Com a data de 15 de agosto de 2011 e assinada pelos respectivos Prefeito e Secretário, o Cardeal Mauro Piacenza e D. Celso Iruzubieta, a Congregação para o Clero enviou aos Reitores de Santuários de todo o mundo uma Carta. Em nosso país, algumas dioceses criaram, segundo as normativas para isso, previstas pelo Código de Direito Canônico, os seus santuários e que, certamente por isso, receberam essa Carta que ajudará os reitores no desempenho do seu múnus fazendo com que o santuário seja: “um lugar privilegiado, no qual o homem, peregrino nesta terra, faz a experiência da presença amorosa e salvífica de Deus”. Após as saudações protocolares iniciais, afirma o texto:

 “faço”-me antes de tudo intérprete dos sentimentos do Santo Padre Bento XVI, que considera a presença dos Santuários como algo de grande importância, sendo preciosos para a vida da Igreja, porque, enquanto meta de peregrinação, são, sobretudo, lugares “de atração, que congregam um crescente número de peregrinos e turistas religiosos, alguns dos quais se encontram em situações humanas e espirituais complexas, um tanto distantes da vivência da fé e com uma débil pertença eclesial”… Nesse, encontra um espaço fecundo, distante dos afãs quotidianos, onde possa recolher-se e reabastecer-se de vigor espiritual para retomar o caminho de fé com maior ardor, e procurar, encontrar e amar Cristo na vida ordinária, no meio do mundo.

Qual é o coração das atividades pastorais em um Santuário? A normativa canônica a respeito destes lugares de culto, com profunda sabedoria teológica e experiência eclesial, prevê que, nesses, «ofereçam-se aos fiéis meios de salvação mais abundantes, anunciando com diligência a palavra de Deus, incentivando adequadamente a vida litúrgica, principalmente com a Eucaristia e a celebração da penitência, e cultivando as formas aprovadas de piedade popular» (cân. 1234, § 1). A norma canônica, traçando, então, uma preciosa síntese da pastoral específica dos Santuários, fornece um interessante ensejo para refletir brevemente acerca de alguns elementos fundamentais que caracterizam o ofício que a Igreja vos confiou.

 

ANÚNCIO DA PALAVRA, ORAÇÃO E PIEDADE POPULAR

 

O santuário é um lugar no qual a Palavra de Deus ressoa com singular potência.

O anúncio da Palavra assume uma importância essencial na vida pastoral do Santuário. Os ministros sagrados têm, portanto, a incumbência de preparar tal anúncio, na oração e na meditação, filtrando o conteúdo do anúncio com o auxílio da Teologia espiritual, na escola do Magistério e dos Santos. As fontes principais de sua pregação serão a Sagrada Escritura e a Liturgia (Sacrosanctum Concilium, 04.12.1963, n. 35), às quais se unem o precioso Catecismo da Igreja Católica (CCE) e o seu Compêndio. O ministério da Palavra, exercido de diversas formas e de acordo com o depósito revelação, será tanto mais eficaz e incisivo quanto mais nascer do coração, na oração, e for expresso mediante uma linguagem acessível e bela, que saiba mostrar corretamente a perene atualidade do Verbo eterno… “Os santuários são, para os peregrinos à procura das suas fontes vivas, lugares excepcionais para viver “em Igreja” as formas da oração cristã” (CCE n. 2691)… “a piedade popular encontrará nas palavras da Bíblia uma fonte inesgotável de inspiração, modelos insuperáveis de oração e fecundas propostas de diversos temas” (Verbum Domini, n. 65).

