Servidores da Reconciliação

O Papa Francisco falou ao Clero de Roma, sua Diocese (07/03/2019). Tendo em vista o contexto, é recomendável a leitura da sua catequese e ensinamento pastoral. Ele coloca a espiritualidade quaresmal como meio importante para a continuidade da vocação sacerdotal de ser via de reconciliação entre Deus e a humanidade.

Segundo o Papa, “Deus sopra seu Espírito para restaurar a beleza de Sua Esposa, mas o arrependimento é fundamental, ou melhor, é o início da nossa santidade. Por isso, pediu aos sacerdotes de Roma para não terem medo de dedicar suas vidas ao serviço da reconciliação entre Deus e os homens, embora a vida de um sacerdote possa ser muitas vezes marcada por mal-entendidos, sofrimentos e às vezes perseguições e pecados”. O que é dito aos demais membros do povo de Deus, no dia da celebração da Quarta Feira de Cinzas, é necessário que seja internalizado por todos os sacerdotes nestes tempos de desolação, mas também de favorecimento para que a misericórdia do Senhor seja experimentada por cada um de nós, ou seja: Convertei-vos e crede no Evangelho!

A Santa Sé divulgou o Anuário Pontifício 2019 e o Annnuarium statisticum ecclesiae: índices positivos de crescimento para os católicos em 2017 em relação ao ano anterior. Sacerdotes e candidatos ao sacerdócio diminuem. Em aumento bispos, diáconos, missionários leigos e catequistas. Esses dados são importantes, não só para saber quantos sacerdotes estão atuando no mundo; mas também para perceber quantos estão doando a sua vida e testemunhando a sua consagração a Deus a serviço da humanidade.

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Acompanhamos continuamente a atenção que a Mídia dá aos casos negativos e execráveis de alguns sacerdotes que infelizmente, com seus atos criminosos e perturbados, mancham o rosto humano da Igreja. Também reconhecemos a importância do trabalho da imprensa em todo este processo, quando esta tem a preocupação com a verdade e o desempenho ético da sua responsabilidade social. Contudo, a capacidade de massificar o negativo, sem considerar o bem que a maioria dos que dedicam a sua vida, com testemunho e serviço, em todos os recantos do globo, faz e promove é que precisa ser analisado, com muita preocupação.

Nesta pesquisa, foi constatado que “a partir da comparação com 2016, ‘destaca-se – porque é a primeira vez que ocorre desde 2010 -, a diminuição dos sacerdotes’ que passaram de 414.969 em 2016 para 414.582 em 2017. Resultam, ao invés, em aumento os bispos, os diáconos permanentes, os missionários leigos e os catequistas. Diminuíram entre 2016 e 2017, os candidatos ao sacerdócio, que passaram de 116.160 a 115.328, com decréscimo de 0,7%. ‘O quadro dos fluxos continentais parece satisfatório na Igreja africana e asiática, enquanto na Europa e na América a diminuição parece muito evidente’, lê-se na publicação. Estável a distribuição dos seminaristas maiores por continente: no ano de 2017, observa-se que a Europa contribui com 14,9% do total mundial, a América 27,3%, Ásia 29,8% e África 27,1%”.

Façamos o comparativo e tratemos a questão com honestidade intelectual para perceber que, mesmo sem querer justificar nenhum tipo de comportamento espúrio, continua a ser ínfimo o número dos que desonram a sua missão e consagração para serem instrumentos da reconciliação entre Deus e o Seu povo.

O que está claro, e eis o meu objetivo, é que precisa haver o amor à justiça para não generalizar e discriminar os sacerdotes que vivem dignamente a sua vocação. Por causa destes pouquíssimos que ofenderam e podem ofender a dignidade daqueles aos quais eles devem cuidar e proteger, os dignos sacerdotes não podem ser injustiçados. A humanidade necessita dos sacerdotes; daqueles que são capazes de buscar a conversão e a santidade, que não significa que não tenham pecados. Não! Como o Santo Padre afirma, daqueles que se arrependem do seu pecado. Estes não são corruptos. A verdade de Deus penetra e purifica as suas consciências. Eles reconhecem o Seu amor e, por isso, acolhem a Sua verdade. E tenhamos certeza: estes são a maioria.

Temos que retomar a narrativa sobre a santidade da Igreja que é indissociável da sua apostolicidade. Tenho refletido sobre esta relação. A identidade sacerdotal na pós-modernidade precisa considerar urgentemente essa relação. O Papa Emérito, Bento XVI, captou teologicamente essa questão. Leiamos a sua homilia no encerramento do Ano Sacerdotal. Uma hermenêutica difusa do Concílio Vaticano II afastou-se dessa perspectiva, nas suas considerações só contextualizadas. Não o Concílio; mas algumas interpretações dele. Penso que a Presbyterorum Ordinis , ofereceu uma síntese integral de quem e de como deveria ser a identidade presbiteral e sacerdotal. Claro que a questão não fica só neste âmbito. Principalmente na formação humana a ajuda das outras ciências, principalmente a da psicologia, deveria ter sido mais valorizada e utilizada nos ambientes formativos, preocupando-se mais com a qualidade do que com a quantidade.

As atitudes da Igreja serão importantes para que o drama do assédio e do abuso de menores seja enfrentado em outros contextos. Essa chaga está em todos os lugares do mundo. Mesmo de modo muito doloroso, a Igreja será o “bode expiatório” que fomentará a tomada de posição e o enfrentamento desta mazela em outras instituições, principalmente a familiar, que cada vez mais está deixando de ser o que deveria ser. A desconstrução do humano também leva a proliferação do que não é humano. Essa rachadura da nossa condição existencial na contemporaneidade está trazendo e apresentando fenômenos, que devem ser enfrentados. Mesmo sem perder a esperança, os problemas devem ser resolvidos com transparência e justiça, sem a ilusão de agarrar-se a uma ingênua misericórdia. Assumir a realidade, não significa que sejamos insensíveis a tantos outros sofrimentos que serão causados e que sabemos que existiram na vida de muitos.

Por fim, mesmo com breves considerações, o que gostaria de dizer é que cada caso é um caso e que as situações particulares não podem determinar a totalidade da composição da vida e do ministério dos sacerdotes. Repito: a humanidade também perderá se não existir lugar no mundo para aqueles que são ministros da reconciliação. Cuidemos uns dos outros como seres humanos e cristãos. Rezemos e abramos os nossos corações à conversão ao Evangelho. Assim o seja!

Pe. Matias Soares
Pároco da paróquia de Santo Maria de Ligório/Natal-RN

Por Redação Catholicus

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