Ao visitar, recentemente, ExpoCatólica realizada em S. Paulo, recordei-me de uma análise que li, importante pela sua pertinência. Transcrevo: “Um especialista em “marketing católico”, assessor de instituições respeitáveis, quando lhe perguntaram se a Igreja católica “sabe vender seu peixe” disse: “Muito mal.

Não deveria ser assim, porque a Igreja opera em condições muito favoráveis. A base do marketing está no que chamamos de quatro “pês”: produto, preço, praça e promoção. A religião católica tem o melhor “produto” do mundo, que é a salvação. O preço também é incomparável. A salvação é gratuita e já existe para todos os que nascem. A praça, ou os locais de distribuição, também é um ponto forte. (Tome-se em consideração o número de paróquias, serviços e instituições). Cada católico é um vendedor potencial. O problema da Igreja é que ela não sabe fazer promoção!…”

A ExpoCatólica procurava respostas e formulava novas perguntas para o diagnóstico em causa. Isso fez-me lembrar outras experiências pessoais em exposições, feiras e encontros internacionais: a Expo 92 de Sevilha; a Jornada Mundial da Juventude em Paris -1997 (também uma expo sui generis); a competente Expo 98, de Lisboa. Agora, no entanto, uma responsabilidade diferente impôs-se na 4ª ExpoCatólica, uma vez que estávamos – eu e o meu superior de missão, Pe. Neves – na condição de missionários vindos do “fim-do-mundo” (salvaguarda-se a qualidade de vida, não a quantidade). Era previsível o meu fascínio, pois estava consciente sobre a “realidade geradora” de uma “EXPO” enquanto laboratório de idéias, mercado de produtos, máquina do tempo, etc. Apesar dos apelos e seduções externos, as mudanças mais importantes ocorreram dentro mim. Comprei muito pouco, mas renasci com imensas idéias, gerando inconscientemente algumas conversões. Assim as aguardo pacientemente. Será a redenção do consumo? “Admirável comércio” (liturgia da encarnação) entre nós e Deus. Um outro olhar sobre o mundo é possível. Passei a observar os olhares das pessoas de forma diferente.

O marketing não é um fim em si, mas um instrumento. Marketing não é vender, fazer publicidade ou promoção, ainda que inclua todas essas técnicas. Em nosso quadro, o marketing consiste em tomar decisões concretas, sobre iniciativas que a Igreja adota ou não, para realizar sua missão na idade nova que se abre diante de nós.

Da experiência prática surgiu uma pergunta: qual a ação que pode e deve ser tomada no início do século XXI, para suscitar na Igreja as mudanças necessárias, a fim de que ela tenha condições de realizar sua missão evangelizadora? A resposta pode estar em um melhor conhecimento das técnicas de marketing. Elas podem ser úteis na preparação do caminho para o posicionamento da Boa Nova na atual paisagem midiática.

Verifiquei isso nas diversas “EXPOs” referidas, em escala micro e macro. Essa aplicação do marketing à religião provoca arrepios em muita gente. Mesmo assim, é utilizado em muitos domínios religiosos (com ou sem a bênção institucional). Aplicar as técnicas do marketing à Igreja não visa modificar o conteúdo da mensagem e sim seu método de difusão. Este é um ponto importante.

Por isso, denunciamos a “ditadura da audiência” (na expressão de Kierkegaard), valorizando os chapéus “camauro” e “saturno” como “incidentes papais”. Propaganda, publicidade, marketing, ou networking online, o futuro está a ser escrito na areia e na rocha. Admirável mundo novo ou velho?
Autor: Pedro José é colunista do Correio do Vouga – Portugal

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