A Igreja Católica foi a instituição que mais direcionou culturalmente os rumos civilizacionais do Ocidente. Ela desde o IV século foi quem conduziu as opções dos outros, depois que o catolicismo se tornou a religião oficial do Estado, com Teodósio. Depois da Reforma Protestante, no século XVI, houve a ruptura religiosa, acompanhada pelos interesses econômicos e depois políticos, com o surgimento do Estado Moderno.

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O Iluminismo radicalizou a autonomia, endeusando a razão, com a supremacia do sujeito, como medidas de todas as coisas. Com a Revolução Industrial, no século XIX, o que fora unificado pela Igreja, desde o século IV até o XVI, foi definitivamente subdividido por novas formas de poder, a saber: outra possibilidade de ligação com o sagrado, a força da política, a autonomia da razão e o poder da técnica. Com isso, a Igreja já não podia fazer mais opções pelos outros, e, pouco a pouco, vai tomando consciência que deve fazer as suas opções.

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Um passo decisivo para a sua nova forma de se relacionar e estar no Mundo, percebendo de fato os sinais dos tempos, será o Concílio do Vaticano II. A preocupação principal é aggiornamento, ou seja, atualização, diálogo, adaptação, inserção na vida e na história das pessoas e da Sociedade como um todo, nas variadas expressões culturais. Essa mesma Igreja, que é o Povo de Deus e Luz do Mundo, precisa assumir as dores e alegrias dos seus discípulos ou não discípulos. É uma pretensão que em nada fere a sua identidade cristológica, pois ela deve reluzir a única Luz, que é o próprio Jesus Cristo. Ele é o sentido e a resposta para os questionamentos mais profundos da existência humana. Ele é a revelação de Deus, que é amor.

O que precisa ser dito de imediato é que essa hermenêutica integral dos ensinamentos conciliares deve ser feita tendo em vista o conjunto da obra conciliar. A Igreja não quer, nem pode mais, fazer opções pelos outros, mas ela, também livremente, precisa fazer as suas opções, tendo em vista a precípua missão, que é de evangelizar. A questão da Liberdade Religiosa não é só de ato cúltico, mas é da pessoa que tem a sua dignidade. A Igreja também é sujeito dessa possibilidade de escolha e protagonismo históricos.

Ela refaz suas opções. Como nos diz o Grande Papa Francisco, assume uma forma piramidal ao contrário. Com isto, tem mais possibilidades de contemplar e ver o que ainda não tinha enxergado. Agora não é um “grupo seleto” que é chamado a ver e anunciar, mas todos têm essa missão e responsabilidade. Ela pode sentir mais o humano, a cultura, a família, o pobre, a economia, a justiça e, quiçá, o mais importante, ela pode perceber a si mesma, não com autorreferencialidade, mas com capacidade de autocrítica e desejo de conversão. Pois sabe que é uma realidade peregrina.

Nela há uma dimensão escatológica, pois o seu único e verdadeiro Centro é o princípio e o fim, o alfa e o ômega de todas as coisas. Não é o Papa, nem os Bispos, nem Padres… Mas o próprio Jesus Cristo. Ela precisa refazer a sua opção fundamental por Ele, e, Nele, por tudo aquilo que era projeto do Reino de Deus, que Ele veio anunciar. Essa Igreja, que somos nós, só conseguirá fazer esta Opção Fundamental quando tiver os mesmos sentimentos de Jesus Cristo (Fl 2,5).

O Papa Francisco, em uma entrevista que concedeu ao jornal espanhol, El Pais, mencionou que a única revolução que deseja para a Igreja é aquela provocada pelo Evangelho. A opção da Igreja é pelo Evangelho. Os filhos da Igreja devem ter muita clareza desta orientação existencial da vida cristã. O Evangelho não é uma ideologia. É a pessoa de Jesus Cristo. O Pontífice ainda invoca a importância dos santos. Eles compreenderam bem o que significa o Evangelho. A partir desta escolha fundamental, teremos a força para entender tudo o mais e vivermos verdadeiramente como cristãos, e não como pagãos.

Na Igreja há muita gente que é muita coisa, menos cristã. Estas estão tendo muita dificuldade de entender e acolher o que o Papa deseja para a Igreja, neste momento oportuno da história, assim como os outros Papas também o desejavam, com outros estilos e paradigmas; contudo, sempre com a mesma intenção.

Enfim, um discernimento cristão que estamos sendo provocados a ter: Quais são as nossas escolhas? Onde está o nosso coração? É em Deus, no seu Evangelho, no seu Reino?… Onde está? Para nós, a Igreja é um lugar de serviço, missão, testemunho; ou, poder, dinheiro, carreirismo, mundanismo espiritual…? Somos facilitares do anúncio da Boa Nova, que liberta, salva, conforta e nos leva à plenitude da vida? A Igreja só será realmente, Sacramento de Salvação, quando nós, os seus Filhos, fizermos a Opção Fundamental pela conversão e a fé no Evangelho. Assim o seja!

Pe. Matias Soares cursando mestrado em Teologia Moral na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, pertence à Arquidiocese de Natal.

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