Onde vai o padre para seu cuidado pessoal?

 A resposta parece rápida e direta: a Palavra de Deus, a Oração e a Igreja. Mas, na prática as coisas não são tão simples. Isso pelo menos é o que vem pesquisando há anos o Dr. Willian Castilho, professor e psicólogo clínico, autor de diversos livros sobre a vida religiosa. Para ele, muitos sacerdotes são afetados por uma “Síndrome do Bom Samaritano Desiludido”. Ele analisa as causas que provocam a desmotivação de padres. Segundo o psicólogo, problemas semelhantes são verificados em outras profissões e mesmo em outras confissões religiosas. Em sua casa, ele conversou com o Pe. Gladstone Elias de Souza, para a Revista Paróquias & Casas Religiosas.

Exatamente, do que se trata sua proposta de trabalho?
A exemplo de várias profissões, especialmente daquelas voltadas para a ajuda ao outro, como médicos, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais, também a profissão do sagrado, apresenta desgaste: físico, afetivo, emocional e intelectual. Ando estudando exatamente este desgaste, manifestado de várias formas. Um deles é a redução das forças da criatividade. A pessoa se sente exaurida das energias afetivas, já não tem a mesma satisfação e prazer em desempenhar a profissão, e começa haver um sério desinteresse com as atividades paroquiais. Isso pode levar à tristeza, angústia e a traços de depressão.

O senhor cita alguns sinais que apontam para este desgaste. Poderia detalhá-los?

Um deles é o aumento do estresse. Há um esgotamento nervoso, uma certa impaciência e desânimo. Em uma parcela pequena podem acontecer os transtornos de adicção, ou seja, o alcoolismo, uma freqüência compulsiva à internet, o sexismo, a bulimia ou a própria anorexia, além de outros sintomas físicos. As pessoas devem ficar atentas, pois isso não aparece por acaso. É preciso que analisem de que forma têm vivido sua relação afetiva, profissional e intelectual.

E quais são eles?
Quase todo mundo, ao procurar a vida religiosa, exagera muito na idealização: “vou buscar a vida religiosa, pois ali é um lugar muito bom, onde existe uma fraternidade exemplar. Me sentirei próximo de Deus e muito amado”. Há uma idealização inicial e, depois, um forte desencantamento com aquilo que se procurou e com o objeto do desejo. Na Psicanálise, chamamos isso de relação transferencial amorosa. Para o padre converge muita afetividade, excitação e até agressividade. A própria questão do celibato obrigatório exige muito da pessoa, se ela não tem clareza de sua opção e de seu carisma. Existem também desgastes na convivência institucional entre os padres, seus bispos e provinciais e entre párocos e vigários. 

E como superar esses obstáculos?
Primeiro, criar, dentro do próprio coletivo, uma vida mais afetiva, resgatar a fraternidade e o encontro entre o grupo. Tem-se falado muito também da necessidade de ampliar a formação intelectual do clero. Com isso, você teria uma sustentação para a área da sublimação, no sentido de resgatar a frustração, as decepções e a própria desilusão pelo caminho da intelectualidade. Outra coisa é a mística, hoje resignificada, principalmente, dentro de um princípio que chamamos de resiliência.

O que é resiliência?
É a capacidade de lidar de maneira bem-sucedida com os obstáculos que enfrentamos na estrada da vida enquanto mantemos um caminho reto e verdadeiro na direção dos nossos objetivos. Os indivíduos têm potencialidades muitas vezes escondidas e recalcadas, por medo e até mesmo por uma questão de tabu. Quando tocadas e mexidas, essas potencialidades vêm à tona e podem dar uma vitalidade maior à profissão. 

 

Não seriam necessárias mudanças também na estrutura da instituição Igreja para que possam atingir o clero?
Os sintomas, muitas vezes, nos dão rasteiras. Eles aparecem nos indivíduos isolados, mas nos falam de algo muito mais hermenêutico e institucional. Cabe a todos nós fazermos esta leitura, e não apenas priorizar ou privilegiar o que está acontecendo com o padre fulano de tal, mas, a partir dele, fazer uma leitura dos sintomas da instituição, que é constituída de sujeitos conscientes e responsáveis. Acho que é importante ter esse olhar institucional e ver a questão do poder, do dinheiro, do prestígio, do prazer, da mística, do próprio projeto de pastoral que esta Igreja tem. Se você não tiver essa visão prioritariamente, dificilmente chegará a um resultado interessante.

senhor já foi professor de Institutos de formação sacerdotal como o ISI e o ISTA. Como percebe a formação nos seminários e nos institutos de teologia; e acredita que eles têm cosneguido ampliar a formação para outras áreas demandadas, como a psicológical, por exemplo? 


Acho que sim. Até uns anos atrás, a formação religiosa, tanto diocesana como religiosa consagrada, não priorizava, por exemplo, a questão orgânica, psíquica, cultural, antropológica e mesmo a questão da religiosidade do candidato. Não havia um clamor por parte do educador, no caso o formador, em fazer um processo de formação dialogada, participativa, de comum acordo. Era sempre uma postura de alguém que sabe e o outro que não sabe; de alguém que tem a reposta e o outro não. Isso produzia, evidentemente, todas as patologias que você pode imaginar: dependência, passividade, medo, cinismo, coisas erradas escondidas. Acho que hoje está havendo, não só uma queda do pedestal dessas estruturas ligadas à formação, como também um convite de estar lidando com outros saberes.

Pe. Gladstone Elias de Souza é Reitor do Santuário Nossa Senhora da Conceição e pároco da Paróquia Imaculado Coração de Maria, Arquidiocese de Belo Horizonte-MG, assistente eclesiástico da Associação de Dirigentes Cristãos de Empresa (ADCE/MG)

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