Partilha e dízimo

Recordando os 12 anos de trabalho pastoral nos meios de comunicação por meio da Revista Paróquias aprecio o leitor com o artigo sobre o tema das ofertas. 

Estou pensando propor o tema das ofertas (coletas); o que elas significam para a comunidade; uma forma de captação de recursos e, especialmente, na sua dimensão de espiritualidade litúrgica, trago ao leitor essa reflexão. Então vamos ao tema.

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COLETA OU OFERTA

A coleta ou oferta é um tema que perpassa o Antigo Testamento e atinge de feitio pleno, a comunidade cristã do Novo Testamento. De forma singular as coletas têm a intenção de atingir duas dimensões: material (em geral relacionada às obras e manutenção do Templo) e caritativa (os pobres). No Antigo Testamento há uma relação entre oferta e sacrifício (cf. os livros do Êxodo e Levítico) como dois gestos que caminham juntos (cf. Lv 14 e 16; Ex 19; Nm 15; Ez 45).

Em geral, as ofertas trazidas perante Deus deveriam custar algo àquele que a trazia. A oferta, em si, não era o mais importante, mas a mudança que acontecia no coração das pessoas. Oferta sem mudança de coração não valia de nada como alertavam alguns profetas (cf. Is 1,10-20; Am 5,20-22). Certamente isso nos auxilia a compreender o que Jesus ensinou sobre as ofertas como uma boa medida, calcada, sacudida, transbordante e generosamente suculenta (cf. Lc 6,38).

As ofertas, na compreensão do Novo Testamento, atingem de cheio o aspecto litúrgico e assim ficou paginado pela tradição da Igreja. Nesses vinte séculos, as ofertas ficaram inalteradas salvo alguns exageros em momentos diversos da história da Igreja (p. ex. Idade Média).

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Na tradição da Igreja a proposta inicial é a de Jesus, mas a recomendação básica é a de Paulo à comunidade de Corinto (podemos considerar, também, a Didaque): “Agora vou tratar do dinheiro para ajudar o povo de Deus da Judéia. Façam o que eu disse às igrejas da província da Galácia. Todos os domingos cada um de vocês separe e guarde algum dinheiro, de acordo com o que cada um ganhou. Assim não haverá necessidade de recolher ofertas quando eu chegar. Depois que chegar, eu enviarei, com cartas de apresentação, aqueles que vocês escolherem para levarem a oferta até Jerusalém. Se for conveniente que eu também vá, eles farão a viagem comigo” (1Cor 16,1-4).

A coleta é um sinal de solidariedade na comunidade cristã e entre as Igrejas, em geral, como é o caso da Campanha da Fraternidade e outras. A comunhão é de fundamental importância entre aqueles que têm e para aqueles que recebem os benefícios em função do vínculo fraternal. O apóstolo Paulo tem vários textos e pensamentos sobre essa realidade fraterna (cf. 2Cor 8-9; Rm 15,26-28; Gl 2,10).

Se o “fraternal” não for a maior motivação na comunidade de nada servem as ofertas e outras realidades sacramentais e etc. Somos frutos de vários fatores e de várias motivações. Dentre as tantas vamos indicar três delas.

1. APRENDER A PARTILHAR

A partilha deve ser uma descoberta de valor na vida cristã. O cristão precisa ter paixão pela fé e acreditar como ninguém naquilo que faz.

Ninguém nasce sabendo partilhar. Aprendemos vendo e experimentando. Esse é um caminho de aprendizagem. Só oferta quem aprende a gostar de partilhar. Caso contrário dá-se aquelas moedas que sobram e é isso que vemos na maioria das vezes. Ninguém ensinou que devemos aprender a gostar de ajudar, colaborar, partilhar, doar e etc.

Essas atitudes são difíceis, pois exigem certa virtude humana. Somos mais para os vícios que para a virtude. Quem não é inteiro na fé não divide com o outro aquilo que possui. Mário Quintana dizia: “As pessoas não se precisam, elas se completam… não por serem metades, mas por serem inteiras, dispostas a dividir objetivos comuns, alegrias e vida”. Assim são todos os gestos de amor. Amor não se divide; se completa.

2. OFERTA E FÉ

A fé coloca Abel e Caim na mesma trilha com detalhes diferentes. Os dois foram ofertantes, mas Abel excedeu em generosidade ao passo que Caim se retraiu às ofertas. A oportunidade foi a mesma, mas a elação foi tão diferente que não há como comparar tal proporção.

A fé é uma luz que esclarece o gesto de ofertar. Na maioria das vezes as pessoas vão às ofertas sem um mínimo de motivação. Não sabem para que estejam fazendo isso e aquilo. Acabam doando coisas irrisórias por não ver sentido no gesto de ofertar.

A fé alinha o gesto da oferenda. Sem ela a oferta fica vazia e sem aquela liga que faz unir a massa toda como o fermento na farinha. Um pouco de fermento (de fé) leveda muita massa! O resultado? Um belo pão.

3. MOTIVAR A COMUNHÃO

A oferta deve ser fruto da comunhão entre os membros da comunidade. Não sem razão que a Eucaristia é chamada de comum-união e não se a recebe sem esta compreensão. “Só a caridade gera a comunhão”, dizia santo Agostinho.

A motivação para a comunhão (oferta) não tem começo e nem fim. Há uma simbiose espiritual entre fiel e comunidade. A oferta não é somente de dinheiro, mas de vida como princípio e, depois, vem a questão econômica. Esta precede aquela de forma melhorada e plena.

O que unia a comunidade primitiva da Igreja era a comunhão entre os membros (cf. At 2,41-47). Essa comunhão não era, apenas, de espírito, mas de poupança, de materialidade para sustentar a sua cotidianidade tão diversa entre eles.

Quem se coloca na escola da partilha (da oferta) tem uma vida diferente dos demais. Como nos motiva Paulo: “Habite ricamente em vocês a palavra de Cristo; ensinem e aconselhem-se uns aos outros com toda a sabedoria e cantem salmos, hinos e cânticos espirituais com gratidão a Deus em seu coração” (Cl 3,16). E Paulo continua: “Dediquem-se uns aos outros com amor fraternal.

Prefiram dar honra aos outros mais do que a vocês” (Rm 12,10).

Que aprendamos a ofertar. A oferta feita com generosidade mede o tamanho de nossa fé! A oferta pode ser uma bússola onde nos orientamos. Ao menos, uma vez por mês, façamos a nossa oferta e que a generosidade seja diária. Posso até não ser um bom dizimista, mas, jamais um mau ofertante. Esse é o valor pleno da fé que acompanha as obras (cf. Tg 2,14).

Pe. Jerônimo Gasques é Escritor, Especialista em Formação para Pastoral do Dízimo e Pároco na Paróquia São José, Presidente Prudente/SP. Autor de várias obras nas seguintes áreas: Dízimo, Juventude e Acolhimento, dentre elas: “Dízimo e captação de recursos”, “Devocionário do Terço dos Homens”, Edições Loyola.

Fonte: Revista Paróquias, ed. 20. Para ler mais matérias sobre dízimo e partilha, assine já: (12) 3311-0665,  (12) 99660-1989 ou [email protected]

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