O Diretório sobre a piedade popular e a liturgia dedica um capítulo aos Santuários e às peregrinações, aspirando “uma correta relação entra as ações litúrgicas e os exercícios de piedade” (n. 261). A piedade popular é de grande importância para a fé, a cultura e a identidade cristã de muitos povos. Essa é expressão da fé de um povo, «verdadeiro tesouro do povo de Deus” (ibidem, n. 9), na Igreja e para a Igreja: para compreender bem esta ideia, basta imaginar a pobreza que seria para a história da espiritualidade cristã do Ocidente a ausência do “Rosário” ou da “Via Sacra”, bem como das procissões…

 

MISERICÓRDIA DE DEUS NO SACRAMENTO DA PENITÊNCIA

 

A memória do amor de Deus, que se faz presente de modo eminente no santuário, conduz ao pedido de perdão pelos pecados e ao desejo de implorar o dom da fidelidade ao depósito da fé. O Santuário é, igualmente, um lugar da permanente atualização da misericórdia de Deus. É um lugar hospitaleiro no qual o homem pode ter um encontro real com Cristo, experimentando a Verdade do seu ensinamento e do seu perdão para aproximar-se dignamente e, portanto, frutuosamente, da Eucaristia. Para tal finalidade, convém favorecer e, onde for possível, intensificar a presença constante de sacerdotes que, com ânimo humilde e acolhedor, dediquem-se generosamente à escuta das confissões sacramentais… ajudem os penitentes a experimentarem a ternura de Deus, a perceberem a beleza e a grandeza de Sua bondade e a redescobrirem nos próprios corações o desejo último da santidade, vocação universal e meta última para cada fiel…    Os ministros da Penitência sejam disponíveis e acessíveis, cultivando uma atitude compreensiva, acolhedora e encorajadora. Para respeitar a liberdade de cada fiel e também para favorecer a plena sinceridade pessoal em foro sacramental, é oportuno que estejam disponíveis, em locais apropriados (por exemplo, possivelmente, numa Capela da Reconciliação), alguns confessionários providos de grade fixa..Considerando-se o fato de que os Santuários são locais de verdadeira conversão, pode ser oportuno que se reforce a formação dos confessores para a atenção pastoral daqueles que não respeitaram a vida humana desde a concepção até o seu término natural. Os sacerdotes, além disso, ao dispensarem a misericórdia divina, cumpram devidamente este peculiar ministério aderindo fielmente ao genuíno ensinamento da Igreja…

 

A EUCARISTIA, FONTE E CUME DA VIDA CRISTÃ
A Palavra de Deus e a celebração da Penitência estão intimamente unidas à Santa Eucaristia, mistério central no qual “está contido todo o tesouro espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo, a nossa Páscoa” (Presbyterorum Ordinis, 07.12.1965, n. 5).

  

A CELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA CONSTITUI O CORAÇÃO DA VIDA SACRAMENTAL DO SANTUÁRIO

 

Os peregrinos que visitam os santuários sejam, então, conscientizados de que, se acolherem confiantemente o Cristo eucarístico no próprio íntimo, Ele oferece-lhes a possibilidade de uma real transformação da existência. A dignidade da celebração Eucarística seja também posta em evidência mediante o canto gregoriano, polifônico ou popular (cf. SC, nn. 116 e 118); mas também selecionando adequadamente, tanto os instrumentos musicais mais nobres (órgão de tubos e afins – cf. ibidem, n. 120), como as vestes que são usadas pelos ministros, juntamente com as alfaias utilizadas na Liturgia. Estas devem corresponder aos cânones de nobreza e sacralidade. No caso das concelebrações, cuide-se de que haja um Mestre de cerimónias, que não concelebre, e faça-se o possível para que cada concelebrante use a
casula ou a planeta, como paramento próprio do sacerdote que celebra os divinos mistérios.
O Santo Padre Bento XVI escrevera, na Exortação Apostólica pós-sinodal Sacramentum Caritatis (22.02.2007) que «a melhor catequese sobre a Eucaristia é a própria Eucaristia bem celebrada» (n. 64). Na Santa Missa, então, os ministros repitam fielmente o que foi estabelecido pelas normas dos Livros litúrgicos. As rubricas, de fato, não representam indicações facultativas para o celebrante, são, antes, prescrições obrigatórias que ele deve observar cuidadosamente e com fidelidade em cada gesto ou sinal.

