possa ser aprofundado por mais contribuições.

Vejamos:

1) O teólogo (representa a teologia): não vejo que para este haja a necessidade do testemunho. Pode ser um ideólogo, profissional da teologia, não vive o que ensina. Nem sempre tem fé. No tempo de Jesus poderiam ser considerados os doutores da lei, os fariseus, os que não consideravam além do que era pensado. Não eram capazes de ver Jesus. Não percebiam os sinais que Ele realizava. Sua relação com Deus, não brotava de um coração que ama. Para entender o que pode significar a identidade de um teólogo puro, pode ser feito o percurso hermenêutico de tudo o que foi feito pelos sábios e entendidos do tempo de Jesus, que impedia que os mesmos reconhecessem quem era Jesus de Nazaré. Sem ir muito longe, pensemos a que serve a teologia, quando esta não permite que a Igreja seja pastora e serva do povo de Deus? Essa questão institucional deve ser considerada. Onde age Deus e até que ponto a razão é capaz de chegar enquanto ciência que pensa Deus à luz da fé?

2) O místico (representa à mística): testemunha a sua relação com o mistério. Não é aderente de uma ideologia, mas de uma Pessoa. Tem intimidade com o mistério do amor. Fala do que vive e vive o que fala. O martírio diário é uma possibilidade constante e uma resposta vital. Sua inquietude é uma possibilidade de encontro com o que é o centro da sua vida. Ação e fé se confundem. Pensemos nos homens e mulheres que têm contato com Jesus no caminho que ele faz para Jerusalém e a intensidade de sua fé, quando estão com Jesus Cristo. Suas perspectivas são ampliadas e traduzidas com o que é percebido na história, como sinal da ação de Deus. Sabe que o que diz sobre Deus, sempre será infinitamente menor do que Deus é capaz de fazer.

Retomando o problema posto na introdução, é de se pensar porque há uma ligação intencional de Bento XVI da mística e da teologia em Balthazar. O próprio Pontífice emérito deixa claro com o estilo de vida que escolheu, logo após a sua renúncia do que para ele significa fazer teologia. Essa combinação pode muito bem ser feita na comparação dos estilos pastorais do Papa Francisco e do próprio Bento. Nos dois, esses elementos encontram-se integralmente. Há mística porque tem teologia e há teologia porque tem mística em ambos. A mística rezada é a mística pensada na companhia da teologia. Sem a mística, a teologia perde a sua qualificação cristã e existencial. Recentemente, o Papa Francisco chamou à atenção dos presbíteros que tinham doutorados, mas não eram pastores. O que estou a lançar com a ideia a ser discutida entra nesta linha de percepção e entendimento. A sinergia acontece pela docilidade à ação do Espírito Santo. Rezemos sobre o significado da relação trinitária e poderemos amadurecer esta perspectiva.

Por fim, um caminho de reflexão pode ser aprofundado e visto como uma possiblidade de crescimento para toda a Igreja. O elemento qualificador da sua vida é a mística teológica. Penso a Oração Sacerdotal de Jesus (Cf. Jo 17) como uma referência de base para o que estou a defender. Sem relação profunda com Deus, não existe por si, nem a mística, nem a teologia. Continuemos este caminho que tem muito a nos oferecer para que atualizemos o que é próprio da vida cristã e eclesial na atual situação da Igreja e de cada fiel em vários âmbitos. Assim o seja!

Pe. Matias Soares cursando Mestrado em Teologia Moral na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, pertence à Arquidiocese de Natal.

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