espiritualidade administrativa presbítero

No dia 25/10/2017, o Cardeal Stella, presidente da Congregação para o Clero, órgão da Santa Sé que tem a missão de acompanhar os sacerdotes católicos do Mundo, abordou uma temática que, devido a outros desafios não menos delicados da vida presbiteral, estava um pouco esquecida das admoestações que constantemente devem ser vigiadas na condição existencial de qualquer ser humano que tenha determinadas responsabilidades e esteja liderando instituições. O referimento é mesmo à questão da gestão dos bens que pertencem aos cidadãos e ao povo de Deus.

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O prelado usou uma terminologia, não tão amiúde utilizada nas narrativas eclesiásticas, pelo menos quando é tratada publicamente. Eis que cito: “Quanto à espiritualidade administrativa a que cada presbítero é chamado a cultivar – o Cardeal convidou os padres a exercerem as suas funções ‘com a diligência de um bom Pai de Família’, com prudência e sabedoria. De fato, um sacerdote ‘bom pai de família’ pensa no futuro dos próprios filhos, ‘não de forma ingênua e sonhadora, mas concreta e razoável. Ele não ‘endivida a família seguindo projetos pessoais, quem sabe bons, mas irreais, conhece o valor do dinheiro e se sente responsável pelos bens que a Igreja confiou aos seus cuidados’, para que um dia ele possa restitui-los a quem vier depois dele”. Aqui está uma questão de fundamental importância para a vida da Igreja, como um todo, já que a mesma cobra das demais instituições transparência das suas atividades administrativas, e o faz justamente.

Contudo, seguindo o que foi-lhe peculiar e que demarcou a sua autoridade no decorrer dos séculos, ela precisa considerar com seriedade a justeza dos seus ministros ordenados na gestão dos bens eclesiásticos, que na sua originalidade são sempre do povo de Deus e que têm por meta a promoção da ação evangelizadora e a promoção da justiça social.

O Papa Francisco, com coragem e coerência cristãs, tem transparência de ações e palavras e deseja isso para toda a Igreja. Talvez, este seja um dos tantos admiráveis pontos reformadores do seu pontificado: a delicadeza e amor à verdade. Falando aos movimentos sociais, mais uma vez, ele citou o drama da corrupção como um problema antropológico que não está só na política; mas que atinge várias camadas da sociedade. Sobre este assunto, o também cardeal Turkson, em uma entrevista, transformada em livro, toca ordenadamente sobre este ponto, seguindo a trajetória magisterial do Papa Francisco, e refletindo sobre como ele atinge a pessoa e a sociedade, até mostrar sua face através dos vários crimes que atingem a dignidade das pessoas e da criação.

A ética contemporânea está retomando e sendo bula inspiradora na adesão da ética das virtudes para que possam ser desenvolvidas as ações globais, nas instituições e na vida pessoal. Sem uma ética que revalorize as virtudes da compaixão, honestidade, verdade, transparência, honradez, justiça e tantos outros valores, que promovam uma ecologia integral, na qual o ser humano seja um centro, desde a sua concepção até o fim natural, o próprio desenvolvimento econômico não será continuo e salutar. Ou seja, as instituições que não derem importância à ética e à moral, não terão perspectivas consistentes de um futuro promissor. Na atual conjuntura, a relativização da ética é um suicídio institucional e fator de descrédito de quem está à frente do gerenciamento destes órgãos de representatividade, seja dos cidadãos, ou dos fiéis que compõem às tantas comunidades religiosas.

Por isso, a expressão utilizada pelo cardeal Stella, ao referir aos sacerdotes, assume um significado urgente para a vida da Igreja e para a sociedade. Uma pessoa desonesta, que não tem preocupação com o bem comum, e que usa ilicitamente os bens públicos para saciar sua ganância, é um atraso e faz muito mal às instituições e à sociedade. Os atos dessas pessoas não podem ser tolerados, em nome de uma ingênua misericórdia, ou conivência, que não é justa com as pessoas e com o povo de Deus. A sociedade e a Igreja devem sim, tomar providências e não serem omissas com as práticas de desonestidade, ainda mais com os que estão assumindo responsabilidades dentro delas mesmas.

Enfim, o administrador, como foi lembrado, é como um bom Pai de Família. O bom pai é aquele que trabalha e faz da sua vida uma doação permanente por aqueles que ele ama. Tem consciência límpida e amor ao que faz. Não é funcionário. Não rouba. É alguém que ama e quer o desenvolvimento daqueles que Deus os confiou. Que essa espiritualidade administrativa possa ser testemunhada por todos, que temos a obrigação de ser bons administradores do que é do povo de Deus e dos cidadãos. Assim o seja!

Pe. Matias Soares – Arquidiocese de Natal/RN, mestrando Pio Brasileiro em Roma.
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