A palavra misericórdia ainda guarda traços claros de sua etimologia linguística. A misericórdia emana do homem cujo coração reage diante da miséria do irmão. Por um antropomorfismo, transfere-se este atributo a Deus, remetendo à sua benevolência compreensiva, sempre pronta a perdoar. O Novo Testamento transfere para Jesus os traços da misericórdia divina, embora Deus continue sendo sua fonte. Citando o profeta Os 6,6, Jesus dirige-se aos fariseus dizendo: “Ide e aprendei o que significa: misericórdia é que eu quero, e não sacrifício” ( Mt 9,13).

O Deus de Jesus Cristo e dos cristãos é o Deus das misericórdias. Dessa maneira o ser humano volta-se a Ele quando abatido. Este Deus tornou-se próximo a nós, encarnando-se em Jesus Cristo. Quer misericórdia e não sacrifícios. Ele tornou-se um Deus conosco e para nós, revela-se como um pai de ternura para seus filhos como nô-lo ensina a parábola do filho pródigo, que também se pode chamar de parábola do pai misericordioso (Lc 15,11-32). Nessa parábola,Jesus mostra-nos o Pai à espera de seu filho perdido e, vendo-o de longe a voltar, move-se de compaixão e vai ao seu encontro, acolhendo-o com festa.

Paulo chama Deus de Pai das misericórdias (2Cor 1,3). Diante dele todos nós devemos reconhecer-nos pecadores. Mas a misericórdia divina é muito maior que nossos pecados. S. João ensina-nos que o amor de Deus permanece naqueles que praticam a misericórdia (1Jo 3,17). No mesmo sentido podemos interpretar a parábola do bom samaritano ( Lc 10,29-37). No juízo final seremos julgados de acordo com a misericórdia que praticamos ou deixamos de praticar (Mt 25,31-46). A misericórdia de Deus estende-se a todos: “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Em síntese, o rigorismo moral não tem apoio na revelação de Jesus, pois o Filho do Homem veio salvar o que estava perdido ( Mt 18,11).

A Igreja dos primeiros séculos resumiu os dados da Sagrada Escritura na breve fórmula litúrgica do Kyrie eleison no ato penitencial, no início da santa missa. Esta fórmula primeiro aparece nas liturgias de língua grega e, depois do século IV, tambémna liturgia romana, chamando a atenção dos fiéis para a misericórdia divina. Os monges cedo deram toda a atenção ao exercício da misericórdia como ideal de vida. Assim, para os monges do antigo Egito, ela é “a virtude além das virtudes”. Num escrito com o título de Apotegmas, um monge pergunta a um ancião: “Se eu vir uma falta de um irmão, faço bem em ocultá-la?” O ancião responde-lhe: “No momento em que ocultamos as faltas de nosso irmão, Deus também oculta as nossas; e no momento em que manifestamos as faltas de nosso irmão, Deus também manifesta as nossas” (Apotegmas IX, 2e 9).

Os padres da Igreja não se cansaram de repetir que “Deus se fez homem para que nós homens nos tornemos divinos”, ensinando que o ser humano deve exercer a misericórdia, acolhendo os que sofrem, discernindo o pecado do pecador. O caminho que conduz a humanidade ao perdão é lento, como nos mostra a pergunta do apóstolo Pedro a Jesus: “Mestre, quantas vezes devemos perdoar? Sete vezes?” Jesus responde: “Setenta e sete vezes sete!” Desse modo Jesus situa a misericórdia no centro da conversão cristã. S. Paulo exorta os batizados: “Portanto, como eleitos de Deus, santos e amados, revesti-vos de sentimentos de compaixão, de bondade, humildade, mansidão, suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos mutuamente (…). Como o Senhor vos perdoou, assim também fazei-o vós” (Col3,12-13).

Em Jesus Cristo a misericórdia de Deus estende-se de geração em geração a todos aqueles que o temem ( Lc 1,50). Ao Maria visitar sua prima Isabel, Deus lembra de sua misericórdia conforme prometera. Em Maria ela estabelece morada. Em Jesus, Deus devolve ao ser humano a dignidade perdida. Deus é, para nós, amor misericordioso. Sua misericórdia é a única realidade capaz de recapitular e iluminar todas as dimensões do mistério cristão. Se Deus é misericordioso para conosco, seus filhos, também nós devemos ser misericordiosos com nosso semelhante, nosso irmão. No sermão da montanha Jesus diz: “Bem aventurados os misericordiosos porque eles alcançarão misericórdia” ( Mt 5,7).

A misericórdia, na convivência humana, encontra sua motivação na justiça de Deus. Na tradição católica chamamos de “obras da misericórdia” as ações que visam a ajuda ao próximo, aliviando seus males ou suas carências, tanto as do corpo como as da alma. Falamos, então, das sete obras corporais e das sete espirituais. As primeiras são: dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, vestir os nus, dar pousada aos peregrinos, assistir aos enfermos, visitar os presos e enterrar os mortos. As espirituais são: dar bom conselho, ensinar os ignorantes, corrigir os que erram, consolar os aflitos, perdoar as injúrias, sofrer com paciência as fraquezas do próximo, rogar a Deus por vivos e mortos. Sem obras até nosso culto torna-se mera alienação.

Urbano Zillles possui graduação em Teologia Bacharelado pela Theologische Hochschule Beuron, graduação em Filosofia, doutorado em Teologia pela University of Münster(1969). Atualmente é professor titular da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

Compartilhe:

Faça um comentário