Em cada norma, de fato, subjaz um sentido teológico profundo, que não pode ser diminuído ou de qualquer modo ignorado. Um estilo celebrativo que introduza inovações litúrgicas arbitrárias, além de gerar confusão e divisão entre os fiéis, lesiona a veneranda Tradição e a própria autoridade da Igreja, além de ferir a unidade eclesial… O Sacrário, custódia eucarística, ocupe um lugar proeminente nos Santuários, assim como também, ao recordar a relação entre arte, fé e celebração, faça-se atenção à «coerência entre os elementos próprios do presbitério: altar, crucifixo, sacrário, ambão, cadeira» (ibidem, n. 41). A reta colocação dos sinais eloquentes de nossa fé, na arquitetura dos locais de culto, favorece indubitavelmente, de modo particular nos santuários, a justa prioridade de Cristo, pedra viva, antes da saudação à Virgem ou aos Santos justamente venerados naquele lugar, dando, deste modo, uma ocasião a que a piedade popular possa manifestar as suas raízes verdadeiramente eucarísticas e cristãs.

 

UM NOVO DINAMISMO PARA A EVANGELIZAÇÃO
Enfim, apraz-me notar que os Santuários conservam ainda hoje um extraordinário fascínio, testemunhado pelo número crescente de peregrinos que a eles se dirigem…

Sendo assim, a Igreja, sob a orientação da Virgem Maria, Estrela da nova evangelização, mediante a qual a própria Graça se comunica à humanidade necessitada de redenção, se prepara, em todas as partes do mundo, para a vinda do Salvador. Os Santuários, lugares aos quais se vai para buscar, para ouvir, para rezar, se tornarão misteriosamente os lugares nos quais o homem poderá ser tocado por Deus por meio da Sua Palavra, do sacramento da Reconciliação, da Eucaristia, da intercessão da Mãe de Deus e dos Santos…

Os Santuários, além disso, na fidelidade à sua gloriosa tradição, não esqueçam de estarem comprometidos com as obras de caridade e com o serviço assistencial, na promoção humana, na salvaguarda dos direitos da pessoa, no empenho pela justiça, segundo a doutrina social da Igreja. Em torno destes, é conveniente que floresçam também iniciativas culturais, tais como congressos, seminários, exposições, festivais, concursos e eventos artísticos sobre temas religiosos. Deste modo, os Santuários se tornarão também promotores de cultura, tanto erudita como popular, contribuindo, por sua parte, com o projeto cultural orientado em sentido cristão pela Igreja.
Sendo assim, a Igreja, sob a orientação da Virgem Maria, Estrela da nova evangelização, mediante a qual a própria Graça se comunica à humanidade necessitada de redenção, se prepara, em todas as partes do mundo, para a vinda do Salvador.

Os Santuários, lugares aos quais se vai para buscar, para ouvir, para rezar, se tornarão misteriosamente os lugares nos quais o homem poderá ser tocado por Deus por meio de  da Sua Palavra, do sacramento da Reconciliação, da Eucaristia, da intercessão da Mãe de Deus e dos Santos. Somente deste modo, entre as ondas e as tempestades da história, desafiando o pertinaz sentido do relativismo imperante, estes serão fautores de um renovado dinamismo, em vista da tão desejada nova evangelização. Agradecendo ainda a cada Reitor pela dedicação e caridade pastoral, afim de que cada Santuário seja sempre mais sinal da amorosa presença do Verbo Encarnado, assegurando-vos a mais cordial proximidade no Senhor, sob o olhar da Bem-aventurada Virgem Maria.

 

Tradução: D. Hugo da Silva Cavalcante, OSB

© Copyright 2011 Libreria Editrice Vaticana

 

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