O pároco não é um monstro sagrado! Em nossos dias, quando tudo é tomado sob o ponto de vista de sua utilidade imediata, também o pároco sofre as consequências do imediatismo. Ele precisa competir com tantos outros líderes religiosos, até mesmo com seus colegas de ministério. Caso não consiga agradar a gregos e troianos, perde a admiração e o interesse de grande parte dos fiéis. Em um mundo do “salve-se quem puder”, nem mesmo ele foge ileso. Disse alguém que os paroquianos exigem que o pároco seja resistente como uma águia, delicado como um cisne, suave como uma pomba, simpático com um beija-flor, pontual como uma coruja… E sóbrio como um passarinho. Haja alguém para preencher todos esses requisitos!

Deixando de lado o cômico da questão, é preciso estar atento ao sofisma que a sociedade usa ao exigir que o seu líder religioso tenha todas as “qualidades” que dele espera, e somente as que espera. A mentalidade do útil e do agradável como direito de cada um tomou conta. Pensa-se ter direito para exigir o imediato em tudo. Até nas questões religiosas ou espirituais. O sacerdote deve estar à disposição do cristão a toda hora, resolver todos os conflitos na hora, sem exigir nada em troca. E, de preferência, não intervir nas questões particulares e familiares da vida. Envolver-se em questões sociais, nem pensar. Onde está o sofisma?

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Em muitos casos o sacerdote necessita convencer o fiel de que as leis de Igreja não são injustas, nem os seus líderes; pois cada vez mais se identifica o líder com o que se pensa das leis ou dos meios. Acha-se, concretamente, que a Igreja, e consequentemente o Papa, os bispos e os padres, são injustos quando ensinam que o Matrimônio cristão é indissolúvel. Dizem que se eles fossem mais humanos, saberiam do sofrimento que tantos casais passam porque o primeiro casamento não deu certo. Por que não ceder? Por que não ter misericórdia? Será que os sacerdotes, por não serem casados, não entendem o sofrimento de tantos que não conseguiram viver o seu casamento? Responder a estas interrogações, convencer os atingidos pelo sofrimento da separação que a Igreja e os seus ministros não são injustos, é uma tarefa dificílima. Contudo, a verdade há de permanecer. Não se pode fugir dela. Sem dúvida, as pessoas atingidas por essa terrível experiência precisam do acolhimento carinhoso do pastor. Necessitam ser ouvidas, antes de qualquer outra coisa. Nunca devem ser excluídas, como se não mais merecessem o nome de cristãos. Mas a verdade consiste em mostrar que a Igreja, pelo sacramento do Matrimônio, confiou plenamente neles. Ela os abençoou em nome de Cristo, não porque ela lhes queria impor um fardo, mas porque eles mesmos pediram essa bênção. Toda a Igreja, e por que não dizer, também o pároco, se alegrou quando o casal veio pedir a bênção para viver unido por toda a vida. Com o Matrimônio, Cristo, a Igreja e o pároco aprovaram o desejo dos cônjuges e confiaram a eles a missão de serem testemunhas do amor indissolúvel por toda a vida e por onde andassem. Caso os jovens não estivessem preparados para tal compromisso, essa é outra questão. Portanto, quem falhou, antes de tudo, foram os que assumiram o compromisso: não foram fiéis a Cristo, à Igreja e ao seu ministro. Também eles deveriam ter sido mais misericordiosos com quem tanto confiou neles.

Com toda certeza, com relação a este último caso, necessita-se de muita prudência, carinho e atenção, mas nem por isso a verdade deve desaparecer. A grande falta está nos despreparo da juventude diante dos desafios da vida. Os jovens são as maiores vítimas da sociedade de consumo que não respeita ninguém. Eles precisam urgentemente de modelos firmes nos quais podem se espelhar; necessitam de líderes que lhes mostrem os valores evangélicos, sempre antigos e sempre novos. Somente assim poderão descobrir o verdadeiro sentido da vida.

E o pároco hoje, diante dos desafios que parecem superar suas capacidades, não tem muita opção: ser um “outro Cristo”, testemunha da verdade, ou ser um líder fadado à derrota. Ele precisa se decidir todos os dias e se colocar ao serviço, sem medo e sem muitas pretensões.

Pe. Mário Fernando Glaab é Mestre em Teologia Dogmática, membro da SOTER, Pároco da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro em São Mateus do Sul/PR, Autor de várias obras, dentre elas: “Algumas considerações sobre os Sacramentos”, Editora Pão e Vinho, e “Pacto das Catacumbas – Algumas considerações no Jubileu do Concílio Vaticano II”.

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