Os dilemas que compõem os relacionamentos humanos se reinventam no virtual

 

No mês de setembro, em visita à cidade de José Bonifácio SP, surpreendeu-me a atitude de um garoto, que minutos antes do inicio da celebração eucarística, ignorando que eu era um visitante, me solicitou a senha do wifi da Igreja. Achei inusitada a pergunta e questionei o porquê. A resposta foi imediata: “Para acessar o Whatsapp”. Recentemente, aqui na catedral a cena se repetiu. Um jovem perguntou-me a mesma coisa.

Em outra ocasião recente, em visita a minha família, ouvindo a conversa de dois sobrinhos (um de 5 anos e outra de 6 anos) fiquei surpreendido pelo nível do debate. Conversavam sobre senhas. Minha sobrinha defendia que sua senha era virtual e, portanto muito segura, ao passo que seu primo garantia que as senhas de ipad são também de difícil acesso e muito confiáveis.

Essas motivações, que inicialmente me pareceram inusitadas, levam-me a constatar que de fato vivemos uma nova época, para a qual nos percebemos neófitos e que podemos chamar era virtual. Os protagonistas da virtualidade somos todos nós, mas sem duvida as crianças e jovens sofrem o maior influxo da rápida mudança dos conceitos de relacionamento e convivência.

Já Pierre Levy, estudioso do assunto ainda que em contexto diverso, defendia que a palavra “virtual” é empregada com frequência para significar a pura e simples ausência de existência. Ou ainda como oposição da realidade da efetuação material, da presença tangível. Em outras palavras o real seria da ordem do “tenho”, enquanto o virtual seria da ordem do “terás”, ou da ilusão.

O fato de que vivemos a época da virtualidade sem medida em contraste com a oportuna reflexão do filósofo nos leva a questionar pela maneira mais adequada de abordar, inclusive no plano pastoral, desafios como esse. Creio que da parte dos líderes e formadores de opinião, deve haver uma postura otimista com relação ao virtual, que viabilize o seu  verdadeiro sentido para a convivência.

É evidente que há o risco do virtual subverter a ordem das relações, tornando-as ilusão e mesmo alienação, mas não creio que essas realidades sejam necessariamente sinônimas. Penso que o virtual seja uma resposta para um novo estilo de vida, marcadamente urbano, em que as relações se dinamizam na mesma medida em que demanda do rápido e imediato se impõe. Não se trata de uma opção, mas de uma realidade inquestionável e muito próxima de todos que vivem o novo estilo de vida.

Pastoralmente, as consequências do relacionamento virtual também se fazem perceber e se apresentam desafiantes. Para além dos adolescentes e jovens preocupados com a senha do wifi durante as celebrações eucarísticas, resta a grave questão: Como evangelizar esse “novo areópago”, fazendo uma síntese entre as suas contribuições e a mensagem do evangelho?

Na Paróquia da Catedral, os ministros extraordinários da comunhão eucarística criaram um grupo no Whatsapp, por onde se comunicam e resolvem questões mais urgentes, com grande facilidade e proveito para todos. Sabemos que a tendência é que iniciativas como essa se multipliquem. Como abordá-las e delas extrair o melhor resultado para a missão evangelizadora?

Penso, por exemplo, nos aplicativos de celular que viabilizam relacionamentos rápidos, com diálogos instantâneos, bem como contatos interpessoais, ligações afetivas, profissionais e lúdicas. É o caso do Whatsapp (aplicativo) que deriva de uma palavra em inglês, muito usada como gíria e que substituiu o “Hi” ou “Olá”, como forma mais popular de saudação casual.

Trata-se de mensagens instantâneas para smartphones. Não apenas mensagens de texto, mas de diversas mídias como imagens, vídeos e mensagens de áudio. Este aplicativo impõe um novo jeito de interagir entre as pessoas: agora, boa parte da população prefere escrever em vez de falar. Além disso, pesa o fato de que o uso de aplicativos de mensagens é mais barato, rápido e acessível, pois você pode se comunicar o tempo todo sem grande custo ou sofisticação.

Os dilemas que compõem os relacionamentos humanos se reinventam no virtual. Para algumas pessoas, isso pode causar ansiedade e, em certos casos, desconfiança e duvidas. “Por que não responde?”, “O que ele(a) estará fazendo?” são questões comuns no universo relacional do Whatsapp. A questão complica-se ainda mais quando tratamos do quesito privacidade.

O psicólogo Pablo Viudes explica que “a pessoa precisa saber administrar sua conectividade. Do contrário, o Whatsapp pode vulnerar a privacidade. A disponibilidade das pessoas é a base da sua autoafirmação. Se você não pode responder, simplesmente não pode”. Trata-se de transportar para esse universo relacional os valores da autonomia, e dos limites que a liberdade impõe.

O Papa Francisco, fala constantemente no ideal de uma “cultura do encontro”, que desperte nas pessoas a dimensão da abertura do coração, da quebra do egoísmo e do cuidado. Assim, creio que o problema seria o uso desses canais de comunicação de forma exclusiva. Por outro lado, como fruto da evolução tecnológica, tais ferramentas devem ser um instrumento que conduza para as verdadeiras relações humanas, baseadas no encontro.

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Côn. Edson Oriolo é Mestre em Filosofia Social, Especialista em Marketing, Pós-Graduado em Gestão Estratégica de Pessoas, Cura da Catedral Metropolitana de Pouso Alegre/MG, Membro do Conselho de Conteúdo da Revista Paróquias & Casas Religiosas.

Contato: [email protected]

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