A oferta nas celebrações eucarísticas e os dízimos

Tenho recebido alguns e-mails de presbíteros que acompanham assiduamente a Revista Paróquias. Eles perguntam sobre o momento correto de se fazer a entrega do Dízimo nas Celebrações Eucarísticas.

A oferta do dízimo deveria ser apresentada no momento da apresentação das oferendas?

Se tomarmos o texto do profeta Malaquias: “Pagai integralmente os dízimos ao tesouro do templo, para que haja alimento em minha casa” (Ml 3,10), vamos perceber que a pergunta acima é um desafio que precisa ser muito bem aprofundado. Em nenhum lugar das Sagradas Escrituras está escrito que se deva ofertar o Dízimo, mas, sim, trazê-lo para a Casa do Senhor. Todos os povos do mundo antigo se relacionaram com divindade mediante sacrifícios coletivos ou pessoais. Nessa mesma linha encontramos toda a tradição judaica. Nossa Senhora e São José, por serem pobres, ofereceram um casal de pombinhos, mas não foram de mãos vazias ao Templo. A nova aliança estabelecida por Cristo tem, na Sua própria pessoa, a vítima Santa e Imaculada agradável ao Pai.

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O católico, ao participar da celebração do sacrifício da cruz, não podendo derramar o seu próprio sangue, coloca diante do altar, o fruto do seu suor e do seu sangue, unindo assim seu sacrifício pessoal ao sacrifício de Cristo.

A oferenda da missa tem, também, um sentido e valor eminentemente sacrifical. Esta oferenda de cada pessoa que participa da Santa Missa, não deveria ser abolida, pois traria o risco de levar o fiel a uma expressão sensível e material de sua participação e comunhão no sacrifício de Cristo. A participação sensível ajudaria a compreender a outra participação invisível e sacramental no mesmo sacrifício de Cristo.

Confirma esse modo de pensar o texto da oração sobre as oferendas do 16º Domingo do Tempo Comum: “Ó Deus, que no sacrifício da cruz, único e perfeito, levastes à plenitude os sacrifícios da Antiga Aliança, santificai, como o de Abel, o nosso sacrifício, para que os dons que cada um trouxe em vossa honra possam servir para a salvação de todos”. Partilharei com o leitor uma experiência que fiz dentro desta perspectiva e que deu certo, sem desestruturar a Celebração Eucarística.

Os hebreus, como os primeiros cristãos, faziam ofertas dos produtos da terra como reconhecimento pela bondade de Deus e como forma de partilha com os pobres. “A oferta voluntária que fizeres será proporcional ao modo como o Senhor teu Deus te houver abençoado” (Dt 16,10). “Três vezes ao ano, todos os homens irão em peregrinação ao lugar que o Senhor teu Deus escolher: na festa dos Ázimos, na festa das Semanas e na festa das Cabanas. E não se apresentarão ao Senhor teu Deus de mãos vazias. Ofereça cada um o seu dom segundo a bênção que o Senhor teu Deus lhes tiver dado” (Dt 16,16-17). Quanto às ofertas de animais podemos intuir o lugar próprio dos sacrifícios que era anexo ao Templo. Em relação às ofertas em espécies podemos advogar a descrição de Marcos: “Chegando uma pobre viúva, lançou duas pequenas moedas, no valor de um quadrante” (Mc 12,42). Neste texto podemos lembrar do famoso gazofilácio – tesouro do templo – para acolher as ofertas votivas dos devotos à causa do Templo. O Dízimo e as ofertas eram depositados nesse recipiente ou entregue aos sacerdotes em função. Na comunidade primitiva aparece um detalhe significativo: o dinheiro era colocado aos pés dos apóstolos e depois, distribuídos a cada um segundo suas necessidades.

Com o decorrer dos séculos, mais precisamente no século VIII, é que as ofertas foram totalmente substituídas pelo dinheiro, não só por ser fácil e acessível, mas, sobretudo porque nem todas as pessoas possuíam terras cultivadas para colher os frutos e oferecê-los a Deus. Além do mais, o dinheiro tornou-se mais prático e, assim, substituiu as ofertas em espécies. É bom lembrar, que em algumas comunidades há uma volta da oferenda em espécies: em um determinado domingo do mês faz-se, ainda, a oferta do “quilo” que depois é distribuída pela pastoral social paroquial entre as famílias mais necessitadas da paróquia.

Nas celebrações da Eucaristia, somos convidados a oferecer, na hora da apresentação das oferendas, os nossos dons diante do altar do Senhor. Não devemos aparecer diante do Senhor de mãos vazias. Oferecemos o que trazemos em nosso íntimo e também fazemos a nossa oferta material. Juntamente com as ofertas do pão e vinho, oferecemos o que temos e somos; damos ao Senhor o que lhe pertence por direito e restituímos o que nos foi concedido gratuitamente por Deus como expressão de amor e gratidão. As ofertas que apresentamos serão destinadas para a realização de obras complementares ou para socorrer algumas necessidades da paróquia ou comunidade. A oferta depende da necessidade de quem solicita e da disponibilidade de quem oferece.

Cada paróquia ou comunidade poderá descobrir e optar pela forma mais adequada de se realizar a entrega da comunidade e a partilha de seu resultado.

Pelo Dízimo devolvemos a Deus, com fidelidade, uma parte de tudo aquilo que Ele próprio nos dá. É como se nós lhe disséssemos: “Senhor, aqui está uma amostra da sua bondade na minha vida e na vida da minha família; aqui está o sinal do seu grande amor para comigo”. É tão bom agradecer! A gratidão é profundamente libertadora. E o Dízimo quando brota de um coração generoso, sem obrigações, coração que oferece pelo simples prazer de amar, é um gesto de amor para com a Igreja que amamos e que poderá dispor dos meios necessários para se manter e desenvolver suas atividades.

Entendido assim, o Dízimo poderá ser entregue em lugar singelo e discreto em outro momento, por exemplo, logo no inicio da celebração. A experiência que fiz e, que deu certo, foi possibilitar a entrega dos dízimos após a saudação inicial e antes do ato penitencial. O sacerdote faz uma pequena moção e, em seguida, com um canto, os dizimistas apresentam o Dízimo no altar do Senhor. Depois, o momento da apresentação das oferendas, é feita a coleta como de costume.

Entendo que o Dízimo é uma oferta alegre e graciosa da comunidade para a comunidade, devolvendo a Deus o que lhe pertence. O Dízimo não traz em si a marca de renúncia ou de sacrifício. Ele é devolução singela a Deus de parte dos bens Dele recebidos.

A oferta sacrifical, na celebração da Eucaristia, é um gesto de participação do fiel no mistério da paixão, morte e ressurreição de Cristo, com a marca característica da renúncia, do suor e do sangue que foi gasto no trabalho, ainda que sem derramamento.

Dom Edson Oriolo é Bispo Auxiliar na Arquidiocese de Belo Horizonte/MG, Mestre em Filosofia Social, Especialista em Marketing, Pós-Graduado em Gestão Estratégica de Pessoas, Professor, “Leader and Professional Coach” pela Act Coaching Internacional e membro do Conselho de Conteúdo da Revista Paróquias. Autor do livro “A nova pastoral do dízimo: formação, implantação e missão na Igreja”, publicado pela Catholicus Editora e “Paróquia Renovada: sinal de esperança”, Paulus Editora.

Fonte: Revista Paróquias, ed. 11. Para ler mais matérias sobre dízimo e oferta, assine já: (12) 3311-0665,  (12) 99660-1989 ou [email protected]

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